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A Beleza e o Poder do Ordinário

Todos os dias nos levantamos, cumprimos nossas rotinas matutinas, trabalhamos, comemos, trabalhamos, jantamos, dormimos… Enfim, todos os dias temos uma rotina a cumprir. A maioria de nós acha que, pelo menos de vez em quando, tem que sair da rotina e fazer coisas diferentes para não pirar. Vi ontem que pelo menos um grupo de pessoas não pensa assim.

Existe uma filosofia zen budista japonesa que cultua a natureza e sua “execução”. Explico: a natureza repete seus ciclos dia após dia, ano após ano, indefinidamente, haja o que houver. Silenciosamente, as flores desabrocham e caem, os animais se reproduzem, a chuva cai, vem o frio e o calor. Observando a natureza, percebemos que raramente as coisas mudam, os comportamentos são previsíveis. Isso acontece porque a natureza é perfeita.

Não é uma questão de repetir uma seqüência infinita e maçante. É a execução de um propósito de vida, feito com perseverança e pontualidade, independentemente se há alguém olhando ou elogiando. A vida é o que importa, a vida de quem faz. Se é o pássaro fazendo o seu ninho, se é o urso que se prepara para hibernar, cada um, cuidando da própria vida, cuida também da harmonia do todo.

Um monge de 104 anos, que hoje comanda o mosteiro que prega essa filosofia, disse: “se quisermos fazer algo, temos que colocar nossa vida em jogo. Só conseguimos atingir uma meta se a nossa vida depende daquilo”. Ao pensarmos assim, não teremos preguiça nem nos perdoaremos por não nos esforçarmos para atingir um objetivo que sabemos possível, porém difícil. Se pensarmos na frase do monge, concluiremos que a nossa vida sempre está em jogo, seja literalmente ou a longo prazo. Ao escolher ficar com alguém, não é a nossa vida? Ao escolhermos um novo emprego, não é o nosso futuro? Vida não é simplesmente o ato de existir, mas o “executar”.

Todos os dias, mesmo aqui em São Paulo, no meio dos prédios e da fumaça da poluição, observo um bando de maritacas que voa sempre no mesmo horário, às 17h30, de uma árvore para outra. Passam gritando, brincando, param nos parapeitos das varandas e conversam. Todos os dias. No inverno, quando chove e a poluição não está tão severa, o sol se põe dando um show todos os dias. Mesmo com tantos obstáculos, a natureza segue cumprindo suas “tarefas”, silenciosamente.

Em nós, a nossa vida é sempre mais importante do que a do outro. Não entendam isso como egoísmo ou “primeiro eu”. Simplesmente, nossa vida tem que ser preservada se quisermos contribuir para um equilíbrio maior e até mesmo ajudar outras pessoas. Quem pode doar? Quem tem. Quem ajuda o que está fraco? Quem está mais forte. Ao zelarmos por nossa saúde física, mental e emocional, contribuímos para a saúde emocional daqueles que amamos, incentivando-os e estendendo a mão, quando for necessário. Aceitar esse ciclo – num dia estamos fortes, noutro estamos fracos – nos faz ter a certeza de, como disse Shakespeare: “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”.

Saúde emocional nos ajuda a superar tropeços, nos faz rir daquilo que podia nos derrubar, nos faz ver beleza no ordinário. O filme A Dama na Água, do diretor indiano M. Night Shyamalan, fala dessa questão de poder acreditar e ver que, mesmo dentro da piscina no quintal da sua casa, pode morar uma ninfa. Esse filme foi muito criticado mas tem sua beleza, especialmente por tentar nos fazer acreditar que a magia não mora nos livros do Harry Potter mas no nosso cotidiano. Magia pode ser fazer uma declaração de amor, poder rir de novo, andar de novo, ver de novo, descobrir que ainda dá tempo. Se olharmos com atenção, todos nós podemos encontrar uma ninfa no quintal, na cozinha, no quarto… Não é acreditar, é fazer, realizar, construir a beleza de todos os dias.

E por falar em China…

 

Quem nunca teve uma blusinha chinesa? Ou um colar com pingente de dragão? Ou a perigosa e irresistível culinária? Hum…

Mesmo magoada com alguns fatos, não nego o quanto a China e seu povo podem produzir coisas lindas. Por um momento, um momento apenas, esqueço que aqueles jardins foram feitos só para demonstrar poder, que as decorações eram símbolos de opressão e que quanta coisa morreu para aquilo estar daquele jeito, ali.

Nesse momento em que me deixo seduzir pela beleza, penso que dá, sim, para viver num mundo belo e macio, sem precisar ferir ninguém. Mas sempre me volta o pensamento que roubando a seda do bichinho, dá pra fabricar verdadeiras carícias, tecidos tão finos e delicados que parecem não existir. Roubando algumas gemas da terra, pingentes, colares, pulseiras e brincos enfeitam o corpo com seu toque gelado. Sim, estamos roubando… Ou será que a Terra está nos presenteando?

Considero alguns objetos produzidos pelas mãos habilidosas de artesãos a partir de suas belezas naturais como um presente que o planeta me deu. Uso-os com carinho, quase como uma homenagem. Meu presente é não desperdiçar recursos e matar o mínimo possível. Mas ainda estou devendo.

Customização de tudo

Aqui, sempre falamos de roupas e acessórios, mas a moda hoje é customizar tudo. Há um novo conceito de morar, que inclui a customização da planta dos apartamentos, customização dos carros e acessórios destes e daqueles pequenos aparelhos que carregamos conosco todos os dias, como celular, notebook ou notepad.

Acho legal poder imprimir nossa marca e deixar as coisas com a nossa cara. O problema é quando a gente pensa que não pode haver um evento aleatório na nossa vida. Quantas vezes não fomos buscar um novelo de uma cor e chegamos na loja, não tinha a tal cor e, muitas vezes, nem a tal lã e acabamos voltando com outra  coisa, que virou a nossa blusa preferida? Ou aqueles eventos ainda mais dramáticos que, andando na rua, podemos acabar tropeçando num futuro melhor amigo?

Eventos ocorridos ao acaso tem sua beleza. Filhos são o maior exemplo disso, quando concebidos pelas vias naturais: quem pode prever que célula encontrará aquela que está esperando? Quem pode prever a cor dos olhos, a exata tonalidade da pele, o dente tortinho ou a mania de abrir as mãos? Pois fiquem sabendo que agora a moda é customizar os filhos também. Isso mesmo: em algumas clínicas, dá pra escolher a cor dos olhos e algumas outras características que ficavam apenas na torcida dos pais.

Claro que, por um lado, isso é ótimo, porque dá pra “programar” uma criança quase perfeita, sem problemas genéticos nem síndromes, que causariam sofrimento. Mas não é um pouco estranho poder controlar tudo? Como os chineses estão tentando fazer, programar o tempo e a chuva para disfarçar e maquiar a poluição que eles mesmos jogaram na atmosfera? Deixo a China pra lá, por enquanto, porque tenho muitas críticas para fazer.

Mas acho o aleatório, o supreendente, parte da vida e gostaria que algumas coisas apenas existissem do jeito que são, “descontroladas” no melhor sentido do termo. Não sabemos quando vai chover (pelo menos não exatamente), não sabemos quando será o próximo beijo nem o próximo abraço (podemos tomar a iniciativa), não sabemos quando será inevitável.  A foto acima é uma arte zen chamada Wabi Sabi, que significa “beleza na imperfeição”. O Wabi Sabi encontra a beleza na natureza e na aceitação do ciclo natural da vida. Temos que parar de associar o que é belo ao que é perfeito. Tudo que produz alegria e paz é lindo. Como o ocasional “Abraço das Folhas” acima.

Por isso me deixo surpreender todos os dias e é necessário que nos empenhemos em surpreender a quem amamos, pois podem até já conseguir programar a cor dos olhos, mas ainda não sabemos o que será amanhã.

O que é ser feminina?

crédito da imagem

 

Fico me perguntando como as mulheres querem ser vistas hoje em dia. Quando digo as mulheres, quero dizer as mulheres perto de mim, que levam uma vida parecida com a minha, freqüentam lugares parecidos e ganham mais ou menos a mesma coisa. Esse mundo é tão grande e tão variado que não podemos discutir o papel da mulher no mundo, mas talvez no nosso bairro. Já pensou nas mulheres da China, da Etiópia, do Egito? Elas estão tão distantes de nós, geograficamente e emocionalmente!

 

No Egito, ainda é uma prática comum a circuncisão feminina (remover o clitóris). Avós e mães ajudam a segurar a menina, de seus 8 anos, geralmente em casa, no meio da noite. Podemos creditar à cultura, podemos chamar de violência… No Egito, e em outros países da África, eles chamam de ritual, um ritual necessário, pelo qual a maioria das mulheres passará.

“No Egito, as estimativas indicam que um entre cada quatro casos de gravidez termina em aborto ilegal, e o resultado é, a cada ano, uma série de complicações muito sérias, que afetam muito mais as mulheres das classes mais baixas. O aborto ilegal, no Egito, atualmente, é a maior causa de morte em gestantes”.

Trecho do livro A Face Oculta de Eva – As Mulheres do Mundo Árabe, de Nawal El Saadawi – Global Editora

 

Enquanto isso, nas paragens mais remotas da China, as mulheres mandam. Em Loshui, há uma comunidade matriarcal onde elas são as donas do dinheiro, das propriedades, dos filhos, de todos os sobrenomes e são quem mandam e desmandam o tempo todo.

“Os Mosuo não têm a menor intenção de ter na mesma pessoa afeto, família e lar. A família, para que perdure, nunca deve estar baseada em um casal. Entendem que isso torna o grupo altamente instável.

O sistema de visitas, como modalidade de vida sexual, mantém os integrantes de uma família consangüinea unidos e a salvo de coabitar com um estranho. Essa é uma das razões fundamentais pela qual a figura do pai é desconhecida. Ao ficar grávida, a mulher não pode definir com certeza com quem concebeu. Se soubesse, também poderia abster-se de contar ao filho, pois é tabu fazer referência ao aspecto sexual diante de familiares.

A proibição de qualquer menção à sexualidade diante de um parente, especialmente do sexo oposto, é uma das razões do sigilo. Um segredo por todos conhecido, como é, em geral, esse tipo de segredo”

Trecho do livro O Reino das Mulheres – O Último Matriarcado, de Ricardo Coler – Editora Planeta

 

Isso sem falar nas mulheres da Índia e seus percalços, nas Européias e seus percalços, nas mulheres dos lugares mais distantes de onde você está agora, e seus percalços…

 

Penso nisso porque acredito que ser feminina é mais do que usar um vestido de florzinhas e “tomar conta” da casa. Mesmo as mulheres que ficam cuidando da casa, trabalham muito e merecem ter o direito de se sentirem desejadas e bonitas. Ser feminina não significa ser “mulherzinha”, mas não tem problema nenhum em sentir-se carente e querer um colo de vez em quando.

Penso que passada a geração feminista dos anos 60, que brigava por direitos iguais, devemos ter em mente que temos que respeitar nossas diferenças, e não querer eliminá-las como se fossem um problema. Menstruação é problema? Carência é problema? Vontade de chorar é problema? Saber que pode comandar uma empresa ou um time de homens é ousadia? Claro que não!

Mais uma vez, o que vestimos manda uma mensagem para as pessoas. Vestidos evidenciando a cintura (não adesivos de lycra, por favor), sapatos de bico redondo, cabelos médios, meio cacheados, maquiagem suave, manda a seguinte mensagem: aproxime-se, sua opinião é importante e eu quero escutá-la. Isso falando num ambiente de trabalho. Terninho de ombros estruturados, sapatos tipo mocassim ou de bico e salto fino, cabelos presos e cores marcantes na maquiagem mandam outra mensagem: cheguei aqui porque sou competente, sei o que estou fazendo e não tenho o menor problema em mandar você ir passear.

Claro que estou colocando as coisas meio 8 ou 80, mas como você se relaciona com o mundo, com as pessoas e com o seu trabalho, é um reflexo de como você se relaciona com a sua imagem. A imagem que você projeta ao mundo. O sexo (homem – mulher) da fisiologia não tem nada a ver com o gênero, socialmente definido. O papel da mulher também não é biologicamente definido.

O que queremos para nós? Queremos um mundo cheiroso, bonito, agradável? Porque não começar com nosso corpo? Isso não é ser mulherzinha… isso é ser gente.

 

 

O acalento do Acalanto

Para mim, tricô rima com aconchego, tarde de família conversando e rindo, perenidade. E não há nada que faça uma mistura ainda melhor com tricô do que um acalanto. Acalanto, a canção de ninar, foi tema de um projeto que teve seu site oficial lançado esta semana.

Lembro-me de uma linda canção de ninar, dinamarquesa, que ouvi minha amiga Majbrit cantando. Não entendi uma só palavra (além de Moa, que quer dizer mãe) mas a suavidade e a delicadeza da toada eram tantas que me comoveram. Em qualquer língua, em qualquer contexto, uma canção de ninar sempre cumpre a sua função: deixar coraçõezinhos em paz e mães sossegadas. Até os mais grandinhos (aí me incluo) são confortados por uma velha cantiga, que evoque um ambiente de paz, segurança e eterna tranqüilidade.

Esse clima de aconchego e carinho combina muito com Marc Chagall, o pintor russo carregado de saudade que pintava os amantes flutuando pelo céu de Paris. Sua Rússia natal era apenas uma memória de vacas e vilas, judeus tristes e neve. No meio de tudo, o amor de uma mulher coloria sua solidão. A visão do quadro aquarelado embaça o olhar emocionado daqueles que olham para a infância com saudade.

Em qualquer idade, precisamos do conforto emocional que uma voz terna pode proporcionar. Se for a voz da mãe, ainda melhor. Lembro-me de um trecho de uma canção, nem sei bem se é um acalanto, mas é uma cantiguinha assim:

 

Alecrim, alecrim dourado

Que nasceu no campo

Sem ser semeado…

 

Visite o site do projeto e cante o seu acalanto: www.auditorioibirapuera.com.br/home_acalanto.aspx