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Chinesices

As Olimpíadas estão por toda a parte e todo mundo está falando da China. Algumas coisas me deixam um pouco chateada em relação a esse país tão distante que acabou ficando tão próximo da minha vida.

Tudo bem que é legal você ver uma coisa bonita e se emocionar etc e tal. Mas nem tudo é o que parece ser. Depois que fiquei sabendo que a menina que tinha a voz mais bonita para cantar na cerimônia de abertura não era a menina mais bonita para aparecer para milhões de pessoas, confirmei algumas das minhas expectativas. A maioria dos chineses prefere o que é “bonito”, custe o que custar.

A menina que dublou é linda, mas a menina que cantou de verdade não podia aparecer pois não correspondia aos ideais de beleza e delicadeza esperados. Senhor Zhang Yimou, de filmes tão lindos quanto Herói, O Clã das Adagas Voadoras e Lanternas Vermelhas fez o que esperavam dele e o que todos esperavam ver. Foi bonito? Fooooiii, respondem todos.

Assim como todos acham bonito passear pelas ruas “limpas” de Pequim, sem nenhum incômodo. Alguns grupos de defesa dos animais chamaram a atenção para o sumiço de cães e, especialmente, gatos das ruas da cidade (veja o vídeo). Onde foram parar todos? Para maquiar a cidade, não bastam apenas os sorrisos incansáveis de um exército treinado para fazer bonito para o visitante, também deve-se dispor das vidas que “enfeiam” os arredores. Acostumados que estão a matar todos os tipos de animais para comer, não me supreenderia saber que alguns foram parar na panela.

Os voluntários, e a população em geral, querem passar uma idéia de que o país está aberto ao mundo, que está tudo bem e que estamos vendo uma nação que é o que deveria ser. Enquanto os voluntários sorriem, algumas pessoas desesperadas cometem atos como o daquele desempregado que atacou e matou um membro da delegação americana e depois suicidou-se. As torcidas animadas nos estádios é feita por pessoas contratadas pelo governo para deixar tudo perfeito. Afinal, o que é uma competição sem barulho? Repararam no mastro especial das bandeiras olímpica e chinesa que produzia aquele ventro perfeito? As luzes, milhares de lâmpadas, acessas o tempo todo? Ninguém pensa em economizar energia elétrica quando está tudo tããããooo bonito… Será mesmo que está tudo bem?

A história é contada pelos chineses como “deveria ser” e não como é, como mostrou a cerimônia de abertura . Desconfio de tudo, infelizmente, até da mais linda poesia visual de Zhang Yimou. Poesia é essencialmente verdade e parece que a verdade não interessa a alguns chineses.

Customização de tudo

Aqui, sempre falamos de roupas e acessórios, mas a moda hoje é customizar tudo. Há um novo conceito de morar, que inclui a customização da planta dos apartamentos, customização dos carros e acessórios destes e daqueles pequenos aparelhos que carregamos conosco todos os dias, como celular, notebook ou notepad.

Acho legal poder imprimir nossa marca e deixar as coisas com a nossa cara. O problema é quando a gente pensa que não pode haver um evento aleatório na nossa vida. Quantas vezes não fomos buscar um novelo de uma cor e chegamos na loja, não tinha a tal cor e, muitas vezes, nem a tal lã e acabamos voltando com outra  coisa, que virou a nossa blusa preferida? Ou aqueles eventos ainda mais dramáticos que, andando na rua, podemos acabar tropeçando num futuro melhor amigo?

Eventos ocorridos ao acaso tem sua beleza. Filhos são o maior exemplo disso, quando concebidos pelas vias naturais: quem pode prever que célula encontrará aquela que está esperando? Quem pode prever a cor dos olhos, a exata tonalidade da pele, o dente tortinho ou a mania de abrir as mãos? Pois fiquem sabendo que agora a moda é customizar os filhos também. Isso mesmo: em algumas clínicas, dá pra escolher a cor dos olhos e algumas outras características que ficavam apenas na torcida dos pais.

Claro que, por um lado, isso é ótimo, porque dá pra “programar” uma criança quase perfeita, sem problemas genéticos nem síndromes, que causariam sofrimento. Mas não é um pouco estranho poder controlar tudo? Como os chineses estão tentando fazer, programar o tempo e a chuva para disfarçar e maquiar a poluição que eles mesmos jogaram na atmosfera? Deixo a China pra lá, por enquanto, porque tenho muitas críticas para fazer.

Mas acho o aleatório, o supreendente, parte da vida e gostaria que algumas coisas apenas existissem do jeito que são, “descontroladas” no melhor sentido do termo. Não sabemos quando vai chover (pelo menos não exatamente), não sabemos quando será o próximo beijo nem o próximo abraço (podemos tomar a iniciativa), não sabemos quando será inevitável.  A foto acima é uma arte zen chamada Wabi Sabi, que significa “beleza na imperfeição”. O Wabi Sabi encontra a beleza na natureza e na aceitação do ciclo natural da vida. Temos que parar de associar o que é belo ao que é perfeito. Tudo que produz alegria e paz é lindo. Como o ocasional “Abraço das Folhas” acima.

Por isso me deixo surpreender todos os dias e é necessário que nos empenhemos em surpreender a quem amamos, pois podem até já conseguir programar a cor dos olhos, mas ainda não sabemos o que será amanhã.

Tudo normal por aqui

Estrela de Davi
Estrela de Davi

Sei que este blog é mais sobre moda, estilo e customização do que qualquer outra coisa mas tenho que tocar num assunto. Acabo de traduzir um livro que conta a história de uma menina de 11 anos, judia, austríaca, durante a segunda guerra mundial. Ao mesmo tempo que vejo que muitos outros livros sobre o tema estão sendo lançados no mundo. Destaco O Diário de Rutka Laskier (Rutka´s Notebook: A Voice from the Holocaust, Time Books). Uma narrativa seca, crua, quase cruel dos horrores do gueto e do martírio dos judeus durante a ocupação nazista na Polônia, ainda sem tradução para o português. Além do já clássico O Diário de Anne Frank, que eu acho que todo mundo deveria ler pelo menos uma vez na vida, traduzi a fantástica história de dois mundos que se encontram em A Mala de Hana (Editora Melhoramentos, 2007), uma menina de 13 anos sofrendo os horrores da guerra durante a Segunda Guerra Mundial e uma professora japonesa em 2001.

A propósito, coincidentemente, encontro esse jornal que eu tinha guardado (claro) com a linda crônica de Marcelo Coelho (coelhofsp@uol.com.br), no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, em 18 de junho de 2008:

 

Tudo normal por aqui

A “normalidade” se desmascara, revelando o poço sem fundo da violência e da barbárie

 

EM 29 de maio de 1942, pleno período da ocupação nazista, os judeus franceses passaram a ter de usar uma estrela amarela, “do tamanho da palma de uma mão com contorno em preto”, na qual deveria estar escrita, “em letras pretas, a palavra JUDEU”. Deveria ser “levada de forma bem visível no lado esquerdo do peito e costurada na roupa com força”.

Em fins de junho, o senhor Raymond Berr, vice-presidente de uma grande indústria, é preso pelas autoridades numa rua de Paris. O inspetor de polícia liga para a família dele, explicando que nada teria acontecido se a estrela de Berr estivesse bem costurada.

Acontece que, em vez de costurá-la, a mulher do industrial tinha afixado a estrela com grampos e botões de pressão, para que ele pudesse usá-la em vários ternos. O inspetor acrescenta: “No campo de Drancy, as estrelas serão costuradas”. Drancy era o lugar para onde os judeus franceses eram levados, antes de embarcar para os trens a caminho de Auschwitz. Quem conta o episódio da prisão é a filha de Raymond Berr, Hélène, num diário que está sendo publicado no Brasil pela editora Objetiva.

Os manuscritos ficaram muito tempo guardados; só em janeiro de 2008 foram lançados na França, com grande impacto. O dia-a-dia da ocupação nazista em Paris é registrado do ponto de vista de uma moça de 20 e poucos anos, bastante rica, que estuda literatura inglesa na Sorbonne e, com um grupo de amigos, reúne-se para tocar peças dos compositores Beethoven, Schubert e Bach ao violino.

O que mais aperta o coração, quando se lê “O Diário de Hélène Berr”, é o fato de que sua autora só aos poucos vai tomando consciência das atrocidades que terminarão por vitimá-la. Mesmo depois da notícia da prisão do pai, Hélène mantém suas atividades cotidianas. No dia 4 de julho, ela anota: “Dannecker [comandante da SS] ordenou a evacuação do hospital Rothschild. Todos os doentes e os recém-operados foram enviados para Drancy. Em qual estado? Com quais cuidados? É atroz.”. Logo em seguida, Hélène escreve: “Vieram Job e Breynaert. Job não quer saber de nada. Tocamos o Quinteto “A Truta”. Muito bonito.”.

Nesse ano de 1942, Hélène ainda está muito envolvida com seus problemas sentimentais; começa a apaixonar-se por um rapaz que, dali a alguns meses, decide abandonar Paris e ingressar na Resistência. Há leituras, piqueniques. O pai, cidadão influente, é libertado: não o levarão para Drancy; não, por enquanto.

A família teria ainda condições de fugir de Paris. Hélène acha que isso seria uma covardia, ou pelo menos uma falta de solidariedade com as demais vítimas da ocupação. Mas acrescenta: “Penso que há certo egoísmo em mim, pois todas as alegrias que experimentei estão concentradas nesta vida daqui”. Eis o que há de especialmente assustador no diário de Hélène Berr. A vida “normal”, seus prazeres e rotinas, mantém-se em condições de absoluta excepcionalidade e horror.

Cada dia traz novidades hediondas, mas são poucos os que percebem a que cúmulo as coisas chegarão em breve; é como se a capacidade de toda pessoa para adaptar-se, evitando pensar no pior, e tocando a vida como dá, se revelasse decisiva para a ruína final.

Desconfiar da “normalidade”, eis uma coisa que não estamos nunca preparados para fazer. E, quando a “normalidade” se desmascara de uma vez por todas, revelando o poço sem fundo da violência e da barbárie, já é tarde demais.

As deportações para os campos de extermínio começam a ser feitas. Aos poucos, Hélène se dá conta de um destino praticamente inevitável. Cuida de crianças pequenas, cujos pais já foram levados para Auschwitz. Logo as crianças serão deportadas também. Ao mesmo tempo, Hélène continua lendo os poetas ingleses. Cita uma passagem de John Keats (1795-1821): “Esta mão viva, agora quente e capaz/ De apertar vigorosamente, iria, se se resfriasse/ no silêncio gélido do túmulo/ Tanto rondar os teus dias e gelar os teus sonhos noturnos/ que desejarias que teu coração secasse de todo o seu sangue/ Para que novamente corresse em minhas veias a vida rubra,/ E tranqüilizasse a tua consciência, vê: aqui está ela,/ Eu a estendo em tua direção”.

Mais de 60 anos depois da morte de sua autora, o diário de Hélène Berr reaparece, vivo, em nossos tempos “normais”; é hora de segurá-lo em nossas mãos.