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Você é o que você compra

 

 

Dia desses vi um documentário que me fez pensar bastante. Chama-se Procura-se e fala do comércio e das confecções do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Primeira coisa que me chamou a atenção foi a pergunta que fizeram e que ficou no ar para ser respondida durante o filme: por que a roupa é mais barata? Se você respondeu que porque é atacado ou porque há incentivos, está só meio certo. A verdade é que muitas peças são feitas por pessoas em péssimas condições de trabalho, que aceitam receber qualquer coisa pelo que fazem, e por uma cadeia de eventos criminosa. Isso inclui imigrantes bolivianos que costuram uma calça por 75 centavos, contrabando de mercadoria vinda da China e até mortes pelo caminho.

No ano de 2008, a China declarou que exportou 12 mil toneladas de produtos para o Brasil. Mas sabe quantas entraram legalmente? Apenas 3 mil. O resto entrou sem pagar imposto, sem gerar empregos, às custas da saúde ou da vida de alguém. É verdade que até podemos apontar o dedo e dizer que o governo rouba e quem sonega impostos está certo. Mas isso seria apenas justificar um erro pelo outro.

Não é assim que tem que ser. Quando você se deparar com um produto falsificado, barato demais, vendido em circunstâncias suspeitas, pare pra pensar. Comprar esse produto alimenta uma rede de pessoas criminosas e endossa seu apoio à elas. Você pode se perguntar: “mas se só eu parar de comprar, que diferença vai fazer?”. Em termos imediatos e absolutos, nenhuma. Mas se cada pessoa pensasse assim na hora de justificar um roubo, um assassinato, uma única injustiça, poderíamos perder as esperanças de vez, não é?

Então, não se trata de mudar o sistema, o que requer políticas de incentivo às empresas e apoio aos trabalhadores, mas de não apoiá-lo. Se você vê a mesma jaqueta, que naquela loja custa R$120, por R$30 em outra, acredite, não é milagre. Não pense “é o meu bolso, sou eu quem vai sair ganhando, então dane-se! Vou pagar menos!”. Pare, pense e, às vezes, não compre. Provavelmente, você não precisa mesmo daquela peça.

E com certeza você terá mais tempo que se interessar pelo comércio justo, que gera empregos e renda, incentivos, consumo consciente e, no fim das contas, um país melhor. Parece pouco, quase nada, uma atitude simples de não comprar contrabando ou uma calça/blusa/qualquer coisa que tenha sido costurada por um boliviano faminto, num quarto escuro e inadequado para trabalhar. Mas vai fazer diferença pra você e pro futuro.

 

Digno de nota: a C&A e a Renner têm um programa de incentivo à cooperativas e pequenas empresas prestadoras de serviço. Isso inclui contratar apenas empresas que pagam os direitos de seus funcionários e os mantém em condições ideais de trabalho. Não é um exemplo a ser seguido?

 

Ciclo Cinema Corpo e Moda – Identidade de Nós Mesmos

Último filme do ciclo foi o documentário Identidade de Nós Mesmos ou Anotações para Roupas e Cidades, de Wim Wenders.

 

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Wim Wenders acompanha Yohji Yamamoto em seu atelier, durante as provas para a coleção que será apresentada em Paris. Seu processo criativo é exposto de maneira delicada, silenciosa. Nós e o documentarista somos quase testemunhas de um momento especial, que Yamomato nos deixa assistir.

Além, é claro, do grande assunto do filme — o processo criativo de Yamamoto — há muitas argumentações paralelas: as cidades e como elas influenciam o processo, a roupa e a imaginação; o olhar do documentarista e sua avaliação da imagem que produz; a roupa e a mulher que a veste.

Trata-se de um documentário, não de uma história com começo, meio e fim. Há argumentações, não narrativas. A única coisa que tem começo, meio e fim é a produção e o desfile do estilista em Paris. Perguntar-se sobre as semelhanças e diferenças entre Paris e Tóquio, o ato de documentar, a forma como se fotografa e filma, tudo é questionado pelo diretor/narrador.

Mas vamos falar de Yamamoto… Um artista, mesmo. Um universo inteiro. Ao começar a criar para a mulher européia, ele comenta sobre as diferenças de proporção em relação ao corpo da japonesa. Além da diferença física, outros aspectos relevantes para a criação são percebidos: as emoções, a geografia, os pensamentos, o modo de vida daquela outra mulher. É outro mundo.

O processo de criação começa com a escolha do material ou com a escolha da forma. Certas formas pedem certos materiais e certos materiais pedem uma determinada forma. Cores são texturas e emoções. Por isso ele só cria em cima do preto, que para ele traz emoções mais condensadas, como a junção de todas as cores. Depois ele escolhe a matiz que será feita a peça. Mas sua paleta possui poucas cores, geralmente muito preto, algum branco e toques de vermelho.

 

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Certas formas pedem certos materiais e certos materiais pedem uma determinada forma. Cores são texturas e emoções.

Repare no tecido estruturado do blazer e das formas drapeadas do vestido/casaco. À cada um, seu material.

 

Yohji gosta de ressaltar que é japonês mas não é apenas japonês. Suas roupas não tem nacionalidade. Seu estilo é a expressão de um sentimento. Por isso, é impossível copiá-lo. Sua linguagem é única e reconhecível. Ao criar uma roupa, ele busca descobrir a “essência” dela no processo de fabricação. Gosta de ser chamado de costureiro, gosta de se debruçar sobre os moldes, presta atenção nas costuras. Adora explorar as assimetrias: lembra que quando algo é simétrico, incomoda. O ser humano não é simétrico em suas emoções, em seus pensamentos e até mesmo em seu corpo. Suas peças de roupa são tão convidativas que ele gostaria que as pessoas “morassem” nelas e se identificassem a tal ponto que, se alguém visse o casaco de alguém jogado no chão, não diria “é o casaco do fulano” mas sim “é o fulano”.

 

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Os pespontos, o preto e o branco e as assimetrias: marcas de Yamamoto.

 

Sobre estilo, ele deu uma aula: estilo pode ser uma prisão de repetições. Mas aceitar seu estilo te dá a chave para abrir essa prisão e tornar-se o guardião dela, deixando entrar somente o que você quer. Nesse aspecto, temos que pensar também no que passa e no que fica, o efêmero e o permanente. Vítimas do consumismo geralmente só enchem os armários de efemeridades, coisas que passarão, roupas que em nada se parecem com quem as comprou. O permanente é não apenas o clássico, mas algo prático, que dá a liberdade para quem o veste ser e exercer as funções que se propõe. Pessoas não deveriam consumir roupas, deveriam ser aquelas roupas. Claro que a moda movimenta o mundo. E moda não é apenas roupa: podem ser pessoas, filmes, livros, músicas e até mesmo prédios. E muitas vezes, moda também acomoda a necessidade: se você está morrendo de frio vai precisar de um casaco. Ele pode ser até assim ou assado, mas em primeiro lugar vem sua necessidade de não morrer de frio. Assim que as pessoas deveriam consumir. Consumindo tudo o que podem, acabam consumindo a vida e tudo que podem comprar como objetos, sem ter nem ao mesmo consciência desses objetos. No minuto em que estão na mão, já se tornam obsoletos. O consumista só quer o que ainda não tem, mesmo que já tenha muito. “Felicidade seria obrigar as pessoas a viverem de forma simples e sem comprar”, frase de Yamamoto que me soou como marketing, porque se todos obedecessem ele iria à falência. Mas concordo com a primeira parte: viver de forma simples também significa comprar menos e com mais consciência das suas necessidades.

 

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Reparem que em suas criações a mulher aparece sempre muito verticalizada, altiva, oferecendo um destaque para o colo e o rosto. Yamamoto significa “ao pé da montanha”. Talvez seja assim que Yohji se coloque: aos pés dessa mulher ativa, trabalhadora, executiva, guerreira. Mulheres como sua mãe, que o criou sozinha depois que seu pai morreu na guerra. Aliás, a guerra incomoda Yohji. “A guerra ainda não acabou dentro de mim”, diz ele. O sentimento de luto e de falta de futuro parece assombrá-lo e revoltá-lo. Mas ele sublima a guerra dessa forma: vivendo o presente, “desenhando o tempo”, vivendo na moda de forma atemporal e anti-glamurosa. “A simetria perfeita é feia. Precisamos quebrar, destruir um pouco”. Desconstruindo linhas, construindo sonhos. Assim segue Yamamoto.

 

Pra conhecer mais sobre o estilista, visite o site oficial. As fotos foram tiradas daqui, daqui, daqui e daqui. Essa menina é fã dos japoneses e escreve coisas lindas. Pra pensar muito.

 

Nota Importante: Esse artigo foi escrito baseado nas minhas anotações do encontro. São ideias coletadas por mim mas partilhadas por todos os que estiveram presentes. Para ver os palestrantes e seus currículos, clique aqui.

 

Obrigada ao pessoal da PUC-SP, por promover com tanto comprometimento e profissionalismo um evento com tanta qualidade. E também por me convidar! Até o próximo!