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É incrível que eu ainda não tenha abandonado todos os meus ideais: eles parecem tão absurdos e impossíveis de serem realizados. Mesmo assim, eu me apego a eles, porque, apesar de tudo, eu ainda acredito que as pessoas podem realmente ter um coração bom.

It’s really a wonder that I haven’t dropped all my ideals, because they seem so absurd and impossible to carry out. Yet I keep them, because in spite of everything I still believe that people are really good at heart.

[Anne Frank]

Amizade em tempos de redes sociais

Amigos são pessoas do nosso convívio. Amigos são aqueles com quem temos afinidades, longas conversas e silêncios confortáveis. Amigos de verdade já se desentenderam, já se perdoaram, já ficaram anos sem se falar e já dormiram um na casa do outro. Amigos almoçam juntos, jantam juntos, saem juntos. Amigos se abraçam.

De uns tempos pra cá, o conceito de “amigo” mudou. Amigo pode ser aquela pessoa que você nunca encontrou, aquela que mora na tela do smartphone ou do computador. Seu amigo que é uma foto de perfil (que muitas vezes nem é dele) e um nome de usuário engraçado. Um bip de mensagem chegando, uma luzinha piscando.

E esse amigo você nunca abraçou, não sabe que cheiro tem, nem a cor exata dos olhos que você nunca olhou de frente, cara a cara. Esse é o amigo das longas conversas digitadas, das curtidas, dos compartilhamentos, das afinidades silenciosas compartilhadas publicamente.

E sabe aquele que tem mil amigos no Facebook, dois mil seguidores no Twitter, no Vine ou no Tumblr? Ele não tem tudo isso de amigo. Porque amigo, amigo, a gente conhece aos poucos, com tempo. E amigo é difícil de encontrar. Tem gente confundindo popularidade com amizade e tenho certeza que são duas coisas muito diferentes.

Quem aceita 500 amigos por dia não vai sentir falta nenhuma se um deles sumir. E, de vez em quando, também vai tirar um tempo para fazer “uma limpeza” entre seus contatos pois, claro, não significam nada e, muitas vezes, são uns chatos que falam um monte de besteira e discordam do que você posta. Ou você discorda deles.

Ninguém dá “unfollow” ou “desfazer amizade” num amigo. Imagine que isso seria como uma conversa difícil num lugar qualquer, na frente de uma mesa e de um copo de qualquer coisa. “Olha, aqui, fulano, sabe… Eu vou desfazer nossa amizade…”, isso olhando nos olhos daquela pessoa que já passou horas conosco, já conhece nossas opiniões (pelo menos um pouco) e nossos gostos e por quem nutrimos um cuidado difícil de explicar. Mas, um “amigo virtual” é fácil, é só desfazer a conexão. E a vida segue como se quase nada tivesse acontecido. Isso porque aquele não era seu amigo, nem virtual, nem real. Era só alguém.

Existem também os amigos da vida real que passam para a virtual pela força persuasiva da “correria” da vida . Nessa relação, há mais tato, mais familiaridade. Muitas vezes, os encontros e conversas reais não vão parar no virtual, como se fossem dois grupos de amigos diferentes, os de lá e os de cá. E esse amigo, se alguma coisa ruim atravessar o caminho, será mais difícil de bloquear. Mais doído, pelo menos. E ele vai estar ali, presente nos nossos dois mundos. E esse a gente vai achar que conhece bem demais.

O que acontece é que, no final das contas, há, apenas, os amigos. Amigos sem aspas, sem classificações, os que ultrapassam a barreira da tecnologia. Queridos, importantes, presentes. É possível estabelecer uma relação, construir uma amizade, criar um repertório particular de piadas, ter um “ombro” pra chorar, um companheiro para rir. E desse não dá pra desconectar. E se ele sumir, dá um aperto de saudade igual não encontrar e abraçar seu melhor amigo “real”.

Tem gente que esquece que as palavras não aparecem sozinhas numa tela, num status, num tweet. Tem alguém escrevendo, tem alguém sentindo, e muitas vezes, esse alguém está esperando uma resposta. Amizades, como qualquer relacionamento, exigem tempo e cuidado. De longe, então, é ainda mais difícil, mas é possível.

Amigos virtuais são reais. Também vão pisar na bola, também vão nos emocionar e também estarão presentes na hora de dar aquela curtida na foto do momento mais lindo da sua vida.

 

Foto: Graham Morrison

Você é o que você compra

 

 

Dia desses vi um documentário que me fez pensar bastante. Chama-se Procura-se e fala do comércio e das confecções do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Primeira coisa que me chamou a atenção foi a pergunta que fizeram e que ficou no ar para ser respondida durante o filme: por que a roupa é mais barata? Se você respondeu que porque é atacado ou porque há incentivos, está só meio certo. A verdade é que muitas peças são feitas por pessoas em péssimas condições de trabalho, que aceitam receber qualquer coisa pelo que fazem, e por uma cadeia de eventos criminosa. Isso inclui imigrantes bolivianos que costuram uma calça por 75 centavos, contrabando de mercadoria vinda da China e até mortes pelo caminho.

No ano de 2008, a China declarou que exportou 12 mil toneladas de produtos para o Brasil. Mas sabe quantas entraram legalmente? Apenas 3 mil. O resto entrou sem pagar imposto, sem gerar empregos, às custas da saúde ou da vida de alguém. É verdade que até podemos apontar o dedo e dizer que o governo rouba e quem sonega impostos está certo. Mas isso seria apenas justificar um erro pelo outro.

Não é assim que tem que ser. Quando você se deparar com um produto falsificado, barato demais, vendido em circunstâncias suspeitas, pare pra pensar. Comprar esse produto alimenta uma rede de pessoas criminosas e endossa seu apoio à elas. Você pode se perguntar: “mas se só eu parar de comprar, que diferença vai fazer?”. Em termos imediatos e absolutos, nenhuma. Mas se cada pessoa pensasse assim na hora de justificar um roubo, um assassinato, uma única injustiça, poderíamos perder as esperanças de vez, não é?

Então, não se trata de mudar o sistema, o que requer políticas de incentivo às empresas e apoio aos trabalhadores, mas de não apoiá-lo. Se você vê a mesma jaqueta, que naquela loja custa R$120, por R$30 em outra, acredite, não é milagre. Não pense “é o meu bolso, sou eu quem vai sair ganhando, então dane-se! Vou pagar menos!”. Pare, pense e, às vezes, não compre. Provavelmente, você não precisa mesmo daquela peça.

E com certeza você terá mais tempo que se interessar pelo comércio justo, que gera empregos e renda, incentivos, consumo consciente e, no fim das contas, um país melhor. Parece pouco, quase nada, uma atitude simples de não comprar contrabando ou uma calça/blusa/qualquer coisa que tenha sido costurada por um boliviano faminto, num quarto escuro e inadequado para trabalhar. Mas vai fazer diferença pra você e pro futuro.

 

Digno de nota: a C&A e a Renner têm um programa de incentivo à cooperativas e pequenas empresas prestadoras de serviço. Isso inclui contratar apenas empresas que pagam os direitos de seus funcionários e os mantém em condições ideais de trabalho. Não é um exemplo a ser seguido?

 

Inspiração para parar e ler

 

“Os homens de hoje são forçados a pensar e a executar em um minuto o que seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro e de rufos* de febre no sangue. O livro está morrendo porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de 100 páginas sobre o mesmo assunto”.

 

Olavo Bilac, em 1904

 *rufus = ondas, no sentido metafórico.

 

Arte: John Frederick Peto (1854-1907), Take Your Choice, 1885, oil on canvas, John Wilmerding Collection

Twitter e o Pôr do Sol

Sim, estou usando o Twitter. Escrevi algumas vezes. Agora escrevo só de vez em quando. Da vida dos outros, dos tais famosos, também me cansei. Quando a gente começa a ver que tem tanta gente fazendo coisas supostamente mais interessantes do que o que estamos fazendo, podemos achar que nossa vida é sem graça e que nossa meta deve ser essa ou aquela vida.

Aí que a gente erra. Primeiro por não darmos valor ao que temos e achar que a felicidade está sempre um passo adiante, uma compra adiante, um relacionamento adiante. Não está. O maior desafio é tentar enxergar a felicidade daquele momento, por mais simples que ela seja, por mais brega que possa parecer, por mais gosto de ‘bolo simples e sem cobertura’ que tenha.

Segundo, porque erramos em nos interessar mais pela vida dos outros do que pela nossa. A vida de todo mundo dá um livro, mais ou menos interessante, mais ou menos apoteótico, mas é uma narrativa de vida e ela não precisa “dar certo”, o que quer que isso signifique num contexto capitalista. Claro que temos que ter metas, temos que ser ambiciosos, mas egoísmo é um negócio horroroso e muitas pessoas acreditam que devem “chegar lá” a qualquer custo, mesmo que puxando tapetes alheios ou sendo desleal. Quando a gente coloca metas reais pra alcançar um sonho que parece irreal, damos o primeiro passo em direção à realização pessoal, que é apenas outro nome da felicidade. Conservar e cuidar dos amigos, respeitar nossos sentimentos e motivos, ser leal, honesto e sincero, encurta e facilita o caminho até a felicidade.

Por isso, eu não acho o twitter o máximo, não dou muita importância (embora isso tenha sido capa de revista um monte de vezes… assim como o orkut) e não quero saber o que estão fazendo ou onde estão alguns fulanos pouco ou muito famosos por aí. Quero saber de mim e de quem eu amo, dos meus amigos e amigas mais que queridas, das pessoas que tem algo a me dizer, e sobre esses, posso até recorrer ao twitter. E principalmente, não quero desperdiçar meu tempo, meus recursos e minha energia. A gente perde tanto tempo adquirindo informações que amanhã não servirão para nada! Já pensou nisso?

Na minha frente, entra pela janela uma luz dourada típica de um pôr do sol de inverno. Vai durar apenas alguns minutos e logo terá desaparecido na noite. “Nothing gold can stay” (“nada que é dourado pode durar), já dizia o poeta. Prefiro assistir ao pôr do sol a ficar correndo atrás de bits e bytes. No silêncio das máquinas desligadas e de mim mesma. “The grass below… Above, the vaulted sky” (“A grama embaixo… Acima, o céu arredondado”).

 

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O pôr do sol na janela… Não é lindo?

 

E pra quem tá em Sampa, neste final de semana acontece a Feira de Artesanato da Vila Madalena, na Rua Fradique Coutinho, dia 16, a partir das 8h. Vai passear! 😉