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Tudo por um “like”

Dias desses vi na televisão dois comerciais seguidos de produtos femininos cuja protagonista usava os tais produtos, fazia uma selfie, postava e sorria vendo o número de curtidas disparar. Primeiramente, não foram campanhas eficientes, pois nem me lembro dos produtos anunciados. Fiquei apenas com a imagem da pessoa sozinha fazendo a selfie e postando a foto, aguardando aprovação alheia. Fora o incômodo pela falta de criatividade das duas campanhas, vejo cada vez mais acontecer por aí esse “momento solitário de aprovação coletiva”, como se sentir-se bonita só fosse possível se mais algumas pessoas validassem.

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Complicado pensar que só o espelho não serve mais, só a autoestima não convence. Além disso, a contradição: falta segurança e sobra exibicionismo? Quem quer ver o que você está comendo, o que você está vestindo, o que você está vendo? Tudo me parece superficial e inútil. Há pessoas com milhares de seguidores em tudo que é rede social que não divulgam nada, absolutamente nada, de relevante. Claro que a vida não é só coisas sérias mas passar horas e horas gastando tempo precioso da nossa vida assistindo um show de egocentrismo e auto-promoção me parece ridículo.

Cada vez mais invisto no encontro, na amizade sem “likes”, nos passeios sem fotos, nas conversas sem interrupções dos bips dos celulares. Quando a gente perde a hora porque não perdeu tempo, quando o olho brilha não porque recebemos centenas de curtidas mas porque sabemos que aquela pessoa que está ali dedicou um tempo pra gente e que isso é a coisa mais preciosa do mundo.

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Olhe para o céu

Quando penso na arte romântica, nas paisagens bucólicas europeias do século 18 e 19, na figuração não geométrica e não abstrata, nas metáforas visuais do mundo ideal, idílico e por vezes alegórico dos quadros de enormes proporções desse período, eu sempre acabo fugindo do espaço entre molduras. A arte romântica de Turner, por exemplo, com suas aquarelas macias, quase palpáveis, me dão vontade de fechar o livro e correr para a janela. Especialmente quando o dia está acabando naquela luz avermelhada e quente, naquele azul quase lilás que aparece entre nuvens, como se fosse o vento refrescante suavizando as matizes solares.

Sempre me lembro de um ditado francês que diz: “Quand le doigt montre le ciel, l’imbécile regarde le doigt”. “Quando o dedo aponta o céu, o imbecil olha para o dedo”. A arte, para mim, é o dedo. Especialmente a arte romântica das grandes paisagens de proporções monumentais, os jardins assimétricos, as fontes de água que borbulham, representando o sem-fim dos ciclos da vida. Quando olho para Turner, tenho vontade de olhar para o céu.

De uma forma menos literal, entretanto, pode-se entender que o objetivo maior da arte é, também, apontar para coisas mais difíceis de enxergar: medos, dúvidas, verdades. Transcender a arte é treinar o olhar para fazer o caminho do dedo para o céu. Quem se estratifica no contexto e na interpretação olha demais para o dedo. Sim, essas duas coisas são importantes mas não são o principal. Elas apontam o caminho do olhar, do coração, do verdadeiro propósito de toda e qualquer obra de arte: expandir horizontes. Mesmo que sejam os horizontes dentro da gente.

A gente nunca fica do mesmo tamanho depois de olhar para uma obra de arte.