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“Você guarda recordações demais”, minha mãe me disse recentemente.

“Por que você não se desfaz de tudo isso?”

E eu disse, “Como é que a gente se desfaz?”

You remember too much,
my mother said to me recently.
Why hold onto all that?

And I said,
Where do I put it down?
Anne Carson 

Gif art by Lucas Ighile and Ayla El-Moussa

More info: 25thcentury.co | Instagram (h/t: fubiz)

Olhe para o céu

Quando penso na arte romântica, nas paisagens bucólicas europeias do século 18 e 19, na figuração não geométrica e não abstrata, nas metáforas visuais do mundo ideal, idílico e por vezes alegórico dos quadros de enormes proporções desse período, eu sempre acabo fugindo do espaço entre molduras. A arte romântica de Turner, por exemplo, com suas aquarelas macias, quase palpáveis, me dão vontade de fechar o livro e correr para a janela. Especialmente quando o dia está acabando naquela luz avermelhada e quente, naquele azul quase lilás que aparece entre nuvens, como se fosse o vento refrescante suavizando as matizes solares.

Sempre me lembro de um ditado francês que diz: “Quand le doigt montre le ciel, l’imbécile regarde le doigt”. “Quando o dedo aponta o céu, o imbecil olha para o dedo”. A arte, para mim, é o dedo. Especialmente a arte romântica das grandes paisagens de proporções monumentais, os jardins assimétricos, as fontes de água que borbulham, representando o sem-fim dos ciclos da vida. Quando olho para Turner, tenho vontade de olhar para o céu.

De uma forma menos literal, entretanto, pode-se entender que o objetivo maior da arte é, também, apontar para coisas mais difíceis de enxergar: medos, dúvidas, verdades. Transcender a arte é treinar o olhar para fazer o caminho do dedo para o céu. Quem se estratifica no contexto e na interpretação olha demais para o dedo. Sim, essas duas coisas são importantes mas não são o principal. Elas apontam o caminho do olhar, do coração, do verdadeiro propósito de toda e qualquer obra de arte: expandir horizontes. Mesmo que sejam os horizontes dentro da gente.

A gente nunca fica do mesmo tamanho depois de olhar para uma obra de arte.

Viajar pra dentro da gente

 A gente viaja pra conhecer lugares novos, comer comidas novas e, se der sorte, até conhecer pessoas novas. A gente vai com a certeza que encontraremos um monte de coisas diferentes e que vamos trazer lembranças e várias histórias pra contar. Mas o que eu vejo, na maioria das vezes, é que uma viagem, dessas de verdade, que tiram a gente da zona de conforto e nos colocam em situações que às vezes nem gostaríamos muito, muda mesmo o lugar de onde a gente saiu. Quando voltamos, o apartamento não é mais o mesmo, nossas roupas encontraram outro significado, até o gosto da mesma comida de sempre é diferente. Viajar muda o mundo dentro da gente. E é por isso que faz tão bem: a gente traz com a gente outros mundos pra morar embaixo do mesmo teto, pessoas, gostos, paisagens, que nunca mais sairão de dentro de nós. Quando a gente começa a viajar, a gente não para mais. E isso não significa ir para a Europa todo ano ou até pro interior, ou pra praia, ou até mesmo sair do lugar. Com tantos lugares dentro da gente, conseguimos projetar na nossa vida uma mudança diária, um maravilhamento, uma sensação que as coisas estão, sim, diferentes. Muitas vezes pra melhor. E se a gente parou pra fotografar o por do sol em Santorini, porque não parar para observar o por do sol que se desenrola todos os dias bem diante da nossa janela?