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Amizade em tempos de redes sociais

Amigos são pessoas do nosso convívio. Amigos são aqueles com quem temos afinidades, longas conversas e silêncios confortáveis. Amigos de verdade já se desentenderam, já se perdoaram, já ficaram anos sem se falar e já dormiram um na casa do outro. Amigos almoçam juntos, jantam juntos, saem juntos. Amigos se abraçam.

De uns tempos pra cá, o conceito de “amigo” mudou. Amigo pode ser aquela pessoa que você nunca encontrou, aquela que mora na tela do smartphone ou do computador. Seu amigo que é uma foto de perfil (que muitas vezes nem é dele) e um nome de usuário engraçado. Um bip de mensagem chegando, uma luzinha piscando.

E esse amigo você nunca abraçou, não sabe que cheiro tem, nem a cor exata dos olhos que você nunca olhou de frente, cara a cara. Esse é o amigo das longas conversas digitadas, das curtidas, dos compartilhamentos, das afinidades silenciosas compartilhadas publicamente.

E sabe aquele que tem mil amigos no Facebook, dois mil seguidores no Twitter, no Vine ou no Tumblr? Ele não tem tudo isso de amigo. Porque amigo, amigo, a gente conhece aos poucos, com tempo. E amigo é difícil de encontrar. Tem gente confundindo popularidade com amizade e tenho certeza que são duas coisas muito diferentes.

Quem aceita 500 amigos por dia não vai sentir falta nenhuma se um deles sumir. E, de vez em quando, também vai tirar um tempo para fazer “uma limpeza” entre seus contatos pois, claro, não significam nada e, muitas vezes, são uns chatos que falam um monte de besteira e discordam do que você posta. Ou você discorda deles.

Ninguém dá “unfollow” ou “desfazer amizade” num amigo. Imagine que isso seria como uma conversa difícil num lugar qualquer, na frente de uma mesa e de um copo de qualquer coisa. “Olha, aqui, fulano, sabe… Eu vou desfazer nossa amizade…”, isso olhando nos olhos daquela pessoa que já passou horas conosco, já conhece nossas opiniões (pelo menos um pouco) e nossos gostos e por quem nutrimos um cuidado difícil de explicar. Mas, um “amigo virtual” é fácil, é só desfazer a conexão. E a vida segue como se quase nada tivesse acontecido. Isso porque aquele não era seu amigo, nem virtual, nem real. Era só alguém.

Existem também os amigos da vida real que passam para a virtual pela força persuasiva da “correria” da vida . Nessa relação, há mais tato, mais familiaridade. Muitas vezes, os encontros e conversas reais não vão parar no virtual, como se fossem dois grupos de amigos diferentes, os de lá e os de cá. E esse amigo, se alguma coisa ruim atravessar o caminho, será mais difícil de bloquear. Mais doído, pelo menos. E ele vai estar ali, presente nos nossos dois mundos. E esse a gente vai achar que conhece bem demais.

O que acontece é que, no final das contas, há, apenas, os amigos. Amigos sem aspas, sem classificações, os que ultrapassam a barreira da tecnologia. Queridos, importantes, presentes. É possível estabelecer uma relação, construir uma amizade, criar um repertório particular de piadas, ter um “ombro” pra chorar, um companheiro para rir. E desse não dá pra desconectar. E se ele sumir, dá um aperto de saudade igual não encontrar e abraçar seu melhor amigo “real”.

Tem gente que esquece que as palavras não aparecem sozinhas numa tela, num status, num tweet. Tem alguém escrevendo, tem alguém sentindo, e muitas vezes, esse alguém está esperando uma resposta. Amizades, como qualquer relacionamento, exigem tempo e cuidado. De longe, então, é ainda mais difícil, mas é possível.

Amigos virtuais são reais. Também vão pisar na bola, também vão nos emocionar e também estarão presentes na hora de dar aquela curtida na foto do momento mais lindo da sua vida.

 

Foto: Graham Morrison

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Tudo por um “like”

Dias desses vi na televisão dois comerciais seguidos de produtos femininos cuja protagonista usava os tais produtos, fazia uma selfie, postava e sorria vendo o número de curtidas disparar. Primeiramente, não foram campanhas eficientes, pois nem me lembro dos produtos anunciados. Fiquei apenas com a imagem da pessoa sozinha fazendo a selfie e postando a foto, aguardando aprovação alheia. Fora o incômodo pela falta de criatividade das duas campanhas, vejo cada vez mais acontecer por aí esse “momento solitário de aprovação coletiva”, como se sentir-se bonita só fosse possível se mais algumas pessoas validassem.

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Complicado pensar que só o espelho não serve mais, só a autoestima não convence. Além disso, a contradição: falta segurança e sobra exibicionismo? Quem quer ver o que você está comendo, o que você está vestindo, o que você está vendo? Tudo me parece superficial e inútil. Há pessoas com milhares de seguidores em tudo que é rede social que não divulgam nada, absolutamente nada, de relevante. Claro que a vida não é só coisas sérias mas passar horas e horas gastando tempo precioso da nossa vida assistindo um show de egocentrismo e auto-promoção me parece ridículo.

Cada vez mais invisto no encontro, na amizade sem “likes”, nos passeios sem fotos, nas conversas sem interrupções dos bips dos celulares. Quando a gente perde a hora porque não perdeu tempo, quando o olho brilha não porque recebemos centenas de curtidas mas porque sabemos que aquela pessoa que está ali dedicou um tempo pra gente e que isso é a coisa mais preciosa do mundo.

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Dá trabalho… Mas vale tanto a pena!

Todo mundo gosta de ter alguém pra conversar, pra chorar no ombro, pra rir junto. Mas relacionar-se não é sempre fácil. Aliás, na maioria das vezes, dá um trabalho danado…

A gente sente saudades de quem a gente não vê sempre, todos os dias. Isso pode ser bom. Quando a gente encontrar aquela amiga/aquele amigo de novo, vai ser mais bonito, vai ter mais coisas pra falar, mais assuntos pra colocar em dia. Tenho amigos muito queridos que não vejo há tempos e outros que não vejo há semanas mas sinto saudades de ambos. O legal da saudade é que ela milagrosamente ‘apaga’ falhas, discussõezinhas e discordâncias…

Há pessoas fáceis e pessoas difíceis. Isso não é uma qualificação profissional nem analítica. É o que observo: há pessoas que se esforçam, são compreensivas, compassivas e sorriem mais. Outras são mais rígidas, querem as coisas à sua maneira e algumas, infelizmente, perdem o amigo mas não perdem a discussão. O que fazer? Será que seria legal dar um toque, dizer que algumas coisas não são tão importantes quanto o sentimento de quem vai ser atingido? Que dizer ou fazer alguma coisa diferente do que você diria ou faria não significa, necessariamente, que se deve começar uma discussão para ‘tirar as coisas a limpo’? Saber calar é uma arte a ser aprendida. Tem gente que simplesmente não sabe a hora de ficar quieto, ou melhor, de ‘deixar quieto’. Sabe aquela pessoa que discute com você porque você errou uma estatística? Que argumenta e verifica tim tim por tim tim tudo o que aconteceu, tudo o que você disse, pra tirar as coisas a limpo? Chatice… Essa pessoa nos afasta dela.

Eu tento ser flexível, tento encarar as coisas numa boa, tento ser compreensiva a maior parte do tempo porque é exatamente assim que eu queria que as pessoas me tratassem. Mas, mesmo depois de tanto tempo, ainda não aprendi que existem pessoas que não pensam assim. Às vezes, me machuco e me canso. Canso de engolir sapo, de ‘entender’, de justificar atitudes que poderiam ser mudadas, evitadas, apenas se aquela pessoa se importasse com meus sentimentos.

Todo mundo tem ‘seu jeito’ de agir, de falar, de fazer as coisas. Eu tenho o meu. Mas conviver significa também abrir mão de certas coisas, ceder, entender o jeito do outro, que não é necessariamente errado só por ser diferente. O difícil é perceber que nem todo mundo pensa como eu e, o que é pior, a maioria dessas pessoas acaba pisando em pessoas como eu, que cedem, que ficam quietas pra evitar briga e causar mal-estar.

Eu já briguei, já discuti, hoje eu simplesmente tento colocar um espelho na minha frente para que as pessoas vejam como elas ficam feias quando escolhem não se esforçar pra fazer outra pessoa feliz. Na maioria das vezes, essas pessoas não se dão ao trabalho de olhar e continuam a espalhar o mal do qual são fontes. Eu estou falando de pessoas que eu gosto, que gostaria de ter mais em comum, mas que simplesmente fecham a porta para um relacionamento de amizade por achar que não devem ceder nem um pouquinho. E, infelizmente, tem sempre alguém pra justificar suas atitudes.

Pra ser amigo é preciso tirar tempo, se interessar, perguntar, querer saber, envolver-se. Não dá pra ser amigo de vez em quando. Ou você é ou não é. E sabe o que é pior? Tem muita gente confundindo grude com amizade. Viver grudado não é necessariamente ser amigo.

Como eu disse no começo… Tenho amigos que não vejo, alguns há anos!, mas nem por isso deixei de guardá-los em meu coração. Ter amigos é uma delícia, dá trabalho, sim, mas o que é que vale a pena nessa vida que não dá trabalho? E desde quando trabalho é ruim? Se a gente não conservar, tudo se perde, inclusive os sentimentos. Não sei lidar muito bem com perdas, por isso me esforço em manter. São os amores que fazem a vida mais alegre. E cultivar amores é uma arte.

O Amor Maior do Mundo

 

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Ontem, meus pais completaram 36 anos de casamento. Eu, com meus pouco mais de 5 anos de união, sei como é difícil, às vezes, manter a cabeça no lugar. Por mais que amemos quem está ao nosso lado, sempre haverá uma coisa ou outra que irá nos surpreender ou nos desapontar. Mas isso não pode ser um problema maior do que a vontade de amar.

O que aprendi com meu pai foi que devoção pode não ter limites. Ser apaixonado pelo que faz é a chave do sucesso profissional e acreditar em si mesmo é o maior dos elogios. Meu pai é professor por escolha afetiva. Desde que me conheço por gente ele vivia cercado de livros e papéis, que eu também aprendi a amar. Meu pai é um livro aberto de sabedoria e amor.

Com minha mãe, aprendi a cozinhar e a gostar de artesanato. Nas tardes de chuva ou de calor, minha mãe, eu e minhas irmãs passávamos longas horas costurando, tricotando, bordando ou tingindo panos de cores maravilhosas. Minha mãe também me ensinou a amar os animais e as plantas. Tudo era novo, o tempo passava rápido. Minha mãe é um novelo macio de lã.

Hoje, meus pais são minha grande inspiração e meu exemplo. Olhando para trás, vejo que fizeram tudo certo. Casada, eu quero manter em meu relacionamento o amor e o respeito que eles mantiveram no deles. Se um dia tiver um filho, quero ser para ele a mãe e o pai que tive para mim.

Sempre me lembro de Drummond que, como a maioria dos poetas, falou tão bem do amor: “Existem muitas razões para não amar uma pessoa e apenas uma para amá-la”. Que essa razão esteja sempre à frente das dificuldades.

 

Mãos Dadas

 

Já parou pra pensar o que faz duas pessoas andarem de mãos dadas?

Geralmente, quando ando pela rua ou estou sendo passageira, observo as pessoas. A maioria andando sozinha, apressada, ou acompanhando amigos, colegas de trabalho, conhecidos. Em nosso país, apenas casais e pais/mães/filhos andam de mãos dadas.

Parei pra pensar nos casais: namorados, casados ou simplesmente apaixonados. Alguns, mais do que se darem as mãos, se abraçam. É meio difícil andar pela rua abraçado, ainda mais numa calçada apertada ou muito movimentada. Mas eles não se desgrudam.

Parei pra pensar que a gente busca tanto alguém para amar, para se preocupar conosco, pra dividir com a gente nossos sorrisos e aflições. Depois que a gente encontra alguém, é aflitivo pensar que podemos perder essa pessoa novamente no meio da multidão da qual a resgatamos. Por isso, talvez, as mãos unidas, os corpos colados num abraço apertado. “Não quero te perder”, “quero me certificar que você está ao meu lado”.

Naquele momento do aperto da mão, é um sentimento de segurança e carinho que nos dá o prazer daquela companhia rara, que encontramos e que não queremos perder de vista. Mas temos que pensar que, muitas vezes, pra aquela mão estar ali, é preciso saber largá-la.

Lembrei de uma propaganda de uma companhia de telefonia celular que dizia “Você nunca está sozinho”.  Na hora pensei, “Que horror! E quando eu quiser ficar sozinha?”. Todos precisamos de um espaço, de um momento sozinhos. Temos que aprender todos os dias a gostar de nossa própria companhia, de ouvirmos os nossos sons, de percebemos as nossas sensações. Esse aprendizado vai servir pra perceber melhor a mão do outro, o corpo do outro, a vontade do outro.

A ausência daquela mão a torna mais especial. A ausência dela, em algumas culturas, inclusive na nossa, a transformou em anel. Quando ela não nos segura, o anel simboliza que há outra mão, em outro lugar, usando o mesmo símbolo de ausência e de compromisso: o compromisso de estar ali quando precisarmos e quisermos.

Não podemos colocar nessa mão, por vezes presente, por vezes ausente, nossa felicidade. Temos que fazer nossa própria felicidade para dividi-la com alguém que merece, que também irá dividir a felicidade dele/dela conosco. Como fazemos isso? Nossa felicidade vem de sermos equilibrados, de vivermos uma vida sem contradições, de valorizarmos os momentos e as pessoas do jeito que chegam até nós.

“Felicidade acontece quando o que você faz e o que você fala estão em harmonia”, disse Gandhi. Isso é viver sem contradição. Se você não come carne porque tem dó dos animais, não compre o sapato e a bolsa de couro tããããooo lindos que você viu. Isso é uma contradição. Se você acha que uma pessoa famosa se vestiu mal ou está usando uma maquiagem inapropriada, não precisa ir alardeando para os quatro ventos como ela é cafona, ou isso, ou aquilo. Faça seu comentário, dê sua opinião (sou a favor da opinião e não da fofoca) e ponto final. Pessoas interessantes falam de idéias, pessoas vazias falam de pessoas. Quando não der pra elogiar, tente simplesmente ignorar. E quando der pra elogiar, seja generoso.

Então, que tal dar a mão para aquela pessoa querida que você não quer perder? A vida, muitas vezes, carrega para longe pessoas muito próximas: irmãos, pais, tios, primos… Não podemos procurá-los só no final do ano, quando a maioria passa por aquela fase mais sentimentalista e materialista. Relacionamentos se constróem todos os dias e isso inclui interessar-se pela vida, pelos assuntos e pelos problemas de alguém que você considere que vale a pena amar. Na maioria das vezes, vale mesmo.

Já disse que adoro as coisas que não servem pra nada. Dar a mão, a não ser que você seja uma criança atravessando a rua, só serve pra você demonstrar que você está ali. É óbvio, é redundante, não serve pra nada… mas é tão bom!