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Dia Mundial do Meio Ambiente

Tá, colocaram no calendário que hoje é dia mundial do meio ambiente. A gente vê listas de muitas coisas em todos os lugares, listas de coisas que poderíamos fazer todos os dias, como economizar água, plantar uma árvore, reciclar o lixo.

Acho digno que haja uma data para nos lembrar, mas acho péssimo que muita gente precise dela. Acho ótimo que haja um dia de mobilização, de conscientização, mas acho horrível que o esquecimento aconteça.

Lembrar do planeta é lembrarmos de nós mesmos. Você algum dia já esqueceu de viver, de respirar, de comer? Às vezes, durante nosso dia a dia atarefado, a gente esquece de se cuidar, come bobagem, não toma água. Mas a gente se recrimina, se lembra que tem que se cuidar direito, não é? Com o planeta deveria ser assim: descuidar pode até ser uma bobeada, uma vacilada, mas não a regra.

Dia Mundial do Meio Ambiente = Dia Mundial da Humanidade, das Plantas, dos Animais e do Planeta. Dia da gente se lembrar de cuidar da nossa casa. Sugestão: plante uma árvore!

 

Inspiração para os carentes

Até onde vai a carência das pessoas…

Numa sociedade como o a do Japão, onde as pessoas estudam e trabalham até cair (ou já mesmo caídas), muitos sentem falta do que deveriam buscar: carinho e troca afetiva. Infelizmente, mesmo sendo uma das nações mais ricas do mundo, o Japão muitas vezes passa a imagem de um país de solitários. Cheios da grana, sim, mas sozinhos. Quem já não ouviu falar dos hotéis casulos, das pessoas que moram em cyber cafés, dos executivos que só vivem para o trabalho? A riqueza financeira não consegue subornar a carência emocional.

Fiquei sabendo que há no Japão, hoje, os “Cat Cafés”, bares que “alugam” gatos para passar algumas horas com as pessoas. O negócio é um sucesso: por $10 dólares, pode-se passar uma hora com o bichano que você escolher, ou tirar fotos com seus felinos preferidos. Em um deles, o Ja La La Café, no agitado bairro de Akihabara, em Tóquio, cerca de 12 gatos fazem as honras da casa. Os japoneses amam gatos e cuidam muito bem deles.

O lugar é muito frequentado por homens e mulheres que moram sozinhos, são tímidos e introvertidos, que desejariam ter um gato mas que trabalham e/ou viajam muito a trabalho. Além disso, por causa do espaço reduzido, fica difícil ter um animal de estimação. Alguém consegue adivinhar porque o tamagochi fez tanto sucesso há uns 15 anos?

O legal de ter um animal é poder estabelecer uma rotina com ele, conhecer seus hábitos e manias, até sua comida favorita. Quem tem gatos sabe que eles adoram rotinas e ficam meio perdidos quando alguma coisa fica diferente. Também acostumam-se com seus donos, conhecem seus hábitos, cheiros e conseguem até detectar mudanças de humor. Os gatos têm personalidade forte, assumem papéis quando em contato ou convivência com outros gatos e “mandam” no dono, no bom sentido. É que gatos têm vida própria, embora entrem em acordo com os humanos que vivem com eles. Por isso gostam, como qualquer ‘pessoa’ gostaria, que as coisas sejam feitas à sua maneira.

Ver um gato de vez em quando é muito bom mas tê-lo ao seu lado todos os dias é bem melhor. Para o humano e para o gato. Quando as pessoas escolhem paliativos para suas carências acabam desconsiderando o que seria ideal para a outra parte, neste caso, o gato. Por mais que as pessoas digam que o gato é um animal independente (e é mesmo) ele adora ter um dono, um colo e alguém para amar. Nós, humanos, também somos independentes e gostamos disso, mas de vez em quando também queremos colo, segurança e amor. Com os gatos é a mesma coisa. E quando queremos ficar sozinhos, podemos gritar, brigar e até mesmo fazer coisas que depois nos arrependamos. Com um gato também é assim: se ele te arranhar depois de meia hora de alisamento de pêlo, ele quer dizer “agora chega que eu quero paz”. Temos que entender os gestos, já que não falamos o mesmo idioma. Considerar o gato traiçoeiro ou dizer que não se pode confiar é o mesmo que admitir que se é ignorante no assunto e não quer aprender. É a mesma coisa que falar que uma pessoa de cor ou religião diferente da sua é inferior ou menos capaz. Ou seja, é o fim do mundo.

Fora isso, admiro a ideia: já que não se pode ter ou cuidar de um animalzinho, que seja assim. É também uma atitude altruísta, pensando que é melhor que o gato fique num lugar onde ele é bem tratado do que trancado num cubículo, só pra você poder chamá-lo de seu. Se eu estivesse no Japão, visitaria um “bar de gatos”. São essas coisas que fazem do Japão um dos lugares mais interessantes do mundo.

Fiquem com as fotos dos “Cat Café” e depois podem ir abraçar o seu bichano ou seu cachorrinho. Se não tiver um bichinho, vai abraçar o pai, a mãe, ou o namorado/a. Carência se resolve com contato.

 

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 Todas as fotos são do UOL

 

Bico Torto

Ao me mudar para Higienópolis, escolhi um novo endereço para cortar o cabelo. Um amigo me indicou o Mário, que trabalha em um shopping. Animado, o rapaz gosta de conversar o tempo todo. Entre uma tesourada e outra, me falou de sua paixão por pássaros.

— São pinturas vivas!

No início, não me interessei muito pelo assunto. Meu pai criava canários. Passei minha infância ajudando a distribuir alpiste e água pelas gaiolas. Embora o canto e o colorido dos canários fossem incríveis, eu me rebelava contra a obrigação.

— Hum, hum — fiz, educadamente, quando o cabeleireiro entrou no tema.

Animado, o rapaz contou:

— Criei uma arara vermelha no apartamento!

Assustei-me.

— Não é pássaro protegido pelo Ibama?

— Era nascida em cativeiro.

Explicou que a criação de animais em cativeiro ajuda a salvá-los da extinção.

— A arara se comportava como um bichinho de estimação!

Segundo o rapaz, ela pousava em seu braço, comia em sua mão. Reconhecia sua aproximação de longe. Tanta fidelidade provocou uma crise no prédio. Se o dono chegava de noite, a ave soltava gritos de alerta que acordavam a vizinhança. Quem já ouviu sabe bem como é. Houve uma revolta no condomínio. Mário e a mulher cobriram a gaiola, para ver se a arara dormia. Inútil. Mal ele se aproximava da porta, movida pelo sexto sentido comum aos animais, a ave gritava. Fosse de dia ou de noite. Pior, de madrugada. A arara tornou-se um constrangimento.

— Não é para ser criada em apartamento! — rugiu o síndico.

Na época, Mário montava uma pequena escola de primeiro grau em sociedade. Resolveu construir um viveiro de pássaros para os alunos. Só a barulhenta seria pouco. Saiu em busca de outras aves. Descobriu uma loja especializada em espécimes raros criados em cativeiro. O dono prontificou-se a arrumar tipos capazes de viver em harmonia. E propôs, como presente:

— Você não quer ficar com esta ararinha que nasceu com um problema?

O filhote tinha o bico torto, tanto que era incapaz de se alimentar. Só podia ser nutrido através de uma seringa. O oferecimento soou como uma coincidência:

— A proposta da minha escola é justamente a integração da criança deficiente. Tem tudo a ver! — agradeceu Mário.

Levou o filhote para seu apartamento. Passou um bom tempo alimentando-o com papinhas e, como sobremesa, grãos. Aos poucos diminuiu o pastoso e aumentou os sólidos. A ararinha aprendeu a se alimentar sozinha, apesar do bico torto. Só então a levou para o viveiro.

A quem diz que o pássaro estaria muito melhor solto na natureza, o rapaz responde com um argumento:

— Não a arara de bico torto. Quando algum filhote nasce com problema, os pais o atiram do ninho.

Os alunos elegeram a arara como mascote. Ficam felizes ao vê-la no viveiro, convivendo com os outros pássaros, soltando gritos de alerta, comendo com a cabeça curva. Adaptou-se tão bem que… surpresa! Acasalou-se com um macho da espécie e já teve filhotinhos. Enquanto eles piam no ninho, ela os alimenta delicadamente com o bico torto, que se tornou tão útil quanto qualquer outro.

Em uma cidade grande, violenta e cheia de problemas como São Paulo, há o risco de se ficar com o coração torto. E só olhar para o lado ruim de tudo. Sempre me surpreendo. Basta estar de ouvidos abertos para, seja em um corte de cabelo, seja no balcão da padaria, descobrir uma história emocionante. Como a da arara de bico torto que hoje encanta as crianças de uma escolinha da Zona Sul.

 

Linda e inspiradora crônica de Walcyr Carrasco, que saiu na Veja São Paulo de 22 de março de 2009.
e-mail: walcyr@abril.com.br