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Bio

Nasci num lar de professores de língua portuguesa, no bairro italiano da Mooca, em São Paulo, em 1975, a segunda de três meninas. Moramos em São Paulo até 1980, quando nos mudamos para a cidade de Jundiaí, no interior do estado. Ali, tive aquela infância maravilhosa de subir em árvores, brincar no tanque de areia, conviver com cachorros e galinhas e aprender todo tipo de trabalho manual, dentre eles o tricô e a tapeçaria, passatempos deliciosos que ocupam minhas mãos até hoje, quando moro novamente em São Paulo.

Desde muito cedo tive contato com a língua inglesa, a ponto de só mais tarde descobrir que o português e o inglês eram, na verdade, duas línguas diferentes. Do meu avô João, herdei na minha fala a música da língua italiana e a cidadania européia. Meus ouvidos também se acostumaram com o francês falado pelo meu pai e pela minha mãe. Minha avó Yolanda, que também era professora e alfabetizadora, me ensinou a ler quando eu tinha 6 anos, e eu não parei mais.

Todo escritor é, antes de tudo, um leitor. E eu dei meus primeiros passos, literalmente, para alcançar um livro na estante. Meu primeiro amor foi um livro de poemas de Cecília Meireles, “Ou Isto ou Aquilo”, que me abriu as portas para a beleza da literatura.

Antes de ir para a faculdade, viajei muito: fiz intercâmbio na Dinamarca, estudei na Inglaterra e na Itália, conheci lugares maravilhosos que me abriram a mente e o coração. Estudei muito nesses tempos “fora da escola” e garanto: dá para aprender muito em qualquer lugar. Viajar é sempre um aprendizado enorme. E aprender idiomas é abraçar uma cultura inteira! Consigo me virar bem em italiano, francês e, agora que sou casada com um chinês, até em mandarim!

Eu me formei na PUC (Campinas) em Letras – Português e suas Literaturas no ano de 2000. E, três anos mais tarde, concluí a pós-graduação em História da Arte na FAAP.

Minha primeira tradução foi lançada em 2001 (veja a página das minhas Publicações) e é uma grande paixão. É como escrever um livro junto com um autor incrível, que você admira. E eu não me canso de traduzir: já são mais de quarenta títulos.

Meus livros, Quando o Sol Encontra a Lua, e Brigas, Bilhetes e Beijos, são pedaços do meu coração. Sou muito grata à Editora Moderna por ter acreditado na minha escrita e ter feito com que ela chegasse às mãos de tantos leitores maravilhosos pelo país.

O que mais posso dizer? Todos os animais me fazem sorrir, minha flor preferida é o amor-perfeito, meu perfume é o do ciclame, tenho admiração por araucárias, já fui bailarina, amo todas as cores, cheiros me trazem memórias, gosto de decorar poemas, comer pipoca e fazer amigos. Dou presente sem data marcada e paro para olhar o pôr do sol todos os dias.

Foto: Manoel Guimarães

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Eu sempre sinto que os livros nos encontram por alguma razão e nós os lemos no momento em que mais precisamos deles.

Neil Patrick Harris

Talvez seja por isso que lemos e por isso que em momentos de escuridão recorremos aos livros: para encontramos palavras para o que já sabemos.

Alberto Manguel

O dia que eu contei histórias cheias de cor e sorrisos

Já faz tempo… Mas hoje me lembrei do dia que contei histórias na biblioteca.

Foram dois dias, na verdade, dois encontros com crianças entre 7 e 10 anos que vieram descobrir a história da Érica, uma menina que conseguia entrar em quadros e falar com a Monalisa. Esta história se divide em três livros lidamente ilustrados por James Mayhew e que eu tive o privilégio de traduzir (os livros, que receberam o selo Altamente Recomendável, foram publicados pela Editora Moderna e podem ser encontrados nas maiores livrarias).

erica e os impressionistas

erica e os girassois

erica e a monalisa

A criançada ouviu a história da Érica com a Monalisa e da Érica com os girassóis e depois passamos um tempinho desenhando e pintando. Os trabalhos foram depois expostos na Biblioteca Pública Municipal Prof. Nelson Foot, em Jundiaí (SP).

Veja todas as fotos do primeiro encontro aqui e do segundo encontro aqui.

Que bom olhar pra trás e ver tanta alegria. 🙂

Para Crianças de Todas as Idades – II

Eu já tinha feito um post sobre livros lindos, eternos e para todas as crianças, de coração ou idade. Mas não resisti e tive que fazer outro. Aqui estão mais livros imperdíveis, para crianças a partir de 5 anos. Tofos são da CosacNaify.

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Arthur Nestrovski e Maria Eugênia propõem um novo exercício de imaginação. Dessa vez, abordam o fascínio que objetos do cotidiano exercem sobre o mundo infantil. Ao invés da crítica ao consumismo da vida moderna, os autores resgatam sua dimensão lúdica. Subvertendo a resposta à pergunta tradicional “o que você quer ser quando crescer?”, no lugar de médico ou advogado surgem depoimentos insólitos: um lápis, um celular, um guarda-chuva. Para leitores em fase de alfabetização e todos que um dia desejaram ser outra “coisa”.

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Os poemas do francês Jacques Prévert (1900-1977) falam da liberdade dos passarinhos, do tempo estático dos caramujos e da malícia dos gatunos. São dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hofman, que também assina os delicados desenhos em nanquim. O livro é uma porta aberta para o sonho e a imaginação, enriquecida pelo olhar ao mesmo tempo cotidiano e trágico. Um dos mais importantes autores da língua francesa em tradução refinada do poeta Carlito Azevedo. Antologia bilíngue que encantará crianças e adultos.

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Uma obra-prima da literatura infantil. O Livro Inclinado, de Peter Newell, publicado originalmente em 1910, vem juntar-se a títulos contemporâneos da editora para formar uma biblioteca fundamental dirigida às crianças século 21. A ousada edição de Peter Newell – que rompeu de modo genial com as formas tradicionais do livro – é a síntese harmoniosa através da qual inovação e criatividade diluem categorias como antigo e moderno para se transformar em verdadeiro clássico.

O Livro Inclinado é divertidíssimo. Nele, nada é gratuito. O autor soube criar um design adequado à história. Este conceito – estampado no título, em referência ao formato inusitado – valoriza e dialoga radicalmente com a narrativa: um carrinho de bebê segue desgovernado ladeira abaixo e causa grande desordem por onde passa, atropela a moça que carrega uma cesta de ovos, derruba o pintor do alto da escada, passa entre dois homens segurando uma vidraça… uma confusão que poderia ser angustiante revela-se, pelas rimas e traços do autor, graciosa e bem-humorada. O bebê é quem mais se diverte com os estragos deixados pelo caminho.

As elaboradas ilustrações de Newell lembram a Nova York do começo do século 20: o comércio (estrangeiros vendendo quinquilharias), as profissões (boiadeiro, vidraceiro, pescador, pintor), os costumes (comprar alimentos na fazenda, fazer piqueniques, vender jornais na rua) e até a moda (melindrosas com seus belos chapéus, homens trajando cartola e suspensório).

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Após o sucesso de O Livro Inclinado, chega às livrarias, também em edição fac-similar, outra obra do precursor do livro-objeto, Peter Newell. Escrito em 1912, O Livro do Foguete é nova amostra da inventividade do autor, com recursos gráficos integrados à narrativa.

A história é bastante inusitada: no porão de um edifício, um garoto encontra um morteiro e não hesita em ascendê-lo. O foguete, como não poderia deixar de ser, dispara prédio acima, furando todos os apartamentos – e as páginas do livro – por vinte andares.

Na subida, perfura uma banheira, estoura uma jarra de suco, arranca a peruca do vovô, acende um cigarro… até chegar à cobertura onde, finalmente, se apaga num mergulho no pote de sorvete. A confusão mostra-se bastante divertida pelo texto rimado e cadenciado do autor, traduzido de forma primorosa pelo poeta ivo barroso.

As ilustrações – que revelam expressões assustadas ao ver os estragos causados pelo foguete – interagem com o furo nas páginas, essencial para a narrativa em versos. Trazem ainda referências das casas na nova york do começo do século 20: o mobiliário (poltronas, baús, retratos antigos na parede, banheiras, penteadeiras), as roupas (trajes sociais dentro de casa, com camisas, boinas, lenços e gravatas) e os brinquedos (cavalo de balanço, trenzinhos, bola e casinha).

Um livro que já marcou a infância de várias gerações, agora disponível às crianças do século 21. Para leitores arteiros que moram nas grandes cidades. Um trunfo para pais e professores.

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Kachtanka é um emotivo conto de Tchekhov, essencial para a formação de uma biblioteca básica de textos universais. A cadelinha Kachtanka, cujo nome significa “ruivinha”, se perde de seu dono e é adotada por um palhaço de circo. Traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, a história confronta a saudade e a adaptação em um mundo completamente diferente. É sob a perspectiva da cachorra que acompanhamos o desenrolar desta narrativa. Com extrema sensibilidade, o também russo Guenádi Spirin transformou esta edição em uma obra clássica ao criar ilustrações que recuperam características tradicionais do renascimento italiano, pelo traço seguro e fidelidade ao real.

 

Inspiração para parar e ler

 

“Os homens de hoje são forçados a pensar e a executar em um minuto o que seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro e de rufos* de febre no sangue. O livro está morrendo porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de 100 páginas sobre o mesmo assunto”.

 

Olavo Bilac, em 1904

 *rufus = ondas, no sentido metafórico.

 

Arte: John Frederick Peto (1854-1907), Take Your Choice, 1885, oil on canvas, John Wilmerding Collection