A gente precisa parar de ter medo

Hoje a palavra que mais escuto é medo: medo de perder o emprego, medo de ficar sem dinheiro, medo de perder quem se quer perto, medo de não dar conta do prazo, medo de sair na rua, medo da chuva…

Se pararmos pra pensar, dá, sim, pra ter medo de tudo. Medo, inclusive, das coisas que a gente mais gosta e estão ameaçadas. Medo de perder é, essencialmente, o medo maior. Como podemos nos livrar desse medo que nos paralisa e nos impede de viver?

O princípio do medo é o apego. Nossa vida deveria ser um treinamento constante de desapego, deixando ir tudo que gostaríamos que ficasse. É difícil, é muito difícil. Escreveu Manuel Bandeira, no poema “Lua Nova”:

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

E, ao deixar partir, também precisamos aprender a partir. A carregar nosso corpo e, com nossa próprias pernas, ir embora. Às vezes, isso é questão de vida ou morte: sair de uma relação abusiva, de um lugar que te faz mal, de um emprego que te deixa doente, de uma vida que você não gosta. É difícil, muito difícil. Mas quando a gente se livra do peso, se dá conta que nem sabe como estava aguentando.

E, às vezes, a gente tem que partir porque tá tudo bem, mas podia ser melhor. Poderíamos sorrir mais, poderíamos viver mais plenamente, poderíamos ter mais flores. Temos que assumir a responsabilidade pelas nossas vidas: a gente está onde a gente se coloca. Quem te colocou aí, onde você não quer estar? Pare de apontar o dedo. Se não foi você, cabe à você, então, sair.

E nessa hora o medo paralisa. Em vez de lidar de uma vez só com um medo enorme, pratique pequenos exercícios de desapego todos os dias: jogue fora, doe, venda. Limpe. Faça as pazes com algo que deixou pra trás. Perdoe. Isso vai construir a sua força. E quando chegar a hora de dar aquele passo, vai ser mais fácil.

Arte: Sandra Dieckmann

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O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento. Eu acho surpreendente como não estamos interessados em coisas como física, o espaço, o universo e a filosofia da nossa existência, nosso propósito, nosso destino final. Vivemos num mundo cheio de perguntas. Seja curioso.

The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge. It surprises me how disinterested we are today about things like physics, space, the universe and philosophy of our existence, our purpose, our final destination. Its a crazy world out there. Be curious.

Stephen Hawking

Embora eu não consiga me mexer e tenha que falar através de um computador, em minha mente, eu sou livre.

Although I cannot move and I have to speak through a computer, in my mind I am free.

Mais frases de Stephen Hawking (em inglês): https://www.goodreads.com/author/quotes/1401.Stephen_Hawking

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“Você guarda recordações demais”, minha mãe me disse recentemente.

“Por que você não se desfaz de tudo isso?”

E eu disse, “Como é que a gente se desfaz?”

You remember too much,
my mother said to me recently.
Why hold onto all that?

And I said,
Where do I put it down?
Anne Carson 

Gif art by Lucas Ighile and Ayla El-Moussa

More info: 25thcentury.co | Instagram (h/t: fubiz)

Posse

DerSpaziergang by Marc Chagall

A gente tem que começar a entender o conceito de posse. E como a posse é ruim.

“Ter” alguma coisa é sempre uma ilusão. Se a gente tem coisas, objetos, imóveis, carros, a gente, na verdade, tem meios utilitários para determinados fins. Eles ficam obsoletos, quebram, se tornam desnecessários. Fazem parte de um universo temporal, maior ou menor que o nosso, podem durar mais que a nossa vida, podem durar menos. Logo, não são nossos, apenas passam por nós.

Uma pessoa nunca é nossa. Pessoas se aproximam, se afastam, ficam, vão. Estão conosco, mas também estão com o mundo. Não estamos fisicamente dentro do corpo de ninguém, ninguém precisa de outra pessoa pra sobreviver (a não ser claro, num caso de doação de órgãos, mas não é bem o foco aqui). Apreciamos a companhia, abraçamos o momento, aquela pessoa que mora no nosso coração está sempre ali, mas não é nossa. Não temos o direito de trancá-la numa gaiola e, mesmo se o fizéssemos, ela definharia e deixaria de ser aquela criatura linda que amamos.

Não possuímos o planeta, nem a natureza, nem os animais. Estamos aqui para dividir esta atmosfera, para tentar conviver. Existem animais que buscam a companhia humana, outros estão aqui para o equilíbrio da vida e não necessariamente precisam de nós. Eles querem ser deixados em paz.

Tudo é mais bonito quando há harmonia. Se um leopardo das neves é maravilhoso escondidinho no meio das montanhas mais altas, é lá que ele deve ficar. Quando se retira o leopardo de lá, ele perde metade de sua identidade. Quando se arranca um pedaço de uma pedra preciosa para se fazer um pingente de colar que apenas uma pessoa irá usar, a pedra deixa de ser parte de um planeta que é de todos. Na sua mão é ganância, na caverna é de todos.

Por que a gente acha que precisa tomar posse? Por causa de um sentimento que outra pessoa pode tirar algo de mim. É horrível que os humanos ainda não aprenderam que quando ninguém tem, todo mundo ganha. Ninguém mais sabe dividir, apenas repartir em cotas geralmente injustas.

Que sonho o dia em que olhar, muito de longe, um tigre andando lá longe, em toda sua beleza, nos dará o sentido de completude e não de cobiça. Que lindo o amor que deixa o outro livre. Que lindo passear pela vida de mãos dadas com quem nos deixa voar.

[arte: Marc Chagall – La Promenade, 1917/18]