Entrevista para a Editora Salamandra no lançamento de “O maravilhoso mágico de Oz”

  1. Você tem mais de 30 títulos traduzidos, a maioria de literatura infantil e juvenil. Como nasceu seu interesse pela literatura e, em especial, pela tradução? Qual foi seu primeiro trabalho como tradutora?

Acho que literatura sempre foi minha paixão. Aprendi a amar os livros desde pequena, antes mesmo de começar a ler, pois cresci cercada por eles. Eu me lembro que meus pais liam histórias e poesias para mim e para minhas irmãs, e eu não via a hora de poder ler sozinha e descobrir tantas outras aventuras. A tradução entrou na minha vida por acaso, por meio da querida Lisbeth Bansi, que me chamou para traduzir a série Érica. Daquele trabalho em diante, nunca mais tive dúvidas de qual era a minha vocação. Não me imagino fazendo outra coisa a não ser traduzir e escrever literatura.

 

  1. Você já ganhou diversos prêmios da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), como pela tradução da série “Érica”, publicada pela Editora Moderna. Como é ter seu trabalho reconhecido?

 

Reconhecimento é muito importante. Os prêmios da FNLIJ são muito significativos. É só olhar quem está na lista ao seu lado! Eu me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de traduzir livros tão especiais, que ofereceram a possibilidade de trabalhar com tanto prazer. É trabalho mas é minha vida, então coloco tudo ali, no papel. E ver que seu esforço foi reconhecido é maravilhoso.

 

  1. Qual foi seu desafio em traduzir um clássico da literatura, como “O maravilhoso mágico de Oz”, relançado pela Salamandra? É possível trazer novas nuances num título que já foi exaustivamente trabalhado e conhecido?

 

Acho que o maior desafio é, sem dúvida, fazer justiça à fama do livro. Sei que há muitas adaptações, então, como se destacar? Acho que aí entra muito a questão pessoal, de você colocar ali, no texto, sua experiência de leitor, que é maior até que a experiência como tradutor. Os livros que você leu ficam dentro de você e ecoam nas suas frases, nas suas escolhas. É inevitável. A partir desse ponto de vista, um texto será sempre único, pois não há duas pessoas que tenham tido a mesma experiência como leitores. Mesmo que tenham lido os mesmos livros, não viveram a mesma vida e, por isso, não fazem a mesma leitura. A minha tradução, ou melhor, o meu texto, é completamente novo nesse sentido: reproduzo ali a história de Baum, escolhendo palavras que fazem parte da minha história e da minha língua. A emoção tem que ser a mesma em português e em inglês, mas quem escolheu o ritmo da frase ou aquele momento mágico que o leitor tira os olhos do papel para imaginar a cena, fui eu. Idioma é ritmo e todo texto literário tem que ter sua poesia. E quem recria esse ritmo e essa poesia é o tradutor. Então, é possível sim, trazer novidades ao texto a qualquer texto.

 

  1. “Quando o sol encontra a lua”, publicado pela Moderna, foi sua primeira investida como escritora. De onde veio a inspiração para a construção desse enredo? Como foi ver um livro seu publicado?

 

“Quando o Sol encontra a Lua” ficou anos na minha mente. Literalmente. Foi sendo construído aos poucos, sendo inspirado pelas coisas que eu via, ouvia ou assistia. Um dia, eu me sentei na frente do computador e comecei a escrever. Um mês depois, ele estava ali, prontinho. Mas não posso dizer que levou um mês, levou todo esse tempo em que o enredo morou na minha cabeça. Muita coisa na minha vida serviu para a construção dos personagens: Tai Yang (o protagonista) é chinês, então aproveitei a proximidade que eu tenho com a cultura chinesa (meu marido é filho de chineses e eu estudo o idioma) e coloquei um pouco da riqueza cultural chinesa ali. Para quem se interessa é legal, para quem não sabe, é uma oportunidade de conhecer um pouquinho. Vê-lo publicado é uma emoção muito grande! Nas prateleiras da Bienal do Livro, ali ao lado do Pedro Bandeira e da Tatiana Belinky, que são dois escritores que marcaram muito a minha adolescência, parecia um sonho. E o livro foi cuidado com tanto carinho pela Maristela, pela Carol e pela Camila, que encontrou aquela foto perfeita para a capa. Realmente, é muito especial.

 

  1. Quais seus próximos projetos?

 No momento, estou traduzindo mais livros de uma série que eu adoro, que é o Monster High. E o segundo livro já está assando!

 

  1. Qual é o diferencial da parceria com a Moderna e com a Salamandra?

 

Além de a Moderna ser parte de um dos maiores grupos editoriais do mundo, e muito representativa no mercado brasileiro, é também uma família. Todas as vezes que eu me encontro com o pessoal da Moderna eu me sinto em casa. Profissionalismo com simpatia, coisa raríssima de se encontrar hoje em dia. Prezo muito minha relação com a Moderna e com a Salamandra e espero contribuir para a construção de um belo catálogo todos os anos, por muitos anos!

 

  1. Quem é a Renata Tufano na intimidade? Queremos saber um pouco sobre você, sua família, gostos, dia a dia, jeito de ser, modo como trabalha, onde mora, como encara a vida. Enfim, como você se traduz?

 

Adorei a pergunta, “como você se traduz”! Muito apropriada pois é isso que acontece: o que está dentro da gente tem que ser traduzido pro mundo entender. Muita gente conhece meu sobrenome e pergunta, “você é parente do professor Douglas Tufano?”, e o espanto quando eu respondo (com muito orgulho, por sinal), “é o meu pai!”. Graças a ele, e à minha mãe, que também é uma pessoa cultíssima e professora de francês, é que eu tive a oportunidade de conhecer e amar os livros, a literatura e as artes. Minha família é meu porto seguro, é tudo para mim. Meu marido, como eu citei, é filho de chineses e isso faz com que cada dia seja uma descoberta ao lado dele, tanto pelos curiosos aspectos culturais, quanto pelo fato de que qualquer casamento é mesmo uma descoberta, ou mais, por dia! Posso dizer que não vivo sem meu computador, pois passo praticamente o dia inteiro na frente dele, digitando, digitando, digitando! Trabalho em casa, um privilégio nesta cidade tão maluca quanto São Paulo, onde o trânsito é um caos. Faço tudo a pé na Vila Madalena, onde eu moro. Minha paixão, além da dança, são filmes antigos. Há tempos eu coleciono filmes raros, fotos e objetos relacionados ao tema. Uma das coisas que mais me acontece é falar numa conversa com amigos que assisti a um filme com fulano e perguntarem, “quem?”. Minhas obsessões do momento se chamam Robert Donat e Anton Walbrook. Aí você me pergunta, “Quem?” Aí eu respondo, “Que bom que existe Google, não é?” Minha sorte é ter amigos espalhados pelo mundo, que me enviam filmes, fotos e informações que eu nunca conseguiria por aqui.

Aliás, o que seria da vida sem amigos? Meus amigos são muito importantes para mim. Eles também são fonte de inspiração. E gatos, meus amigos peludinhos, são fonte de beleza, assim como observar o pôr do sol, ouvir uma música linda ou ler um poema. O mundo está cheio de beleza e inspiração. Tudo isso constrói sua identidade, sua vida e, no caso de tradutores e escritores, seu texto. É por isso que mais do que apenas saber um idioma, é preciso saber colocar todas aquelas emoções no papel. Isso parece clichê, mas não é. Sentir é fundamental. Porque tenha a certeza de que quando o leitor rir ou chorar naquele trecho é porque o escritor / tradutor também riu e chorou.

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