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ANTES de Comprar, Pare Pra Pensar

Toda essa avalanche de bazares e liqüidações me deixou um pouco aflita. Não sei se é simplesmente a necessidade de pelo menos ver tudo o que estão liqüidando ou a oportunidade de fazer um negócio da China mas, fato é que é um pouco aflitivo acompanhar tudo.

É engraçado mas acabo achando que liqüidação é pra gastar um dinheiro que eu não tenho numa coisa que eu não preciso. É diferente sair de casa para passear, não levar carteira, simplesmente para dar uma volta por aí. Outra, bem diferente, é ir ver o bazar do fulano ou a liqüidação daquela loja, pra tentar encontrar uma peça que seria uma “oportunidade”.

O que eu vejo, e muito, é um monte de roupas caras, a maioria delas com pequenos defeitos (que, se você reclamar, ainda tem que encarar uma cara feia). Escrevo isso motivada por uma visita que eu fiz a um bazar de um estilista fa-moSSSSSSÉEEERRRRi-mo e acabei com a cara no chão. Um festival de roupas feias, mal acabadas, com tecidos de péssima qualidade, e CARAS. Sim, era um bazar com vestidos de malha fria xuê custando mais de R$100 (vestidos que no Bom Retiro você compra por R$19,90), camisetas horrorosas, estampas pavorosas e roupas de frio para um inverno escandinavo, incluindo aí blusas de lã e casacos tããããooo pesados que mal dava pra manter a pose.

Havia, claro, pouquíssimas exceções, entre elas um vestido de seda pura por R$135 (com um rasgo na costura e manchas de ferrugem). Nada, absolutamente NADA que justificasse a minha ida. Confesso que fui movida a propaganda e pela fama do tal estilista. Já tinha ido a um bazar dele ano passado e também não tinha comprado nada. Pensei que este ano daria mais sorte, mas só me fez ter a certeza que ano que vem vou me “poupar a fadiga”.

Por isso, fiz essa reflexão: será que precisamos comprar SÓ porque está em liqüidação? Ou pior, só para ter a chande de carregarmos a etiqueta do fulano no avesso de uma roupa horrorosa? Claro que sou super a favor do bom negócio e, ao encontrar uma peça que valha a pena, eu sou a favor da compra. Mas temos que pensar em pelo menos 3 coisas:

  • Quantas vezes vou usar isso?
  • Estou comprando só porque está em liqüidação? Ou seja, essa peça me chamaria a atenção numa vitrine?
  • O preço é REALMENTE de liqüidação? Não se deixe enganar pelos 70% OFF da etiqueta. Pagar R$100 por uma camiseta ou R$300 por um vestidinho de malha que antes chegavam a preços estratosféricos não vale a pena.

Me lembro de uma coisa que o Kenzo disse quando estava aqui no SPFW: “Roupa no Brasil é muito cara. Na Europa, é fácil se vestir bem e ser elegante mesmo com pouca grana”. O que me faz pensar: o povo brasileiro trabalha até o meio do ano só para pagar impostos, ganha mal e ainda tem que pagar uma fortuna por roupas mal feitas, com tecidos de péssima qualidade, que alcançam um valor altíssimo só por causa da fama dos que as desenharam?

Por isso, brechó e trocas são legais. Mas o mais legal mesmo é não jogar fora uma roupa eterna, tipo aquele vestidinho preto que nunca faz feio, aquela bolsa que sua avó usou quando namorava seu avô, ou aquele broche que já passa de geração em geração. Fuçar o guarda-roupa, tentar combinações diferentes, investir em acessórios que mudam a cara da produção, como meias coloridas e cintos.

Marca e fama não são nada. Tenho dó de pessoas que economizam a vida toda (ou pelo menos alguns anos) só pra comprar a bolsa daquela marca, provavelmente feita de couro ou algum produto de origem animal (mas nem vou entrar nesse mérito). Será que sua bolsa vai dizer quem você é? Não é melhor você mesmo dizer quem você é? Senão, outras pessoas podem falar por você, coisas que você talvez até discorde. E algumas pessoas acabam como a foto acima, sem identidade nenhuma, escondidas atrás dos pacotes.

Temos que começar a pensar que marca não é nada e nossa identidade não pode ser definida por outra pessoa. Tudo bem comprar algo que te agrade, com o qual você se identifica, mas só comprar porque é do fulano, desculpe-me, mas é burrice. E há grupos de pessoas que vivem assim, se reproduzem assim, e conduzem um grupo de pessoas que pensa e vive assim. Num mundo de aparências que não dizem nada, apenas propagam um modo de vida materialista e consumista.

Li no site de tendências WGSN que, no futuro, os jovens consumidores de moda serão materialistas, consumistas desenfreados, com muito poder aquisitivo e conhecimento. Parece um futuro sombrio querer agradar a um bando de mimados.

Enquanto isso, será que não podemos resgatar o que já estava guardado lá no fundo do armário, vestir-se com personalidade e nos assumir? É preciso coragem, mas sei que teremos. John Lennon já deu a fórmula do sucesso há 40 anos: “Pense globalmente, aja localmente”.

Omaguás – Uma Praça com Arte e Muitas Histórias

Tem uma pracinha em Pinheiros que passa quase despercebida nos dias da semana para os mais desatentos. Cheia de árvores frondosas e antigas, é um ótimo lugar para ler um livro ou revista, já que fica bem em frente da Fnac Pinheiros. Também é um bom lugar para namorar, bater um papo… Seria melhor se fosse um pouco mais policiado, pois em algumas ocasiões há pessoas ali que podem causar distúrbio a essa paz.

Mas vamos para o lado bom: no fim de semana, mais precisamente no domigo, acontece ali uma feira de artesanato diferente, pois junta também música ao vivo, sempre com convidados muito especiais. Neste domingo, foi a vez do Chorinho na Praça com o Conjunto Retratos:

 

 

Mas o meu maior interesse é na produção artística mesmo, encontrar produtos interessantes e pessoas brilhantes e aqui estão elas:

 

Marlene – Arte em Seda

Há 8 anos, a Marlene vive de pintar seda. Começou como estagiária num atelier de pintura, desenvolveu a própria técnica e voilá! Além do panô ao lado dela na foto, ela também faz cintos, faixas para a cabeça, vestidos, camisetas e roupas para criança. Um trabalho finíssimo. Além da Praça dos Omaguás no domingo, também expõe na Benedito Calixto aos sábados. Tem site e manda a peça pra você: www.lilimarlene.com.br

 

 

Paulina – Arte em Vidro

A Paulina é uma chilena que ja mora no Brasil há 19 anos e trabalha com vidro, reciclado ou reaproveitado. Utiliza duas técnicas diferentes para confeccionar as peças: a Barcelona, que imita vitral, e a Murano, que imita as decorações dos famosos vidros italianos. Também faz bordado e aplicações de vidro. O que eu achei mais legal é o trabalho com garrafas de vidro antigas, como essas de Coca-Cola. Além disso, se você tiver uma garrafa de estimação, pode levar pra ela que ela pinta e borda! Contato: (11) 8204-2325 ou paulina.ateliertrazluz@hotmail.com. Também expõe na Benedito Calixto aos sábados.

 

 

Hilton – Arte em Havaianas

 

Somos todas loucas por sandálias Havaianas, né? Então pode pirar no trabalho do Hilton! Esse pernambucano que está em São Paulo há 9 anos faz tiras de havainas de tecido, encapa pulseiras e colares de bolinhas que dão um up em qualquer produção basiquinha! E como agora liberou geral a bijuteria grande, se jogue mesmo nos colarzões! E havainas nos pés! Pode mandar email que ele manda as havaianas pra você onde você estiver: pedechineloacessorios@hotmail.com ou (11) 9661-5748. Também expõe na Benedito Calixto aos sábados.

 

 

Maria Helena – Arte em Customização de Bolsas

 

A D. Maria Helena tem uma história linda: depois de fazer dois anos da faculdade de direito, largou tudo e foi seguir seu sonho: ser artista. Começou se formando em Educação Artística e dando aula. Até que um dia, a vida lhe pregou um susto: foi diagnosticada com Mal de Parkison. Os alunos começaram a perceber sua mão tremendo e pediam pra ela não ficar nervosa. E aí que ela ficava! “Cansei de explicar! E resolvi parar de dar aula”, conta ela. Isso foi há 8 anos. Numa véspera de Natal, achou um saquinho de juta que tinha sido embrulho de presente e começou a decorá-lo. Gostou tanto da brincadeira que comprou 50 saquinhos e decorou-os todos num só dia! E, no dia seguinte, vendeu 35 de uma vez! Depois disso, não parou mais. Hoje, compra bolsas prontas e “cruas” e customiza, utilizando o que estiver à mão. Além disso, também trabalha com restos de confecções de lingerie e sobras de tecido. Mas ela também faz as próprias bolsas, como essa de babados cor de rosa logo em primeiro plano na foto. Todas peças únicas. Pra encontrar com ela e conhecer seu trabalho, tem que ir pessoalmente na Benedito Calixto aos sábados ou na Praça dos Omaguás aos domingos. Garanto que vale a pena! Além do trabalho ser LIN-DO (pasmem, ela já fez bolsas pra Ópera Rock e outras grifes badaladas da Oscar Freire) a D. Maria Helena é uma simpatia total! Estava acompanhada da mãe, uma sorridente senhora de 92 anos! Lindas!

 

 

Larrisa – Arte em Crochê

 

Desde menina, Larissa já brincava com fios e linhas. Fez macramê, camisetas, tie-dye e, quando ficou grávida, há seis anos, descobriu o crochê. E não largou mais. Algumas de suas peças misturam crochê com chita e ela tem um ponto lindo! Tudo certinho, sem nenhuma linha pendurada! Os bolerinhos, então, são um primor! Agora, pra primavera/verão, arrasam em cima de qualquer vestidinho básico ou mesmo em cima de uma camiseta. Já confeccionou peças para marcas famosas, inclusive a francesa Rossignol, que é a marca das Olimpíadas de Inverno. Vale muito a pena conhecer o trabalho dela, que é formada em Turismo e Yoga. Linda desse jeito, ficou toda tímida na hora da foto! Contato: (11) 9870-1125 ou larissakarpo@yahoo.com

 

 

Fim (por enquanto) das minhas aventuras na Praça dos Omaguás. Mas com certeza ainda vou falar muito dessa feirinha tudo-de-bom, onde a gente conhece histórias geniais e trabalhos lindos. Ou seria histórias lindas e trabalhos geniais? A feira também tem site: www.feiraomaguas.com.

 

Lindo, meigo, fofolete!! Detalhe do trabalho da Dona Maria Helena
Lindo, meigo, fofolete!! Detalhe do trabalho da Dona Maria Helena

Como as pessoas se vestiam

Mary Cassatt - Lydia fazendo crochê
Mary Cassatt – Lydia fazendo crochê

Para quem estuda literatura ou mesmo para quem gosta de ler, é muito interessante prestar atenção à descrição dos detalhes e costumes do passado. Lendo os clássicos da literatura universal, podemos pescar algumas coisas que exemplificam esses hábitos, hoje desaparecidos, que antigamente até mesmo “classificavam” a classe e origem social da pessoa.

As mulheres deviam ser prendadas, saber costurar, bordar, consertar e isso nem faz tanto tempo assim. Fora a parte que denota uma certa imposição de fazer as mulheres ficarem dentro de casa, acho super útil que saibamos costurar, bordar e consertar. Para nós mesmas, para podermos ser auto-suficientes e não ficar dependendo de alguém para dar um simples pontinho ou pregar um botão. Claro que hoje não é mais exigência que uma boa moça de família borde todo o seu enxoval – incluindo lençóis e toalhas com monogramas – mas acho lindo quem tem disposição e arruma um pouco de tempo para bordar aos pouquinhos um detalhe aqui e outro ali da sua casa.

“Mas as mulheres trabalham, são sempre tão ocupadas, quem consegue bordar???”, perguntariam alguns. Eu respondo: nós arranjamos tempo para o que queremos, fazemos nossos planos e arranjos para contemplar nossos desejos. Quando uma pessoa diz que não teve tempo para fazer algo que ela deseja muito, é necessário se perguntar o que está faltando para o desejo se concretizar. Planos simples, como fazer ginástica ou começar um hobby, dependem da nossa força de vontade. Temos que mandar a preguiça ir passear e começar a nos organizar.

Organização, para algumas pessoas, acabou virando sinônimo de chatice. Eu acho que a organização, além de ser necessária inclusive para o nosso prazer, não deve ser encarada como uma vilã. É bom organizar, ter as coisas arrumadinhas, tempo para nós mesmos, disposição para experimentar coisas novas. Temos que assumir a responsabilidade por nossa própria organização de vida, e não deixar que outras pessoas assumam o ônus de cuidar da gente (isso serve para todos aqueles que já tenham condições e formação suficientes).

Por outro lado, ajuda, carinho e uma dose de interesse alheio não fazem mal nenhum. Mal é sentir-se confortável em depender do outro, não buscar seus próprios méritos e não retribuir com carinho o carinho do outro. Para alguns, carinho é dar um presente. Para outros, é dispender uma hora do dia para ouvir o problema de um amigo. Temos que saber entender o carinho do outro.

Puxa, isso foi longe. Comecei falando de como as pessoas se vestiam no passado e acabei falando de relacionamento. Engraçado é que, sempre que falo do passado, essas pequenas atenções me vêem à mente, sorrateiras. Será que tudo isso ficou no passado? Tenho certeza que não. Meus amigos (pouquíssimos, claro) me provam todos os dias que ainda dá pra amar sem grudar, ter carinho sem dar presentes milionários e ajudar um pouquinho, nem que seja emprestando o ombro e o ouvido.

A Beleza e o Poder do Ordinário

Todos os dias nos levantamos, cumprimos nossas rotinas matutinas, trabalhamos, comemos, trabalhamos, jantamos, dormimos… Enfim, todos os dias temos uma rotina a cumprir. A maioria de nós acha que, pelo menos de vez em quando, tem que sair da rotina e fazer coisas diferentes para não pirar. Vi ontem que pelo menos um grupo de pessoas não pensa assim.

Existe uma filosofia zen budista japonesa que cultua a natureza e sua “execução”. Explico: a natureza repete seus ciclos dia após dia, ano após ano, indefinidamente, haja o que houver. Silenciosamente, as flores desabrocham e caem, os animais se reproduzem, a chuva cai, vem o frio e o calor. Observando a natureza, percebemos que raramente as coisas mudam, os comportamentos são previsíveis. Isso acontece porque a natureza é perfeita.

Não é uma questão de repetir uma seqüência infinita e maçante. É a execução de um propósito de vida, feito com perseverança e pontualidade, independentemente se há alguém olhando ou elogiando. A vida é o que importa, a vida de quem faz. Se é o pássaro fazendo o seu ninho, se é o urso que se prepara para hibernar, cada um, cuidando da própria vida, cuida também da harmonia do todo.

Um monge de 104 anos, que hoje comanda o mosteiro que prega essa filosofia, disse: “se quisermos fazer algo, temos que colocar nossa vida em jogo. Só conseguimos atingir uma meta se a nossa vida depende daquilo”. Ao pensarmos assim, não teremos preguiça nem nos perdoaremos por não nos esforçarmos para atingir um objetivo que sabemos possível, porém difícil. Se pensarmos na frase do monge, concluiremos que a nossa vida sempre está em jogo, seja literalmente ou a longo prazo. Ao escolher ficar com alguém, não é a nossa vida? Ao escolhermos um novo emprego, não é o nosso futuro? Vida não é simplesmente o ato de existir, mas o “executar”.

Todos os dias, mesmo aqui em São Paulo, no meio dos prédios e da fumaça da poluição, observo um bando de maritacas que voa sempre no mesmo horário, às 17h30, de uma árvore para outra. Passam gritando, brincando, param nos parapeitos das varandas e conversam. Todos os dias. No inverno, quando chove e a poluição não está tão severa, o sol se põe dando um show todos os dias. Mesmo com tantos obstáculos, a natureza segue cumprindo suas “tarefas”, silenciosamente.

Em nós, a nossa vida é sempre mais importante do que a do outro. Não entendam isso como egoísmo ou “primeiro eu”. Simplesmente, nossa vida tem que ser preservada se quisermos contribuir para um equilíbrio maior e até mesmo ajudar outras pessoas. Quem pode doar? Quem tem. Quem ajuda o que está fraco? Quem está mais forte. Ao zelarmos por nossa saúde física, mental e emocional, contribuímos para a saúde emocional daqueles que amamos, incentivando-os e estendendo a mão, quando for necessário. Aceitar esse ciclo – num dia estamos fortes, noutro estamos fracos – nos faz ter a certeza de, como disse Shakespeare: “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”.

Saúde emocional nos ajuda a superar tropeços, nos faz rir daquilo que podia nos derrubar, nos faz ver beleza no ordinário. O filme A Dama na Água, do diretor indiano M. Night Shyamalan, fala dessa questão de poder acreditar e ver que, mesmo dentro da piscina no quintal da sua casa, pode morar uma ninfa. Esse filme foi muito criticado mas tem sua beleza, especialmente por tentar nos fazer acreditar que a magia não mora nos livros do Harry Potter mas no nosso cotidiano. Magia pode ser fazer uma declaração de amor, poder rir de novo, andar de novo, ver de novo, descobrir que ainda dá tempo. Se olharmos com atenção, todos nós podemos encontrar uma ninfa no quintal, na cozinha, no quarto… Não é acreditar, é fazer, realizar, construir a beleza de todos os dias.

E por falar em China…

 

Quem nunca teve uma blusinha chinesa? Ou um colar com pingente de dragão? Ou a perigosa e irresistível culinária? Hum…

Mesmo magoada com alguns fatos, não nego o quanto a China e seu povo podem produzir coisas lindas. Por um momento, um momento apenas, esqueço que aqueles jardins foram feitos só para demonstrar poder, que as decorações eram símbolos de opressão e que quanta coisa morreu para aquilo estar daquele jeito, ali.

Nesse momento em que me deixo seduzir pela beleza, penso que dá, sim, para viver num mundo belo e macio, sem precisar ferir ninguém. Mas sempre me volta o pensamento que roubando a seda do bichinho, dá pra fabricar verdadeiras carícias, tecidos tão finos e delicados que parecem não existir. Roubando algumas gemas da terra, pingentes, colares, pulseiras e brincos enfeitam o corpo com seu toque gelado. Sim, estamos roubando… Ou será que a Terra está nos presenteando?

Considero alguns objetos produzidos pelas mãos habilidosas de artesãos a partir de suas belezas naturais como um presente que o planeta me deu. Uso-os com carinho, quase como uma homenagem. Meu presente é não desperdiçar recursos e matar o mínimo possível. Mas ainda estou devendo.

Customização de tudo

Aqui, sempre falamos de roupas e acessórios, mas a moda hoje é customizar tudo. Há um novo conceito de morar, que inclui a customização da planta dos apartamentos, customização dos carros e acessórios destes e daqueles pequenos aparelhos que carregamos conosco todos os dias, como celular, notebook ou notepad.

Acho legal poder imprimir nossa marca e deixar as coisas com a nossa cara. O problema é quando a gente pensa que não pode haver um evento aleatório na nossa vida. Quantas vezes não fomos buscar um novelo de uma cor e chegamos na loja, não tinha a tal cor e, muitas vezes, nem a tal lã e acabamos voltando com outra  coisa, que virou a nossa blusa preferida? Ou aqueles eventos ainda mais dramáticos que, andando na rua, podemos acabar tropeçando num futuro melhor amigo?

Eventos ocorridos ao acaso tem sua beleza. Filhos são o maior exemplo disso, quando concebidos pelas vias naturais: quem pode prever que célula encontrará aquela que está esperando? Quem pode prever a cor dos olhos, a exata tonalidade da pele, o dente tortinho ou a mania de abrir as mãos? Pois fiquem sabendo que agora a moda é customizar os filhos também. Isso mesmo: em algumas clínicas, dá pra escolher a cor dos olhos e algumas outras características que ficavam apenas na torcida dos pais.

Claro que, por um lado, isso é ótimo, porque dá pra “programar” uma criança quase perfeita, sem problemas genéticos nem síndromes, que causariam sofrimento. Mas não é um pouco estranho poder controlar tudo? Como os chineses estão tentando fazer, programar o tempo e a chuva para disfarçar e maquiar a poluição que eles mesmos jogaram na atmosfera? Deixo a China pra lá, por enquanto, porque tenho muitas críticas para fazer.

Mas acho o aleatório, o supreendente, parte da vida e gostaria que algumas coisas apenas existissem do jeito que são, “descontroladas” no melhor sentido do termo. Não sabemos quando vai chover (pelo menos não exatamente), não sabemos quando será o próximo beijo nem o próximo abraço (podemos tomar a iniciativa), não sabemos quando será inevitável.  A foto acima é uma arte zen chamada Wabi Sabi, que significa “beleza na imperfeição”. O Wabi Sabi encontra a beleza na natureza e na aceitação do ciclo natural da vida. Temos que parar de associar o que é belo ao que é perfeito. Tudo que produz alegria e paz é lindo. Como o ocasional “Abraço das Folhas” acima.

Por isso me deixo surpreender todos os dias e é necessário que nos empenhemos em surpreender a quem amamos, pois podem até já conseguir programar a cor dos olhos, mas ainda não sabemos o que será amanhã.

O que é ser feminina?

crédito da imagem

 

Fico me perguntando como as mulheres querem ser vistas hoje em dia. Quando digo as mulheres, quero dizer as mulheres perto de mim, que levam uma vida parecida com a minha, freqüentam lugares parecidos e ganham mais ou menos a mesma coisa. Esse mundo é tão grande e tão variado que não podemos discutir o papel da mulher no mundo, mas talvez no nosso bairro. Já pensou nas mulheres da China, da Etiópia, do Egito? Elas estão tão distantes de nós, geograficamente e emocionalmente!

 

No Egito, ainda é uma prática comum a circuncisão feminina (remover o clitóris). Avós e mães ajudam a segurar a menina, de seus 8 anos, geralmente em casa, no meio da noite. Podemos creditar à cultura, podemos chamar de violência… No Egito, e em outros países da África, eles chamam de ritual, um ritual necessário, pelo qual a maioria das mulheres passará.

“No Egito, as estimativas indicam que um entre cada quatro casos de gravidez termina em aborto ilegal, e o resultado é, a cada ano, uma série de complicações muito sérias, que afetam muito mais as mulheres das classes mais baixas. O aborto ilegal, no Egito, atualmente, é a maior causa de morte em gestantes”.

Trecho do livro A Face Oculta de Eva – As Mulheres do Mundo Árabe, de Nawal El Saadawi – Global Editora

 

Enquanto isso, nas paragens mais remotas da China, as mulheres mandam. Em Loshui, há uma comunidade matriarcal onde elas são as donas do dinheiro, das propriedades, dos filhos, de todos os sobrenomes e são quem mandam e desmandam o tempo todo.

“Os Mosuo não têm a menor intenção de ter na mesma pessoa afeto, família e lar. A família, para que perdure, nunca deve estar baseada em um casal. Entendem que isso torna o grupo altamente instável.

O sistema de visitas, como modalidade de vida sexual, mantém os integrantes de uma família consangüinea unidos e a salvo de coabitar com um estranho. Essa é uma das razões fundamentais pela qual a figura do pai é desconhecida. Ao ficar grávida, a mulher não pode definir com certeza com quem concebeu. Se soubesse, também poderia abster-se de contar ao filho, pois é tabu fazer referência ao aspecto sexual diante de familiares.

A proibição de qualquer menção à sexualidade diante de um parente, especialmente do sexo oposto, é uma das razões do sigilo. Um segredo por todos conhecido, como é, em geral, esse tipo de segredo”

Trecho do livro O Reino das Mulheres – O Último Matriarcado, de Ricardo Coler – Editora Planeta

 

Isso sem falar nas mulheres da Índia e seus percalços, nas Européias e seus percalços, nas mulheres dos lugares mais distantes de onde você está agora, e seus percalços…

 

Penso nisso porque acredito que ser feminina é mais do que usar um vestido de florzinhas e “tomar conta” da casa. Mesmo as mulheres que ficam cuidando da casa, trabalham muito e merecem ter o direito de se sentirem desejadas e bonitas. Ser feminina não significa ser “mulherzinha”, mas não tem problema nenhum em sentir-se carente e querer um colo de vez em quando.

Penso que passada a geração feminista dos anos 60, que brigava por direitos iguais, devemos ter em mente que temos que respeitar nossas diferenças, e não querer eliminá-las como se fossem um problema. Menstruação é problema? Carência é problema? Vontade de chorar é problema? Saber que pode comandar uma empresa ou um time de homens é ousadia? Claro que não!

Mais uma vez, o que vestimos manda uma mensagem para as pessoas. Vestidos evidenciando a cintura (não adesivos de lycra, por favor), sapatos de bico redondo, cabelos médios, meio cacheados, maquiagem suave, manda a seguinte mensagem: aproxime-se, sua opinião é importante e eu quero escutá-la. Isso falando num ambiente de trabalho. Terninho de ombros estruturados, sapatos tipo mocassim ou de bico e salto fino, cabelos presos e cores marcantes na maquiagem mandam outra mensagem: cheguei aqui porque sou competente, sei o que estou fazendo e não tenho o menor problema em mandar você ir passear.

Claro que estou colocando as coisas meio 8 ou 80, mas como você se relaciona com o mundo, com as pessoas e com o seu trabalho, é um reflexo de como você se relaciona com a sua imagem. A imagem que você projeta ao mundo. O sexo (homem – mulher) da fisiologia não tem nada a ver com o gênero, socialmente definido. O papel da mulher também não é biologicamente definido.

O que queremos para nós? Queremos um mundo cheiroso, bonito, agradável? Porque não começar com nosso corpo? Isso não é ser mulherzinha… isso é ser gente.