Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida?
Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.
Guimarães Rosa, escritor brasileiro
Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida?
Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.
Guimarães Rosa, escritor brasileiro
…que chegou ontem.
Aprendi com a primavera a me deixar cortar,
e a voltar sempre inteira.
Cecília Meireles, poetisa brasileira
Minha terra não tem palmeiras…
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.
Mário Quintana
…que o querido poetinha me perdoe, mas um sabiá nunca será “mero” sabiá, mesmo sozinho…
Segundo filme dos encontros promovidos pela PUC-SP.
Pra saber um pouco do enredo, dá uma olhada aqui neste post que eu escrevi por ocasião do lançamento do filme na Inglaterra.
Impossível assistir esse filme sem pensar e considerar a parte histórica. E impossível não lembrar de Lady Diana Spencer, descendente da Duquesa do título e também vitimizada pelas circunstâncias e pelo peso da tradição da nobreza.
Mas vamos ao que interessa: figurino! Claro que o mais chama a atenção é o figurino da Duquesa. Rico, detalhado, inovador para a época, romântico e sedutor. A duquesa representa o poder do duque, o poder da posição dele na hierarquia real e na sociedade. A maioria das palestrantes chamou a atenção para esse fato: enquanto o duque se veste de maneira tão sóbria e tradicionalista, à duquesa cabe exercer a sedução. O poder dele vem do sangue e da posição; o dela, de quanto consegue seduzir.

As roupas do duque são tradicionais, feitas de tecidos pesados e estruturados, como veludo e tafetá. Sua peruca não é tão empoada e seus movimentos, até por conta dos tecidos, são pequenos e discretos. Até sua voz é baixa. Sua movimentação também é pouca, oscilante, desconfortável. Tudo o que ele passa despercebido visualmente (e todas as habilidades sociais que ele não tem), ele se impõe no poder e na palavra. O que ele quer, acontece. Ele não precisa gritar, gesticular ou se expor. Sua “frieza” é tanta que na época comentava-se que todo o país era apaixonado pela sua esposa, menos ele.
A duquesa, sua esposa, uma mulher tão cheia de enfeites e adornos, apenas demonstra visualmente o poder dele próprio que é, na verdade, o “dono” dela. Sua única função é ser esposa e providenciar um herdeiro homem. Mesmo sendo constantemente referenciada como “Imperatriz da Moda” e lançadora de tendências, saindo caricaturada nos jornais da época e constantemente exposta publicamente, na prática não tinha nenhum poder de decisão sobre sua vida.
Agora, pensando bem: se naquela época a mulher mostrava-se mais enfeitada e sedutora, porque demonstrava, na verdade, o poder de seu “dono”, porque a moda hoje foca muito mais a mulher? Eu acredito que agora porque ela escolhe demonstrar seu próprio poder através da roupa e não tem apenas a roupa para se expressar. Se hoje a mulher não tem dono e ela escolhe o que fazer, vestir, usar, talvez hoje, mais do que nunca, a moda seja um acessório de poder para as mulheres.

Sua aparência e atitude contrastavam radicalmente com o homem que Georgiana amou, Charles Gray. Seus cabelos despenteados, sua roupa despojada, seus gestos grandes e sua energia em movimentar-se não apenas demonstram sua personalidade enérgica, mas seu desapego à tradição e sua vontade de mudança. Essa atitude também muda quando ele decide ajustar-se ao sistema, não brigar mais pelo seu amor e continuar jogando o jogo do poder, para chegar aonde quer: ser primeiro-ministro, o que ele acaba conseguindo.

Essa reflexão nos leva ao tema de discussão do encontro: o papel temático das pessoas no mundo. Todo sistema social é baseado em poderes e esse poder/posição social também pode ser demonstrado pela roupa hoje em dia, num movimento que começou após a revolução industrial da Inglaterra do séc. 19. A roupa definia, naquele momento, uma posição ou uma profissão e como o poder já era também determinado pelas posses, o que a pessoa podia comprar a definia. Nesse momento, também, as pessoas que tinham dinheiro começam a usar tecidos e aviamentos mais caros, materiais que antes só a nobreza tinha acesso, não pelo preço, mas por que era essa a vestimenta que a definia. Dois séculos antes, por ser a sociedade tão estratificada e ligada à vínculos de sangue, a roupa era quase um uniforme: se era poderoso/nobre/religioso, tinha o direito de usar certas peças e tecidos. O valor de cada ser humano era definido pelo sangue. Dois séculos mais tarde, esse valor passou a ser definido pela riqueza.
A duquesa vive bem no período de transição (1757-1806) dessa fase, em plena Revolução Francesa, que mudará para sempre os valores em vários terrenos, inclusive no jeito de se vestir. A Inglaterra nesse período era vista como a terra da liberdade. Apropriadamente, uma das palestrantes chamou a atenção para a diferença dos jardins franceses – estruturados e organizadíssimos – para os ingleses – “acidentados”. Podemos tirar daí a metáfora de que nesses jardins “acidentados” coisas inesperadas podem acontecer, coisas que podem alterar a ‘normalidade’ das regras tradicionalmente estabelecidas e seguidas. Interessante notar também que as cenas em que Georgiana aparece livre, correndo, usando cores claras e roupas nem tão estruturadas, são justamente as cenas em que ela aparece no jardim. Assim como as crianças, símbolo do comportamento livre, sempre aparecem brincando ao ar livre.




Essa cenografia e os quadros abertos representam a liberdade, a possibilidade dos ‘acidentes’, de descobrir os caminhos a medida em que se vai andando. Já as cenas internas tem quadros fechados, imagens quase em close, num clima sufocante que dá a impressão que a pessoa não tem espaço nem para abrir os braços. A luz abundante do exterior também faz um contraste com a penumbra do interior. Mesmo dentro de suas casas, estão sempre cercados de pessoas, sem privacidade, nem intimidade. A cenografia está focada em limites visuais. Esses limites visuais metaforizam o limite das emoções, do desejo, da felicidade e das escolhas.


A maioria das palestrantes abordou o contexto histórico, tanto das roupas quanto da arquitetura, do paisagismo e até do mobiliário, ressaltando as diferenças e semelhanças entre França e Inglaterra e suas grandes damas da moda: Maria Antonieta e Georgiana. Nesse sentido, o filme sobre Maria Antonieta quis focar muito mais esse aspecto visual e até conseguiu criar um estilo quase “usável” inspirado na nobre que morreu na guilhotina. Georgiana certamente estaria em todos os tabloides e revista de fofoca/moda se vivesse hoje. Sua descendente, Diana, esteve. A moda francesa desse período ainda é muito ligada à sedução, tanto para os homens quanto para as mulheres, que usam brocados, brilhos, volumes, maquiagem carregada (era moda colar “mosquinhas” no rosto para parecer pintas) e grandes perucas. Na Inglaterra, sendo a nobreza muito mais ligada ao campo e suas mansões do que à corte, a roupa tende a ser mais prática, menos brilhante, mas não menos elaborada. Apenas mais discreta se comparada à vestimenta dos que transitavam ao redor do Rei Sol e queriam ‘refletir o seu brilho’.
Pra relembrar Maria Antonieta, dá uma olhada aqui. Pra ver a matéria da Harpers Bazaar UK sobre A Duquesa, clique aqui. Veja mais fotos do filme na galeria abaixo.
Nota Importante: Esse artigo foi escrito baseado nas minhas anotações do encontro. São ideias coletadas por mim mas partilhadas por todos os que estiveram presentes. Para ver as palestrantes e seus currículos, clique aqui. As fotos deste artigo foram retiradas do Google Images e seus links permaneceram intactos. Portanto, querendo saber a fonte, passe o mouse sobre a imagem.

Semana que vem, o último filme… Identidade de Nós Mesmos ou Anotações para Roupas e Cidades, de Wim Wenders.

Primeiro dia do evento promovido pela PUC- SP, com a exibição do filme Desejo e Perigo (2007), de Ang Lee.
Primeiramente: assista o filme! Vale muito, é sensacional e, por favor, tire as crianças da sala, porque as cenas de sexo são fortes. Acho que é mais legal falar com quem já assistiu ao filme e quem não quiser spoilers, por favor, pare aqui. 🙂
O tema a ser observado era o figurino na construção e ambiguidade da personagem. Bem, trata-se de uma história de espionagem, que a protagonista tem que se passar por uma mulher sofisticada e rica, sendo ela mesma uma pobre estudante. Para formar essa personagem, ela se veste com os símbolos de poder e status: o cabelo liso e escorrido passa a ser encarolado, a boca limpa exibe um chamativo batom vermelho (extravagância nos tempos de guerra onde falta tudo) e os tecidos de algodão são substituídos pelo brilho da seda.


As jóias são um capítulo à parte: são, para as mulheres, um símbolo do status do homem que está ao lado delas. Afinal, o espaço delas é o interno, é dentro de casa ou fazendo compras com o dinheiro deles, e as jóias brilham mais nas mãos limpas e de unhas brilhantes das senhoras que não fazem nada a não ser apostar nas mesas de majhong, como disse a palestrante convidada Dhora. São mulheres tão sem identidade que são conhecidas apenas pelos nomes de seus maridos. O ambiente é fotográfico, o cenário é construído detalhadamente, “parece uma fotografia antiga”, como disse a professora Ana. É tudo delicado e bem cuidado, constrastando com a violência das cenas de intimidade e da violência que podemos imaginar que faz parte do dia a dia do Sr. Yee, o amante seduzido por Wang e alvo do grupo de resistência.

Outra coisa muita citada no debate foi que o figurino, além de ser formado pelas roupas, é também formado pela textura dos tecidos, pelo brilho das jóias, pelos fios de cabelo bem penteados. Fazem parte também os ângulos, os olhares, os gestos pequenos e calculados, o cigarro. Todos esses elementos visuais também contam uma narrativa de transformação. Os tecidos dos vestidos são geralmente rendados ou com uma leve transparência, o que sempre dá a impressão que a verdadeira intenção é revelar e não esconder o corpo.


Embora o estilo do figurino seja realista, pois retrata com fidelidade uma época, também é bastante representativo: as cores mais usadas são o azul e os toques de vermelho (presentes na bandeira nacionalista, como observou a Jô), o verde e o marrom. O uso das cores neutras pela ‘Sra. Mak’, a personagem que a estudante Wang assume, também representa o passar despercebida, poder se infiltrar sem chamar muito a atenção. Usando a mesma cor de suas “companheiras” poderosas, ela incorpora-se ao ambiente.

A bandeira nacionalista e as cores harmônicas e suaves (olhe as carteiras!!) das mulheres finas
Elementos da moda ocidental também estão presentes, inclusive de marcas reconhecidas como a mala Louis Vuitton e o anel Cartier, além dos casacos estilo New Look de Dior. O anel é carregado de simbolismo: ela ganha o anel do amante e, quando percebe que aquele anel significa que seu trabalho está completo e que ele será morto, arrepende-se do que fez e dá a ele a chance de escapar. O anel coroa a vitória do fingir sobre o ser e ela aparenta estar desiludida com aquele teatro tão triste e não quer contribuir para a execução violenta do ‘traidor’. Ela própria, então, assume a identidade dele e trai o seu grupo.

E por falar em teatro, uma das cenas mais bonitas é a cena dentro da casa de chá japonesa. O encontro acontece numa sala vazia, apenas dois chineses entre os japoneses. Ele reclama que a música japonesa é triste como um choro e ela se propõe a cantar. Ela canta com muito sentimento uma música de amor tipicamente chinesa, acompanhada de todo o gestual tradicional. A música fala de um amor jovem, da natureza e resgata os sentimentos mais puros. Ele se emociona e, por um momento, são apenas um homem e uma mulher, apaixonados, isolados, vulneráveis.
A letra da música é essa:
Desde os confins da terra
Até o mar mais longínquo
Eu procuro e procuro por meu companheiro de coração
Uma jovem mulher canta
E é acompanhada por ele
Seu coração é o meu coração
Seu coração é o meu coração
Olhando para o norte do alto da montanha
Minhas lágrimas caem e molham minha roupa
Sinto a falta dele, não consigo dormir
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro
Quem nessa vida valoriza a primavera da juventude?
Uma jovem e seu companheiro são como linha e agulha
Oh, meu lindo companheiro
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar
A Jô observou que o desejo também veste os corpos nus tão frequentemente que a forma física pode até ser encarada como uma peça de figurino ou de cenário. Também o corpo tem uma forma adequada à roupa que o cobre. O Qi Pao, o vestido chinês com golinha alta e abotoamento lateral, aparece como uma reminiscência tradicionalista, não necessariamente positiva, mas necessária ao disfarce. Ele evidencia o corpo, que adquire sensualidade, mas também o aprisiona. No costureiro, quando Wang experimenta um novo vestido, diz que está tão apertado que mal consegue respirar. O que está apertado é o vestido ou a representação sufocante? O Sr. Yee, observando, pede que ela não o tire, mesmo sabendo de seu desconforto. Ele parece só se sentir atraído pela dor alheia.
Wang adora cinema e o diretor utiliza a metalinguagem na narrativa, conversando com outros filmes, ligados ao tema da espionagem, risco e suspense, ou simplesmente ao amor, e todos com Cary Grant (AMO!!). A fotografia noir dos filmes de Hitchcock aparece em dois momentos. Em Suspeita (1941), o jogo de luz e sombra reproduz visualmente a dúvida na mente da personagem de Joan Fontaine, que acredita estar sendo envenenada pelo marido, interpretado por Cary Grant. Isso pode ser percebido no jogo de cortinas e janelas do filme chinês e na sensação de “pisar em ovos” e calcular gestos.

O cartaz do filme e Cary Grant com o copo de leite supostamente envenenado: qualquer semelhança não é mera coincidência
Outro Hitchcock que aparece é Interlúdio (1946), onde Ingrid Bergman faz o papel de uma espiã que aceita se casar com um homem investigado pelo governo. Cary Grant faz o papel do contato, o agente que a recruta e passa instruções. A personagem de Ingrid é apaixonada por Cary (o que no filme chinês também acontece, já que a estudante Wang é apaixonada pelo jovem ator que a recrutou) mas tem que ser a esposa daquele homem para cumprir os planos do governo. Ela é descoberta mas só fica sabendo que está em perigo quando está prestes a morrer envenenada. É um filme cheio de claro/escuro, dúvidas, meias palavras, enfim, Hitchcock.

Ingrid e a xícara de café envenenado


O terceiro filme é Penny Serenade (1941), um filme emocionante que nada tem a ver com espionagem. É a história de um jornalista, ingênuo e sonhador (Cary), que se casa e vai morar no Japão, investindo numa ideia que acaba dando errado. Pra ficar ainda pior, o casal passando por um terromoto e a esposa perde um bebê e fica impossibilitada de ter filhos. Voltando aos EUA, ele vai abrindo e fechando negócios, com a vitalidade e inexperiência de um menino, a maioria deles sem sua esposa saber. Sua esposa (Irene Dunne) não aguenta mais viver com alguém tão inconsequente. Eles se separam, conversam, choram. É uma vida simples, de amor e brigas, de paciência e convívio. Uma história de amor não tão certinha como se gostaria, mas, ainda sim, amor. Penny é a moeda de 1 centavo e representa a dificuldade financeira do casal. Serenade é serenata. Ou seja: dá pra fazer uma serenata com apenas 1 centavo e sobreviver, romanticamente, às dificuldades. Todos os momentos do casal tem uma música tema e eles tem uma música que representa o amor que sentem um pelo outro: “You were meant for me”, toca até hoje na voz de Bing Crosby. Lindo demais… Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Esse filme e essa música conversam muito com a canção da casa de chá.


Repare no figurino dela e nos ternos dele. O figurino da Sra Mak e do Sr Yee também foram influenciados pelos astros e divas de Hollywood desse período.
Mais algumas imagens externas: repare nos casacos, nas carteiras e nos chapéus. As imagens do filme foram retiradas do site oficial e do IMDB. Poderia falar páginas e mais páginas sobre este filme! Aspectos culturais, de língua, de história, de música, de fotografia… Pra ver e rever sempre. Assista. De novo, se for possível. E pra quem quer ler teoria, procure o Simulacros e Simulação (1981), texto de Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês. Baudrillard entende nossa condição como a de uma ordem social na qual os simulacros e os sinais estão, de forma crescente, constituindo o mundo contemporâneo, de tal forma que qualquer distinção entre “real” e “irreal” torna-se impossível. Apropriado, não? Mais sobre Baudrillard aqui e aqui.
Veja aqui o nome e o currículo de todos os participantes do debate.
UPDATE!!
Semana quem vem, A Duquesa!

o crédito da imagem está sobre a figura
Para Ana…
“Quero um sorriso
que dure uma quadra
e dobre a esquina
a iluminar-me”
.
Nei Duclós, poeta brasileiro, no livro Outubro
Foto: Ntaimo’s niece (L) and friends having a good time, Kitwe, Zambia: The kids are laughing at Ntaimo’s joke! – http://ie.tamu.edu/People/faculty/Ntaimo/personal_web/photos.htm