As palavras sussuram como segredos confiados às caixas de correio As palavras aquecem as mãos geladas abraçadas aos joelhos As palavras não rimam como o vento não rima nas frinchas das janelas
Ontem estava sol naquela rua onde passo todos os dias e não te vi
Mário de Andrade escreveu, em Paulicéia Desvairada (1922):
Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades…
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
E eu, muito petulante, vou discordar um pouco dele… Verdade que são horríveis e poluídas. Verdade que só há vaidade. Mas… A poesia pode estar em nossos olhos, a alegria em nosso coração e, além de Red Bull, um pouco de imaginação pode te dar asas!
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O outono é tempo de camadas. Explico: no começo do dia está friozinho, no meio esquenta muito e parece verão, à tardezinha bate um ventinho de novo… Pra não ficarmos com o “look cebola”, montei um passo a passo de sobreposições, o famoso layering, pra inspirar os dias de outono.
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Primeira sobreposição simples: duas regatas, a de baixo de malha preta, mais justinha, a de cima mais solta. Legging é bom no frio ou no calor e sandálias meio fechadas meio abertas, pra encarar as duas temperaturas.
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Segunda sobreposição: uma peça pequena de tricô, que cubra os ombros mas não exagere. Um bolerinho ou mini-poncho é perfeito. Também serve pra acrescentar um toque de cor.
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Agora esfriou de vez: casaco pra fechar por cima. O bolerinho de tricô vira cachecolzão. Escolha um blazer com modelagem anos 80, ombros mais largos e corte mais masculino. Se quiser um visual menos “agressivo”, coloque um cardigan compridinho. Mas nesse caso, a sandália e o legging pedem um pouco mais de atitude, daí o blazer.
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Se quiser aproveitar a onda étnica, use um xale ou pashimina com motivos de arabescos ou indianos. É feminino e diferente.
Ah, outro dado importante: eu não estou usando acessórios, mas em cada caso é legal pensar num acessório marcante: só com a primeira sobreposição, usaria um colarzão. Com o bolerinho de tricô e com o blazer, um anel enorme numa das mãos. Com a pashimina, usaria um brinco e/ou o anel. Experimente em frente ao espelho… 😉
Ao me mudar para Higienópolis, escolhi um novo endereço para cortar o cabelo. Um amigo me indicou o Mário, que trabalha em um shopping. Animado, o rapaz gosta de conversar o tempo todo. Entre uma tesourada e outra, me falou de sua paixão por pássaros.
— São pinturas vivas!
No início, não me interessei muito pelo assunto. Meu pai criava canários. Passei minha infância ajudando a distribuir alpiste e água pelas gaiolas. Embora o canto e o colorido dos canários fossem incríveis, eu me rebelava contra a obrigação.
— Hum, hum — fiz, educadamente, quando o cabeleireiro entrou no tema.
Animado, o rapaz contou:
— Criei uma arara vermelha no apartamento!
Assustei-me.
— Não é pássaro protegido pelo Ibama?
— Era nascida em cativeiro.
Explicou que a criação de animais em cativeiro ajuda a salvá-los da extinção.
— A arara se comportava como um bichinho de estimação!
Segundo o rapaz, ela pousava em seu braço, comia em sua mão. Reconhecia sua aproximação de longe. Tanta fidelidade provocou uma crise no prédio. Se o dono chegava de noite, a ave soltava gritos de alerta que acordavam a vizinhança. Quem já ouviu sabe bem como é. Houve uma revolta no condomínio. Mário e a mulher cobriram a gaiola, para ver se a arara dormia. Inútil. Mal ele se aproximava da porta, movida pelo sexto sentido comum aos animais, a ave gritava. Fosse de dia ou de noite. Pior, de madrugada. A arara tornou-se um constrangimento.
— Não é para ser criada em apartamento! — rugiu o síndico.
Na época, Mário montava uma pequena escola de primeiro grau em sociedade. Resolveu construir um viveiro de pássaros para os alunos. Só a barulhenta seria pouco. Saiu em busca de outras aves. Descobriu uma loja especializada em espécimes raros criados em cativeiro. O dono prontificou-se a arrumar tipos capazes de viver em harmonia. E propôs, como presente:
— Você não quer ficar com esta ararinha que nasceu com um problema?
O filhote tinha o bico torto, tanto que era incapaz de se alimentar. Só podia ser nutrido através de uma seringa. O oferecimento soou como uma coincidência:
— A proposta da minha escola é justamente a integração da criança deficiente. Tem tudo a ver! — agradeceu Mário.
Levou o filhote para seu apartamento. Passou um bom tempo alimentando-o com papinhas e, como sobremesa, grãos. Aos poucos diminuiu o pastoso e aumentou os sólidos. A ararinha aprendeu a se alimentar sozinha, apesar do bico torto. Só então a levou para o viveiro.
A quem diz que o pássaro estaria muito melhor solto na natureza, o rapaz responde com um argumento:
— Não a arara de bico torto. Quando algum filhote nasce com problema, os pais o atiram do ninho.
Os alunos elegeram a arara como mascote. Ficam felizes ao vê-la no viveiro, convivendo com os outros pássaros, soltando gritos de alerta, comendo com a cabeça curva. Adaptou-se tão bem que… surpresa! Acasalou-se com um macho da espécie e já teve filhotinhos. Enquanto eles piam no ninho, ela os alimenta delicadamente com o bico torto, que se tornou tão útil quanto qualquer outro.
Em uma cidade grande, violenta e cheia de problemas como São Paulo, há o risco de se ficar com o coração torto. E só olhar para o lado ruim de tudo. Sempre me surpreendo. Basta estar de ouvidos abertos para, seja em um corte de cabelo, seja no balcão da padaria, descobrir uma história emocionante. Como a da arara de bico torto que hoje encanta as crianças de uma escolinha da Zona Sul.
Linda e inspiradora crônica de Walcyr Carrasco, que saiu na Veja São Paulo de 22 de março de 2009.
e-mail: walcyr@abril.com.br
Atendendo a pedidos (e algumas ameaças, ehehe, né, Dani?), estou postando aqui uma sugestão de almoço ou jantar diferente, com um toque oriental! Aproveite o final de semana e faça uma coisa diferente!
Vamos lá às receitinhas e depois, pra acompanhar a refeição, uma sugestão de trilha sonora!
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TOFU COM PIMENTÃO
Como vocês já sabem, eu não como carne. Então, tenho que usar minha criatividade na hora de preparar minha comida senão como sempre a mesma coisa. Tofu é uma coisa legal porque cabe em muitos pratos, pode ser feito de qualquer jeito (frito, cozido, ensopado…) e, geralmente, pega o gosto dos ingredientes que você coloca junto. Então vamos lá:
Corte uns 400g de tofu em cubinhos de 2cm x 2cm
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Faça um molhinho com 2 col. (sopa) de shoyu, 1 col. (sopa) de gengibre em tiras, sal e pimenta a gosto, e distribua uniformemente sobre o tofu. Coloque na geladeira (isso facilita a absorção).
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Corte 2 pimentões em tiras finas. Eu só usei o verde, mas você pode usar um verde e um vermelho.
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Pique 4 dentes de alho bem picadinho. O truque pra picar é o seguinte: coloque uma faca larga de lado e esmague o dente contra a tábua. Depois vá batendo a lâmina sobre ele, segurando o cabo fixo na tábua e só mexendo a ponta. Será que deu pra entender? Um lado fica parado e o outro se mexe numa curva. Dá super certo.
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Aqueça um pouco de óleo numa panela wok e deixe esquentar bem. Coloque o alho e mexa um pouquinho, mas não deixe dourar. Tire o tofu da geladeira e leve direto pra wok. Com o “susto”, o tofu adquire uma coloração dourada. Frite uns 3 minutos e depois jogue o pimentão. Frite por mais quatro minutos. Desligue o fogo e jogue umas 10 gotinhas de óleo de gergelim e umas 2 col. (sopa) de cebolinha picada. Tampe.
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Enquanto isso, faça o macarrão. Esse é Udon, um macarrão de farinha muito branca, tipo talharini (chatinho). Mas você pode também usar macarrão para Yakissoba (a diferença é que nesse vai ovo e ele é bem amarelo). Como não vai azeite, a dica pra não deixar o macarrão grudar é: depois de pronto, ponha numa peneira e passe na água fria. Ele fica soltinho.
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Coloque o macarrão na tigela e o tofu por cima, assim o caldinho do tofu vai saborizando o macarrão. O óleo de gergelim e a cebolinha servem para aromatizar. Por isso, quando você fecha a panela logo depois de colocá-los, quando você abrir vai sair um aroma muito gostoso. O tempo certo de maturação é o tempo do macarrão (uns 6 minutos). Bom apetite!!
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Ah, pra beber, acompanha chá de jasmim. As folhas mesmo, não os de saquinho. O chá é dourado e servido bem quente e sem açúcar.
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Pra comer ouvindo e vendo:
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ENSOPADO DE TOFU COM ALGAS E COGUMELOS
Esta receita é pra quem não tem medo do novo. Os ingredientes podem ser encontrados em lojas de produtos orientais. Vai sem medo!!
Pegue uma folha de alga Kombu, corte ao meio e deixe hidratar por uns 15 minutos em água morna. Não jogue fora a água. Corte a alga em tiras finas.
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Hidrate, também com água morna por uns 15 minutos, o cogumelo Orelha-de-Pau (1ª foto) cortado em tiras (ou inteiro), a alga Wakame (2ª foto) e o cogumelo Shitake (4ª foto), todos em pequenas porções. Corte em tiras finas os que estiverem inteiros depois de hidratados. Com o Cogumelo do Sol (3ª foto), faça assim: ferva essa pequena porção em 1 litro de água. Quando subir a espuma, desligue, espere esfriar e corte em pedacinhos. Não jogue fora a água de nenhum deles.
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Não se assuste! O Cogumelo do Sol é mesmo bem pretinho por dentro!
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Corte uns 400g de tofu e ferva em 1 litro de água por dez minutos numa panela grande.
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Depois de 10 minutos, jogue um pacotinho de Hondashi (caldo de peixe) por cima do tofu e espalhe. A cada quatro minutos, vá jogando os outros ingredientes (e a água de cada um) na seguinte ordem: Kombu, Shitake, Orelha-de-Pau e Cogumelo do Sol. Desligue quatro minutos após jogar o Cogumelo do Sol. Jogue a Wakame e misture.
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Para dar mais sabor ao caldo, jogue 1 col. (sopa) de camarões secos. Dica pra comprar esse ingrediente: eles tem que ser bem pequeninos e bem vermelhinhos. Tampe a panela e aguarde uns 5 minutos.
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Está pronto seu ensopado chinês! Se quiser, pode comer com arroz ou harusame (macarrão branco de feijão verde), mas sozinha já é muito completa e tem muita proteína! Boa para esquentar num dia frio.
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Pra comer ouvindo música orquestrada com aquarelas de inspiração taoísta:
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GELATINA DE AMORAS
Claro que não podia faltar a sobremesa! No caso da sopa, essa sobremesa não combina muito e seria legal fazer as famosas frutas carameladas (banana ou maçã). Mas não estava a fim de fazer frituras então passo essa outra receita, bem mais fácil e super refrescante!
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Numa tigela pequena, coloque 1 pacotinho de gelatina em pó sem sabor e hidrate com 1/2 copo de água. Numa panela, coloque 1/2 copo de água, 1 copo de leite, 1/2 copo de açúcar e, mexendo sempre, leve ao fogo brando até o açúcar dissolver completamente. Tire do fogo, junte a gelatina já amolecida, 1/2 colher de chá de essência de amendôas e misture bem. Despeje numa forma e deixe na geladeira por 30 minutos ou até firmar. Fica gostoso se, na hora de servir, você cortar em quadradinhos e misturar com frutas refrescantes, como kiwi ou lichia. Para dar um contraste com o macio da gelatina, coloque amêndoas raladas por cima.
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Esta é pra comer ouvindo uma música tradicional cantada muito delicada, que fala de amor:
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.