Antes de você me tocar,
eu era uma jaula
cheia de coisas selvagens.

Minha mãe costumava dizer,
“cuidado com os lobos,
eles conseguem sentir o cheiro
da cama das ovelhas,
a quilômetros de distância.”

Então, todas as noites,
eu dormia nua
e acordava cheirando à lua,
pois minha mãe nunca soube,
que não é o lobo
que dorme com a ovelha,
é a ovelha quem primeiro precisa aprender
a correr com os lobos.

O que eu estou tentando dizer é,
eu sempre me perguntei
como seria o inferno.
Eu apenas nunca imaginei
que eu iria amá-lo
tanto.

Before you touched me,
I was a cage full of
wild things.

My mother used to say,

‘be wary of wolves,
they can smell
the beds of lambs
from miles away.’

so every night
I would sleep naked
and wake up smelling of the moon,
for my mother never knew,
that it is not the wolf
who sleeps with the lamb,
it is the lamb who must first learn
how to run with the wolves.

What I’m trying to say is,
I always wondered
what hell would feel like.
I just never imagined
that I would love it
so goddamn much.

[Pavana]

arte: Painting by Lola Gil

Eu quero te amar como um campo aberto. Um lugar amplo o suficiente para que você liberte as criaturas terríveis do seu coração. Um lugar grande o suficiente para que você possa andar sem destino e, por quilômetros e quilômetros, enxergar apenas eu. 

I want to love you like an open field. A place large enough for you to release the heavy creatures of your heart. A place large enough for you to wander and all you see for miles and miles is me.

[Kelsey Danielle]

art: Christina’s World (1948) – Andrew Wyeth (MoMA – NY)

A gente precisa parar de ter medo

Hoje a palavra que mais escuto é medo: medo de perder o emprego, medo de ficar sem dinheiro, medo de perder quem se quer perto, medo de não dar conta do prazo, medo de sair na rua, medo da chuva…

Se pararmos pra pensar, dá, sim, pra ter medo de tudo. Medo, inclusive, das coisas que a gente mais gosta e estão ameaçadas. Medo de perder é, essencialmente, o medo maior. Como podemos nos livrar desse medo que nos paralisa e nos impede de viver?

O princípio do medo é o apego. Nossa vida deveria ser um treinamento constante de desapego, deixando ir tudo que gostaríamos que ficasse. É difícil, é muito difícil. Escreveu Manuel Bandeira, no poema “Lua Nova”:

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

E, ao deixar partir, também precisamos aprender a partir. A carregar nosso corpo e, com nossa próprias pernas, ir embora. Às vezes, isso é questão de vida ou morte: sair de uma relação abusiva, de um lugar que te faz mal, de um emprego que te deixa doente, de uma vida que você não gosta. É difícil, muito difícil. Mas quando a gente se livra do peso, se dá conta que nem sabe como estava aguentando.

E, às vezes, a gente tem que partir porque tá tudo bem, mas podia ser melhor. Poderíamos sorrir mais, poderíamos viver mais plenamente, poderíamos ter mais flores. Temos que assumir a responsabilidade pelas nossas vidas: a gente está onde a gente se coloca. Quem te colocou aí, onde você não quer estar? Pare de apontar o dedo. Se não foi você, cabe à você, então, sair.

E nessa hora o medo paralisa. Em vez de lidar de uma vez só com um medo enorme, pratique pequenos exercícios de desapego todos os dias: jogue fora, doe, venda. Limpe. Faça as pazes com algo que deixou pra trás. Perdoe. Isso vai construir a sua força. E quando chegar a hora de dar aquele passo, vai ser mais fácil.

Arte: Sandra Dieckmann