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O que é ser feminina?

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Fico me perguntando como as mulheres querem ser vistas hoje em dia. Quando digo as mulheres, quero dizer as mulheres perto de mim, que levam uma vida parecida com a minha, freqüentam lugares parecidos e ganham mais ou menos a mesma coisa. Esse mundo é tão grande e tão variado que não podemos discutir o papel da mulher no mundo, mas talvez no nosso bairro. Já pensou nas mulheres da China, da Etiópia, do Egito? Elas estão tão distantes de nós, geograficamente e emocionalmente!

 

No Egito, ainda é uma prática comum a circuncisão feminina (remover o clitóris). Avós e mães ajudam a segurar a menina, de seus 8 anos, geralmente em casa, no meio da noite. Podemos creditar à cultura, podemos chamar de violência… No Egito, e em outros países da África, eles chamam de ritual, um ritual necessário, pelo qual a maioria das mulheres passará.

“No Egito, as estimativas indicam que um entre cada quatro casos de gravidez termina em aborto ilegal, e o resultado é, a cada ano, uma série de complicações muito sérias, que afetam muito mais as mulheres das classes mais baixas. O aborto ilegal, no Egito, atualmente, é a maior causa de morte em gestantes”.

Trecho do livro A Face Oculta de Eva – As Mulheres do Mundo Árabe, de Nawal El Saadawi – Global Editora

 

Enquanto isso, nas paragens mais remotas da China, as mulheres mandam. Em Loshui, há uma comunidade matriarcal onde elas são as donas do dinheiro, das propriedades, dos filhos, de todos os sobrenomes e são quem mandam e desmandam o tempo todo.

“Os Mosuo não têm a menor intenção de ter na mesma pessoa afeto, família e lar. A família, para que perdure, nunca deve estar baseada em um casal. Entendem que isso torna o grupo altamente instável.

O sistema de visitas, como modalidade de vida sexual, mantém os integrantes de uma família consangüinea unidos e a salvo de coabitar com um estranho. Essa é uma das razões fundamentais pela qual a figura do pai é desconhecida. Ao ficar grávida, a mulher não pode definir com certeza com quem concebeu. Se soubesse, também poderia abster-se de contar ao filho, pois é tabu fazer referência ao aspecto sexual diante de familiares.

A proibição de qualquer menção à sexualidade diante de um parente, especialmente do sexo oposto, é uma das razões do sigilo. Um segredo por todos conhecido, como é, em geral, esse tipo de segredo”

Trecho do livro O Reino das Mulheres – O Último Matriarcado, de Ricardo Coler – Editora Planeta

 

Isso sem falar nas mulheres da Índia e seus percalços, nas Européias e seus percalços, nas mulheres dos lugares mais distantes de onde você está agora, e seus percalços…

 

Penso nisso porque acredito que ser feminina é mais do que usar um vestido de florzinhas e “tomar conta” da casa. Mesmo as mulheres que ficam cuidando da casa, trabalham muito e merecem ter o direito de se sentirem desejadas e bonitas. Ser feminina não significa ser “mulherzinha”, mas não tem problema nenhum em sentir-se carente e querer um colo de vez em quando.

Penso que passada a geração feminista dos anos 60, que brigava por direitos iguais, devemos ter em mente que temos que respeitar nossas diferenças, e não querer eliminá-las como se fossem um problema. Menstruação é problema? Carência é problema? Vontade de chorar é problema? Saber que pode comandar uma empresa ou um time de homens é ousadia? Claro que não!

Mais uma vez, o que vestimos manda uma mensagem para as pessoas. Vestidos evidenciando a cintura (não adesivos de lycra, por favor), sapatos de bico redondo, cabelos médios, meio cacheados, maquiagem suave, manda a seguinte mensagem: aproxime-se, sua opinião é importante e eu quero escutá-la. Isso falando num ambiente de trabalho. Terninho de ombros estruturados, sapatos tipo mocassim ou de bico e salto fino, cabelos presos e cores marcantes na maquiagem mandam outra mensagem: cheguei aqui porque sou competente, sei o que estou fazendo e não tenho o menor problema em mandar você ir passear.

Claro que estou colocando as coisas meio 8 ou 80, mas como você se relaciona com o mundo, com as pessoas e com o seu trabalho, é um reflexo de como você se relaciona com a sua imagem. A imagem que você projeta ao mundo. O sexo (homem – mulher) da fisiologia não tem nada a ver com o gênero, socialmente definido. O papel da mulher também não é biologicamente definido.

O que queremos para nós? Queremos um mundo cheiroso, bonito, agradável? Porque não começar com nosso corpo? Isso não é ser mulherzinha… isso é ser gente.