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Lojas Renner – Desafios da Sustentabilidade

Na quinta-feira, 10/10/19, as Lojas Renner organizaram um workshop no Instituto Tomie Othake em São Paulo para discutir os desafios de manter uma prática sustentável em todos os aspectos de seu negócio. Estive presente representando a Ana Soares, do Moda Pé no Chão, que gentilmente me cedeu o convite.

As Lojas Renner são uma das maiores fast fashion do planeta, com um faturamento anual que ultrapassa 1 bilhão de reais, de acordo com o relatório de 2018. A sustentabilidade está presente na missão e nos valores corporativos da Lojas Renner. A varejista assumiu alguns compromissos públicos para o ano de 2021 como, por exemplo, ter 80% dos produtos feitos com matérias-primas e processos menos impactantes, utilizar algodão certificado em 100% de sua cadeia de fornecimento, entre outros.

Como parte dessa reestruturação, a marca também criou o selo Re – Moda Responsável, que representa uma forma de pensar e praticar a sustentabilidade em diversas esferas de seu negócio. “As iniciativas da Renner nesta área envolvem um trabalho contínuo de pesquisa e desenvolvimento de produtos que é feito em parceria com a nossa rede de fornecedores. Acreditamos que este é o caminho. Quanto mais integrada e engajada estiver a cadeia têxtil, mais viável será para produzir de forma sustentável em larga escala”, conta o gerente sênior de sustentabilidade da Lojas Renner, Eduardo Ferlauto.

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A coleção contempla diferentes atributos de sustentabilidade, seja pelo uso de materiais alternativos ou pela adoção de processos e tecnologias que diminuem o impacto ao meio ambiente. Dentre as matérias-primas utilizadas estão o algodão BCI, a viscose certificada, a poliamida biodegradável e o liocel. Outro destaque é o fio reciclado, resultante do reaproveitamento de resíduos de malha da própria varejista, dentro do conceito de fechamento de ciclo da economia circular. “Ficamos felizes em disponibilizar aos nossos clientes produtos com atributos sustentáveis, qualidade e informação de moda”, diz Fertulato.

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No workshop, a discussão foi acerca da conscientização do cliente e de como o atributo de sustentabilidade muda a experiência de compra, escolha ou de consumo. O que chama a atenção é que a Renner não quer apenas fornecer produtos que impactem menos o meio ambiente, mas modificar os sistemas de gestão de seu próprio negócio, reaproveitando materiais usados nas embalagens e transporte, gerando menos lixo ao utilizar reciclagem nos pontos de venda, fábrica e sedes administrativas, e fomentando a discussão entre seus colaboradores.

Falando neles, o intuito, com meta para os próximos 5 anos, é que estes se tornem embaixadores da causa, não só dentro da loja, mas que apliquem essas mudanças em seu dia a dia. Uma coisa simples, como não usar mais copos de plástico descartáveis, é o tipo de mudança que se espera desde hoje. Ações como coleta de roupas (já em andamento em algumas lojas porém com pouca informação para o consumidor que procura essa iniciativa), entender esse novo selo RE, explicar para esse (talvez) novo consumidor que se interesse pelo modelo e queira consumir Renner justamente por causa dessa nova proposta, é o novo desafio. Educação para a ação.

Não nos enganemos, no entanto. A Renner continua gigante e sua pegada é funda. Porém, desde 2016, 100% das emissões de gases de efeito estufa estão sendo compensadas, o consumo de energia está migrando para fontes renováveis (4 lojas piloto no Rio de Janeiro já operam com energia solar) e a melhoria dos processos e educação da cadeia produtiva gera um efeito dominó que acaba por gerar outras empresas investindo em processos sustentáveis.

Ainda há muito que se fazer e disso não resta dúvida. Mas, como frisado por todos os presentes, o importante é começar. Se uma das missões da Renner é encantar o cliente, que comece pelo encantamento da consciência de uma nova era, onde seja possível levantar essas questões e considerá-las relevantes num ambiente onde o lucro e a velocidade ainda prevalecem. É preciso, urgentemente, plantar a semente e se comprometer com seu crescimento.

O encanto da Impressão Botânica

Há alguns dias, participei de uma oficina rápida de Impressão Botânica no atelier mágico da Flávia Aranha, na Vila Madalena.

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Flávia Aranha no atelier

 

Fiquei intrigada com a proposta: imprimir no tecido, através de uma técnica de tingimento, elementos da natureza como folhas, sementes e serragem.

O processo de preparação do elemento que fixa o elemento botânico no tecido já estava pronto: ferro, na verdade, ferrugem, misturado à água. Embebendo o tecido (algodão orgânico) nessa água ferrosa e morna por alguns segundos, preparamos a base para “grudar” a cor dos materiais ali. Pura reação química.

A parte mais divertida vem agora: com o tecido pronto e úmido, a escolha dos materiais para a impressão. A surpresa é que a maioria das cores dos elementos secos não fica igual depois da impressão, algumas oferecem surpresas magníficas: a serragem escura do pau-brasil oferece um tom de vermelho profundo e a flor de hibisco, que já é de um belo lilás ao natural, se transforma num pink arrebatador.

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Pau-Brasil e cebola para usar na impressão e os rolinhos de ferro.

 

Depois disso, chega a hora de dobrar e enrolar. Não é uma dobra parecida com shibori ou tie-die: aqui, a dobra visa preservar os elementos e promover a aderência da “estampa” dos dois lados do tecido, então você cobre um lado do tecido de folhas e dobra a parte limpa em cima, e os dois lados ficarão com uma impressão em espelho. Parece complicado, mas não é. E por mais que você conheça dobraduras e tente imaginar como vai sair, sempre haverá uma surpresa. Surpresa, aliás, é a grande palavra dessa técnica: descobrir só quando o tecido estiver pronto, preparar-se para o inesperado, testar vários elementos e observar como a cor deles se altera com a presença deste ou daquele elemento, desta ou daquela dobra, amarrando mais justo ou mais larguinho.

Amarrar com barbante o tecido dobrado e enrolado no tubo de ferro  é o último passo antes de mergulhar em água quente por uma hora.

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Rolinho pronto para ir para a água quente, onde ficará por uma hora.

 

Depois de uma hora, é hora de desenrolar e lavar. Depois de lavado, é só passar e pronto: a impressão surge! Não é apenas a cor que fica impressa no tecido, mas também a forma e o contorno dos elementos: sementes de urucum viraram bolinhas coloridas e a forma da casca de cebola podia ser percebida.

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Minha bandana pronta: pau-brasil, flor de hibisco, casca de cebola e sementes de urucum.

 

Impressão botânica é mais do que cor, é quase estampa. Achei mágico, como uma fotografia da natureza. Uma ótima ideia de customização para se fazer em casa, recolhendo folhas e flores caídas no jardim, testando possibilidades. Com certeza irei pesquisar mais sobre a técnica. Na coleção da Flávia Aranha, há várias peças utilizando essa técnica, puro encanto.

Veja os vídeos e entenda um pouco mais.

 

Foto em destaque e vídeos: Flávia Aranha.

As outras fotos são de minha autoria.

 

Quem faz sua roupa?

Neste final de semana, fui com a queridíssima Ana do blog Hoje Vou Assim Off, visitar o atelier da estilista Fernanda Yamamoto na Vila Madalena. Numa manhã deliciosa, conhecemos toda a equipe que produz a roupa, desde quem pesquisa o tecido, quem cuida da produção, quem corta, quem faz o molde e quem costura.

clica pra ver o álbum

Um trabalho assim é um trabalho focado em criar, não em produzir. Criar a gente cria devagar, buscando referências que conversam com a gente e com nossa história e abrem nosso olhar. Produzir é mecânico, pode ser executado por máquinas e é rápido, muito rápido. Moda não é criação? Vestir-se não é expressão? Não devia ser assim sempre? Produzir tanto pra quê? Consumir tanto pra quê? E assim paramos pra pensar no valor real das coisas: o valor não é o custo. Custo é o tanto que aquela cadeia produtiva polui (a indústria de moda é a segunda maior indústria poluidora do planeta, perdendo apenas para a indústria petrolífera), quantas pessoas costuram literalmente o sangue ganhando 1 dólar por dia (ou menos), quantos animais são abatidos, qual é o tamanho da pegada de carbono de um pedaço de pano que vai de lá pra cá até chegar na sua mão.

Não sejamos ingênuos: a moda sobrevive de vendas. E as vendas só acontecem motivadas pelo desejo de consumo. Consumir é uma coisa, gastar loucamente um dinheiro que não se tem é outra. Quem ganha com isso? Existem poucos que ganham muito e milhares que saem perdendo. A maior ilusão é fazer com que o consumidor acredite que ele tem poder de compra, quando na verdade, ele está comprando um item que não aguentará duas lavagens. Sim, aquela blusinha de R$50 feita em Bangladesh pode parecer uma pechincha, mas a pessoa que a costurou não ganhou nem 5 centavos de dólar. E quem paga o valor da etiqueta está sendo roubado, porque ela não vale isso e custou MUITO.

A questão da criação é interessante porque não parte de uma “tendência”. Pode até agregar elementos modernos na modelagem, nas cores etc, mas não segue modinha, não é descartável, tem personalidade, é autêntica. É aquela peça que você olha e pensa na pessoa que a fez, que deixou sua marca. Você usar uma roupa que você viu quem costurou, viu quem desenhou, viu quem cortou, quem tingiu e quem pensou em tudo dentro de um conceito poético, pessoal e artístico é de um maravilhamento único. E a compra não é de baciada. Ninguém está falando que não se deve comprar nada nunca. O que se deve é pensar sobre o que se está comprando e calcular o custo-benefício (valor da peça x quantas vezes será usada) e não alimentar uma indústria destruidora.

Pra saber mais sobre o custo real da roupa que usamos, assista ao documentário The True Cost, que está disponível no Netflix.

O Querer

Queria tanto ver

As coisas nas quais não acredito mais

Queria poder saber

Que consigo, que sou capaz

Que nem tudo está perdido

Ainda que eu não veja mais

Que a palavra extinto ficou no passado

Que o modo de pensar mudou

Que as espadas viraram relhas de arado

Que o canto dos passarinhos ecoou

Queria acreditar na beleza humana

Queria acreditar na paz

Queria acreditar que esta vida

É mais do que levar ou deixar pra trás

Queria acreditar que o mundo é lindo

Queria acreditar que posso mais

Acreditar que viver não é optativo

E que matar não é permitido, jamais

Queria fazer a diferença

Queria poder erguer a voz

Queria resgatar a crença

Que, na verdade, só depende de nós

Queria poder sentir e fazer parte

De tudo que vive e que respira

Queria provar que a verdadeira arte

É apenas viver em harmonia.

Inspiração para trocar de lugar

Imagine que sua casa foi invadida por uma lama preta, oleosa e fedida.

Imagine seu corpo imundo e você ser incapaz de limpá-lo para sentir-se confortável.

Imagine que o seu alimento mudou de cor e de gosto e tornou-se insuportável.

Imagine que você está cansado e não consegue mais encontrar o lugar onde costumava descansar.

Imagine que você está com frio, com fome, desconfortável e com uma incontrolável falta de ar.

Imagine que você não entende porque se sente assim.

Imagine que você nem sabe como sua vida é importante.

Imagine que quem tem o poder de tirar ou manter a sua vida simplesmente não aparece.

 

Não é horrível?

Luto

 

Parece impossível que uma coisa dessas ainda aconteça. Parece impossível que as pessoas ainda lavem a calçada com mangueira durante horas e peguem o carro pra ir até a esquina, o mesmo carro que anda com o petróleo que está sendo derramado na água onde vivem milhares de seres e que vai chegar na praia. Parece mentira que ninguém pensa nisso. No dia das crianças no Japão, uma tradição pede que se pendurem carpas para elas, para que cresçam grandes e lindas como esses peixes cheios de cores. Os peixes estão morrendo, o mundo está pedindo socorro… em que mundo essas crianças vão viver? Do que mais a gente precisa pra mudar nossos hábitos e perceber o que é realmente importante e necessário?