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Violência Não é BELEZA

Não associo diversão à violência. Mas muitas pessoas, infelizmente, sim. Há pouco tempo, entrou em cartaz um filme chamado “Os Estranhos”, que narra a saga de uma família aterrorizada por um grupo de encapuzados que entra na casa simplesmente para maltratar a mãe, o pai e o filho.

Pouco antes, entrava em cartaz “Violência Gratuita”, um filme que narra, em primeira pessoa e em contato direto com o telespectador (os torturadores olham e conversam com a câmera), a história de dois adolescentes que entram na casa de uma família e os torturam. O pior é o que o negócio é refilmagem.

Tensão, medo, violência. Qual é o propósito disso? Catarse? Para fazer pensar? Refletir? Do jeito que eu vejo, acaba dando idéias pra um bando de “sem noção” que não pensa e acha legal o que acontece no filme. Conseqüência: quem não tem nada na cabeça acaba inventando. E não pensando.

É como dar o remédio certo pro doente errado e piorar a situação. Eu não consigo tolerar violência, não assisto, não prestigio, não recomendo. Na minha opinião, nada justifica. O que é belo torna-se a cada dia mais belo. O que é horrível, continuará a ser horrível, mesmo que “ensine” alguma coisa.

Será que não dá pra aprender com a beleza? Exercitar a sensibilidade ao invés de anestesiar-se diante da violência e da injustiça? Não sou forte, não estou julgando ninguém, apenas expressando minha opinião diante do que vejo e percebo. As pessoas que costumam assistir filmes assim (estou generalizando) também não ligam de maltratar animais e desconsiderar outras pessoas (como não ceder o assento para um idoso ou ceder a vez em alguns casos). Tudo acaba ficando pior.

Ao invés de uma overdose de violência, deveria haver uma overdose de beleza. Mas as pessoas acabam ficando tão insensíveis, tão chapadas e neutralizadas, que passam pela rua e não percebem as flores, o canto de pássaros escondidos entre folhas, o bichano deitado no sol da janela. A beleza é silenciosa e vagarosa. Como é o tempo de uma árvore? Uma gota d’água é pequena pra quem? Já parou pra ouvir o vento? Às vezes, é quase nada…

Se deixarmos, o barulho da violência e a rapidez com que ela se propaga vão acabar destruindo tudo o que é belo, inclusive nossa percepção. Não podemos. Meu jeito de passar a beleza adiante é elogiar estranhos e ser simpática. Não sabemos o poder que um elogio pode ter na vida de alguém. Estava no supermercado um dia e elogiei os óculos que a moça do caixa estava usando (sempre reparo em armações de óculos). Ela estava séria e, depois do meu elogio, não parou mais de sorrir. Sorriso é beleza no rosto de alguém.

Às vezes, sinto um certo desânimo e acabo achando que algumas coisas são inúteis. Eu sei que é besteira minha mas fico triste e melancólica. Engraçado que, sempre que estou assim, alguém entra no blog e faz um elogio. Isso muda o meu dia e meu ânimo e faz aquele momento mais belo. E enche de beleza a minha vida.

Todos os dias encontro beleza nas coisas mais escondidinhas, nas mensagens curtinhas, no sorriso das pessoas ao meu redor. Todos os dias também busco encontrar a minha beleza, que é apenas um enorme bem-estar refletido num corpo saudável e no brilho do olhar. Não busco no espelho. Busco no olhar de quem me vê.

 

PIB ou FIB: as Lições do Butão

 

Conheça o reino de Butão, onde a Felicidade Interna Bruta é o fator mais importante.

Visualize um reino de deslumbrantes cumes nevados, com leopardos e iaques vagando pelas montanhas. Com vastas florestas intocadas, onde o contentamento é mais valorizado que o comércio, e um sábio rei que declara que a felicidade de seus súditos é mais importante que a produção econômica.

Um conto de fadas? Um sonho da imaginação? Um reino virtual no Second Life? Nada disso. Estou falando de um lugar real, com pessoas verdadeiras – o reino do Butão, no Himalaia.

O Butão tem capturado a atenção mundial por sua inovadora mensuração da FIB (Felicidade Interna Bruta), em vez de PIB (Produto Interno Bruto). Por décadas, o PIB, índice de progresso que soma todas as transações econômicas de uma nação, tem sido criticado, mais recentemente numa conferência da Comissão Européia, em Bruxelas. O PIB não somente falha em contabilizar os custos ambientais, mas também inclui formas de crescimento econômico que são prejudiciais ao bem-estar da sociedade. Por exemplo, despesas com atendimento médico, crime, divórcio e até desastres como o Katrina são computadas como um aumento do PIB!

A FIB vai um passo além. Ela situa a felicidade como o pivô do desenvolvimento. Desde a época de Aristóteles, e indo até a Declaração da Independência dos Estados Unidos, muitas sociedades consideraram a busca da felicidade um direito fundamental de todos os cidadãos. E agora, em pleno século XXI, o rei do Butão, Jigme Singye Wangchuk – uma das cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a lista da revista Time –, disse que a FIB é o alicerce de todas as políticas de desenvolvimento do governo.

Fui convidada para participar da 3a Conferência Internacional sobre Felicidade Interna Bruta, na semana passada, em Bangcoc, Tailândia. Numerosos palestrantes enfatizaram que, enquanto o PIB se baseou na crença de que a acumulação da produção econômica leva a um maior bem-estar, as pesquisas mostram que, após certo nível de renda, o aumento da riqueza não conduz a um correspondente aumento da felicidade.

“O acelerado crescimento da Ásia nas últimas décadas alcançou o impressionante índice de 10% ao ano”, disse Surin Pitsuwan, ex-ministro do Exterior da Tailândia. “Mas será que estamos mais felizes que antes, com nossa renda aumentando cada vez mais rápido? Muitos dizem que não.” De fato, quando olhei a minha volta em Bangcoc, os graciosos pináculos dos templos tailandeses, com suas douradas telhas cintilando ao sol, foram obscurecidos pelos colossais shopping centers que parecem gigantescas espaçonaves. “Nós aqui do sudeste da Ásia”, afirmou Pitsuwan, “apesar dos nossos milhões de rúpias, de ringgits e de bahts, nos sentimos mais inseguros com relação a nossa vida, a nossa família, a nosso futuro do que jamais sentimos antes.”

O Butão proveu uma alternativa. Os delegados butaneses na conferência atraíram a atenção não apenas por suas distintas túnicas bordadas, mas também por sua aura de júbilo interno. As decisões políticas nesse país, de acordo com Dasho Karma Ura, diretor para o Centro de Estudos do Butão, são tomadas a partir dos indicadores da FIB, que são os seguintes: padrão de vida, saúde, educação, resiliência ecológica, bem-estar psicológico, diversidade cultural, uso equilibrado do tempo, boa governança e vitalidade comunitária. “A renda não é buscada pelo seu bem em si, mas para aumentar a qualidade de vida, para obter a felicidade”, diz ele. “Felicidade baseada na ética, em cultivar relacionamentos entre as pessoas e com a natureza. E também uma felicidade interior baseada na espiritualidade.”

Num mundo de aceleradas rupturas ecológicas, sociais e psicológicas, talvez os butaneses, com sua sabedoria dos Himalaias, tenham algo a nos ensinar. Que possamos alcançar a prosperidade em harmonia com o planeta sem perder a verdadeira fonte da felicidade: nossas conexões uns com os outros, com a Terra e com o espírito dentro de nós.

SUSAN ANDREWS

é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena a ecovila Parque Ecológico Visão Futuro e escreve quinzenalmente em ÉPOCA.

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