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Lançamento – Para Francisco

Não era só um lançamento de livro. Era um encontro. Pessoas foram até lá pra ver como é ser alguém que conseguiu superar a perda e a dor por meio da beleza. Porque o texto é lindo e a pessoa que o escreve também. O bate-papo começou descontraído, quase tímido. Poucas perguntas. O que perguntar pra alguém que já disse tudo? O que ainda pode se pedir para ver diante de alguém que nunca se esconde?

 

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Cristiana Guerra sorri pouco. Mas quando sorri, sorri com todos os dentes e toda a vontade. Sua economia de sorrisos não se reflete em suas palavras. Escreve muito, fala muito. O livro foi e é mesmo para Francisco, o filho que ela teve dois meses depois de virar viúva. “Ele vai gostar de ver o que escrevi quando crescer? Não sei”, diz ela, quando perguntada sobre sua exposição. Ela se expõe, ela se admite assim, aberta para a vida e para o mundo. Francisco não escolheu isso. Por isso, embora toda a razão de ser do livro e do blog seja ele, ela quer poupá-lo. Ele pode decidir o que quiser depois que aprender o que é estar nesse mundo.

Embora, como ela mesma diz, seja uma situação tão peculiar – uma mulher grávida que fica viúva – ela descobriu que muitas pessoas lêem o blog e se interessam pela sua trajetória porque, é claro, trata-se de uma história de amor. Um amor que nasce da superação da dor e da perda e da tentativa de lidar com um imprevisto cruel.

O mais incrível de toda essa história é que reuniu pessoas que nunca, provavelmente, se encontrariam. É isso, também, que tornou essa noite tão especial: as pessoas que estavam ali, emocionando-se com a história da Cris, também estavam encontrando novos amigos e começando uma nova história da afeto. Afeto e saber valorizar o que temos de mais importante: é assim que se aprende a viver.

Eu sempre penso nisso e, depois de ontem, vi que esse é um dos grandes segredos para se viver em paz, consigo mesmo e com os outros: saber ignorar o que parece ter importância, mas não tem, e valorizar o momento único e belo que jamais voltará. Lembro-me de uma frase do filme argentino O Filho da Noiva, que o personagem que perdeu a mulher e a filha pequena em um acidente diz para o amigo: “Quando você percebe que nunca irá te acontecer nada pior do que já te aconteceu, você adquire um certo poder”. Acho que a Cris tem esse poder.

Fiquei muito feliz de ter encontrado a Cris e, principalmente, de conhecer essas meninas lindas que começaram a fazer parte da minha vida nesta semana. Meninas de Sampa, vocês sabem onde eu estou. Ana, queria que o Rio fosse mais perto (uns 20 minutos, no máximo). Vamos ficar com as fotos, pra já ir matando as saudades.

 

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Cris Guerra e eu

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Dany, Lilian, Ana e eu com nossos livros autografados

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Ficamos até às 22h só pra bater essa foto

Mais uma dama antiga

 

 

 É fácil entender porque Maria Antonieta, de Sofia Coppola, foi execrado na França. Maria Antonieta é uma personagem histórica controversa. Acusada de dar as costas à miséria do povo francês, a ela é atribuida a célebre frase: “Se não tem pães, que comam brioches”. Na França, a figura da rainha não entrou para a história exatamente como uma pessoa simpática. A Maria Antonieta de Sofia Coppola é, portanto, bem diferente da que ficou imortalizada no imaginário francês.

No filme, a personagem é mostrada como uma adolescente fútil, meio desavisada, no entanto, extremamente adorável. Austríaca, ela é levada para a França, a fim de casar com o futuro Rei, Luís XVI. Com dificuldade para se adaptar à vida na corte francesa, Maria Antonieta encontra no consumismo desenfreado a saída para o tédio, no qual vive mergulhada.

O maior mérito de Sofia Coppola está no fato de ela ter conseguido transformar uma personagem histórica em uma figura extremamente contemporânea. Para isso, a diretora contou com dois trunfos importantes: a trilha sonora e, principalmente, o figurino.

Vencedora de Oscars pelos filmes Carruagens de Fogo e Barry Lydon, a figurinista Milena Canonero adicionou mais uma estatueta à sua coleção por este trabalho impecável. A personagem-título, interpretada por Kirsten Dunst, apesar de aparecer vestida em espartilhos apertadíssimos, saias volumosas e muitos babados, parece extremamente atual.

Canonero conseguiu a façanha de criar uma espécie de ícone fashion de época. Tanto que na ocasião do lançamento do filme nos Estados Unidos, a revista Vogue, a Bíblia da moda, trouxe Dunst estampada na capa, caracterizada como a Rainha da França. Sem dúvida, depois de O Diabo Veste Prada, Maria Antonieta foi o filme que mais mexeu com os fashionistas em 2006. Não que as mulheres fossem sair vestidas como se vivessem na Europa de 1780, mas conseguiriam pinçar referências do riquíssimo universo do filme, cuja direção de arte primorosa acabou servindo como fonte de inspiração para arquitetos e decoradores.

O figurino – que conta com peças de estilistas renomados, como Karl Lagerfeld e John Galliano – acabou caindo nas graças de criadores brasileiros. É o caso da coleção de inverno/2007 da estilista Gloria Coelho, que utilizou até a trilha sonora do filme no seu desfile. No repertório de roupas, muitas referências históricas. A silhueta é acinturada, em looks cheios de babados e transparências. O moderno shortinho ganha tempero com o caimento balonê, como uma calçola. Os tecidos são cotelê, chamois, cetim e muita seda.

Outra grife que também resolveu apostar na influência de época, foi a marca de jóias H. Stern, que se apropriou de referências estéticas do romântico e do barroco europeu para criar os looks que compõem as coleções Laços, Stars, Primavera, Heritage e Victorian, entre outras.

Adaptado de MARIANA FONTES – Folha de Pernambuco

 

Acrescento que, neste ano, o desfile de Samuel Cirnansck também me lembrou muito de Marie Antoniette, com suas princesas no meio das flores.

 

Dá uma olhada na galeria das fotos de Kirsten Dusnt como Maria Antonieta e as três últimas fotos são do desfile de Samuel Cirnansck:

 

 

 

Uma Dama Antiga… seus vestidos e suas agonias

 

Duquesa Georgiana de Devonshire
Duquesa Georgiana de Devonshire
 
 

Essa senhora de sorriso enigmático ganhou livro e filme. Parente distante da princesa Diana que viveu no século 18, a duquesa teve uma história quase tão triste quanto a Princesa de Gales. Mal-tratada pelo marido, William, o quinto Duke de Devonshire, era uma figura muito popular da alta sociedade. Todos os homens a amavam, menos seu marido.

Seu casamento era um contrato para que nascesse, dessa união, um filho e herdeiro. Georgiana ainda agüentava a crueldade sexual e emocional imposta pelo marido e conviver com a amante dele, Lady Elizabeth Foster, num dos triângulos amorosos mais famosos da história da Inglaterra.

Uma das cenas mais tocantes do filme é quando a mãe de Georgiana negocia com o Duque o casamento do nobre com a filha adolescente. Um momento depois, o duque aparece cortando, com tesoura, o vestido de seda e a lingerie que a própria Georgiana havia costurado para sua noite de núpcias.

— Não consigo entender porque as roupas das mulheres são tão complicadas — diz ele.

— É o jeito que encontramos para nos expressar — responde ela, imóvel, enquanto ele corta seu corpete.

— Vá logo para cama — ordena ele, acabando de cortar o último pedaço.

Cortar a roupa, a seda e ignorar o capricho de Georgiana é uma cena que denota como seu marido a encara: como um objeto a ser explorado e nada mais.

Keira Knightley foi muito elogiada em sua atuação como a duquesa. Embora o papel fosse difícil, a atriz comenta que o pior foi carregar todo aquele figurino, especialmente as perucas. A atriz comenta que as perucas quase afundavam sua cabeça e que os figurinos completos chegavam a pesar 70 quilos. Mesmo carregando todo esse peso, a atriz conseguiu transmitir o redemoinho de emoções que acontecia dentro de Georgiana. O figurino também foi pensado para expressar os sentimentos e momentos da personagem: quanto maiores os trajes, mais aflitiva a situação. Era como se Georgiana tentasse se esconder sob as roupas e penteados.

“As roupas, as perucas e os chapéus eram tão pesados que doía ficar de pé. Numa das cenas, tive que usar uma peruca de cerca de 80 centímetros, cujo peso afundava minha cabeça no meu pescoço”, revelou a atriz ao Daily Mail. “E isso é justamente o que acontecia naquela época. O resultado pode ser maravilhoso, mas não é fácil vestir-se assim”.

Em relação aos vestidos, explicou que “tinham que ser costurados todas as vezes que eram usados, e suavemente descosturados para poder ser tirados (sem estragar)”.

Isso tudo aconteceu há dois séculos mas algumas coisas não mudaram e muitas “Georgianas” ainda andam por aí…

 

 Keira Knightley como a Duquesa Georgiana de Devonshire

 

Ainda não há previsão de estréia no Brasil.

 

O que é ser feminina?

crédito da imagem

 

Fico me perguntando como as mulheres querem ser vistas hoje em dia. Quando digo as mulheres, quero dizer as mulheres perto de mim, que levam uma vida parecida com a minha, freqüentam lugares parecidos e ganham mais ou menos a mesma coisa. Esse mundo é tão grande e tão variado que não podemos discutir o papel da mulher no mundo, mas talvez no nosso bairro. Já pensou nas mulheres da China, da Etiópia, do Egito? Elas estão tão distantes de nós, geograficamente e emocionalmente!

 

No Egito, ainda é uma prática comum a circuncisão feminina (remover o clitóris). Avós e mães ajudam a segurar a menina, de seus 8 anos, geralmente em casa, no meio da noite. Podemos creditar à cultura, podemos chamar de violência… No Egito, e em outros países da África, eles chamam de ritual, um ritual necessário, pelo qual a maioria das mulheres passará.

“No Egito, as estimativas indicam que um entre cada quatro casos de gravidez termina em aborto ilegal, e o resultado é, a cada ano, uma série de complicações muito sérias, que afetam muito mais as mulheres das classes mais baixas. O aborto ilegal, no Egito, atualmente, é a maior causa de morte em gestantes”.

Trecho do livro A Face Oculta de Eva – As Mulheres do Mundo Árabe, de Nawal El Saadawi – Global Editora

 

Enquanto isso, nas paragens mais remotas da China, as mulheres mandam. Em Loshui, há uma comunidade matriarcal onde elas são as donas do dinheiro, das propriedades, dos filhos, de todos os sobrenomes e são quem mandam e desmandam o tempo todo.

“Os Mosuo não têm a menor intenção de ter na mesma pessoa afeto, família e lar. A família, para que perdure, nunca deve estar baseada em um casal. Entendem que isso torna o grupo altamente instável.

O sistema de visitas, como modalidade de vida sexual, mantém os integrantes de uma família consangüinea unidos e a salvo de coabitar com um estranho. Essa é uma das razões fundamentais pela qual a figura do pai é desconhecida. Ao ficar grávida, a mulher não pode definir com certeza com quem concebeu. Se soubesse, também poderia abster-se de contar ao filho, pois é tabu fazer referência ao aspecto sexual diante de familiares.

A proibição de qualquer menção à sexualidade diante de um parente, especialmente do sexo oposto, é uma das razões do sigilo. Um segredo por todos conhecido, como é, em geral, esse tipo de segredo”

Trecho do livro O Reino das Mulheres – O Último Matriarcado, de Ricardo Coler – Editora Planeta

 

Isso sem falar nas mulheres da Índia e seus percalços, nas Européias e seus percalços, nas mulheres dos lugares mais distantes de onde você está agora, e seus percalços…

 

Penso nisso porque acredito que ser feminina é mais do que usar um vestido de florzinhas e “tomar conta” da casa. Mesmo as mulheres que ficam cuidando da casa, trabalham muito e merecem ter o direito de se sentirem desejadas e bonitas. Ser feminina não significa ser “mulherzinha”, mas não tem problema nenhum em sentir-se carente e querer um colo de vez em quando.

Penso que passada a geração feminista dos anos 60, que brigava por direitos iguais, devemos ter em mente que temos que respeitar nossas diferenças, e não querer eliminá-las como se fossem um problema. Menstruação é problema? Carência é problema? Vontade de chorar é problema? Saber que pode comandar uma empresa ou um time de homens é ousadia? Claro que não!

Mais uma vez, o que vestimos manda uma mensagem para as pessoas. Vestidos evidenciando a cintura (não adesivos de lycra, por favor), sapatos de bico redondo, cabelos médios, meio cacheados, maquiagem suave, manda a seguinte mensagem: aproxime-se, sua opinião é importante e eu quero escutá-la. Isso falando num ambiente de trabalho. Terninho de ombros estruturados, sapatos tipo mocassim ou de bico e salto fino, cabelos presos e cores marcantes na maquiagem mandam outra mensagem: cheguei aqui porque sou competente, sei o que estou fazendo e não tenho o menor problema em mandar você ir passear.

Claro que estou colocando as coisas meio 8 ou 80, mas como você se relaciona com o mundo, com as pessoas e com o seu trabalho, é um reflexo de como você se relaciona com a sua imagem. A imagem que você projeta ao mundo. O sexo (homem – mulher) da fisiologia não tem nada a ver com o gênero, socialmente definido. O papel da mulher também não é biologicamente definido.

O que queremos para nós? Queremos um mundo cheiroso, bonito, agradável? Porque não começar com nosso corpo? Isso não é ser mulherzinha… isso é ser gente.