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“Você guarda recordações demais”, minha mãe me disse recentemente.

“Por que você não se desfaz de tudo isso?”

E eu disse, “Como é que a gente se desfaz?”

You remember too much,
my mother said to me recently.
Why hold onto all that?

And I said,
Where do I put it down?
Anne Carson 

Gif art by Lucas Ighile and Ayla El-Moussa

More info: 25thcentury.co | Instagram (h/t: fubiz)

Posse

DerSpaziergang by Marc Chagall

A gente tem que começar a entender o conceito de posse. E como a posse é ruim.

“Ter” alguma coisa é sempre uma ilusão. Se a gente tem coisas, objetos, imóveis, carros, a gente, na verdade, tem meios utilitários para determinados fins. Eles ficam obsoletos, quebram, se tornam desnecessários. Fazem parte de um universo temporal, maior ou menor que o nosso, podem durar mais que a nossa vida, podem durar menos. Logo, não são nossos, apenas passam por nós.

Uma pessoa nunca é nossa. Pessoas se aproximam, se afastam, ficam, vão. Estão conosco, mas também estão com o mundo. Não estamos fisicamente dentro do corpo de ninguém, ninguém precisa de outra pessoa pra sobreviver (a não ser claro, num caso de doação de órgãos, mas não é bem o foco aqui). Apreciamos a companhia, abraçamos o momento, aquela pessoa que mora no nosso coração está sempre ali, mas não é nossa. Não temos o direito de trancá-la numa gaiola e, mesmo se o fizéssemos, ela definharia e deixaria de ser aquela criatura linda que amamos.

Não possuímos o planeta, nem a natureza, nem os animais. Estamos aqui para dividir esta atmosfera, para tentar conviver. Existem animais que buscam a companhia humana, outros estão aqui para o equilíbrio da vida e não necessariamente precisam de nós. Eles querem ser deixados em paz.

Tudo é mais bonito quando há harmonia. Se um leopardo das neves é maravilhoso escondidinho no meio das montanhas mais altas, é lá que ele deve ficar. Quando se retira o leopardo de lá, ele perde metade de sua identidade. Quando se arranca um pedaço de uma pedra preciosa para se fazer um pingente de colar que apenas uma pessoa irá usar, a pedra deixa de ser parte de um planeta que é de todos. Na sua mão é ganância, na caverna é de todos.

Por que a gente acha que precisa tomar posse? Por causa de um sentimento que outra pessoa pode tirar algo de mim. É horrível que os humanos ainda não aprenderam que quando ninguém tem, todo mundo ganha. Ninguém mais sabe dividir, apenas repartir em cotas geralmente injustas.

Que sonho o dia em que olhar, muito de longe, um tigre andando lá longe, em toda sua beleza, nos dará o sentido de completude e não de cobiça. Que lindo o amor que deixa o outro livre. Que lindo passear pela vida de mãos dadas com quem nos deixa voar.

[arte: Marc Chagall – La Promenade, 1917/18]