Se eu me livrar dos meus demônios, perderei também os meus anjos.
If I got rid of my demons, I’d lose my angels.
[Tennessee Williams]
A língua portuguesa, para mim, é uma das línguas mais lindas do mundo. Literalmente, música nos meus ouvidos. Sons delicados, vogais abertas, consoantes vibrantes, encontros consonantais avassaladores.
A Revista Bula publicou uma lista das 40 palavras mais belas da língua portuguesa. Algumas estão ali pelo que representam, acredito, como Mãe e Respeito. Outras, dá pra sentir, estão ali pelo som, como Flamboaiã (quer coisa mais linda?), Melancolia (é preciso mastigar cada sílaba) e Efêmero (palavra que se desmancha na boca).
Parei aqui pra pensar em palavras que eu saboreio na hora de falar… Sereno, por exemplo, é uma delas. Sereno pode ser aquele de espírito pacífico ou aquele orvalho que cai de madrugada. A analogia me fascina: a hora escura e tranquila que chora. Sereno é uma daquelas palavras que tem que se falar de olhos fechados. Madrugada, taí outra palavra. O som do U que apaga a luz e os As que abrem os olhos para a imensidão de estrelas. Gosto do som do U. A gente faz biquinho quando fala, tem que ser dito com delicadeza. é praticamente impossível gritar o U. Mas é fácil prolongá-lo, como em lonjura. Quando se quer dizer que se está longe, mas longe mesmo, a gente diz lonjuuuuuuuura, e geralmente acompanha um gesto de estender o braço pra cima e jogar a cabeça pra trás. Palavra boa de falar a gente usa o corpo todo pra dizer.
Existem palavras especiais em todas as línguas, a nossa será sempre a intraduzível saudade. Existem as palavras quase secretas, que pouca gente conhece, até mesmo quem tem a língua portuguesa como mãe. Existem palavras que já morreram (junto, talvez, com quem as falava) e palavras que estão nascendo (junto, talvez, com quem esteja começando a inventar a vida).
Assista essa beleza aí embaixo e me diga: qual é a sua palavra?
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O medo
que tudo isso
acabe.
O medo
que não acabe.
Rae Armantrout
“A vida seria impossível se guardássemos tudo na memória; o importante é saber escolher o que devemos esquecer.”
Maurice du Gard, escritor francês
“Comece agora. Comece de onde você está. Comece com medo. Comece com dor. Comece com dúvida. Comece com as mãos trêmulas. Comece com a voz trêmula, mas comece. Comece e não pare. Comece de onde você está, com o que você tem.
Apenas comece.
Ijeoma Umebinyuo
PROCURA-SE ALGUM LUGAR DO PLANETA
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores na floresta.
Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves
tenham no rosto um olhar de criança.
Roseana Murray ~ Classificados Poéticos
Na foto: Karis, um filhote de leão com 11 semanas de vida, brinca com folhas secas num parque em Stirling, Reino Unido.