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Mãos Dadas

 

Já parou pra pensar o que faz duas pessoas andarem de mãos dadas?

Geralmente, quando ando pela rua ou estou sendo passageira, observo as pessoas. A maioria andando sozinha, apressada, ou acompanhando amigos, colegas de trabalho, conhecidos. Em nosso país, apenas casais e pais/mães/filhos andam de mãos dadas.

Parei pra pensar nos casais: namorados, casados ou simplesmente apaixonados. Alguns, mais do que se darem as mãos, se abraçam. É meio difícil andar pela rua abraçado, ainda mais numa calçada apertada ou muito movimentada. Mas eles não se desgrudam.

Parei pra pensar que a gente busca tanto alguém para amar, para se preocupar conosco, pra dividir com a gente nossos sorrisos e aflições. Depois que a gente encontra alguém, é aflitivo pensar que podemos perder essa pessoa novamente no meio da multidão da qual a resgatamos. Por isso, talvez, as mãos unidas, os corpos colados num abraço apertado. “Não quero te perder”, “quero me certificar que você está ao meu lado”.

Naquele momento do aperto da mão, é um sentimento de segurança e carinho que nos dá o prazer daquela companhia rara, que encontramos e que não queremos perder de vista. Mas temos que pensar que, muitas vezes, pra aquela mão estar ali, é preciso saber largá-la.

Lembrei de uma propaganda de uma companhia de telefonia celular que dizia “Você nunca está sozinho”.  Na hora pensei, “Que horror! E quando eu quiser ficar sozinha?”. Todos precisamos de um espaço, de um momento sozinhos. Temos que aprender todos os dias a gostar de nossa própria companhia, de ouvirmos os nossos sons, de percebemos as nossas sensações. Esse aprendizado vai servir pra perceber melhor a mão do outro, o corpo do outro, a vontade do outro.

A ausência daquela mão a torna mais especial. A ausência dela, em algumas culturas, inclusive na nossa, a transformou em anel. Quando ela não nos segura, o anel simboliza que há outra mão, em outro lugar, usando o mesmo símbolo de ausência e de compromisso: o compromisso de estar ali quando precisarmos e quisermos.

Não podemos colocar nessa mão, por vezes presente, por vezes ausente, nossa felicidade. Temos que fazer nossa própria felicidade para dividi-la com alguém que merece, que também irá dividir a felicidade dele/dela conosco. Como fazemos isso? Nossa felicidade vem de sermos equilibrados, de vivermos uma vida sem contradições, de valorizarmos os momentos e as pessoas do jeito que chegam até nós.

“Felicidade acontece quando o que você faz e o que você fala estão em harmonia”, disse Gandhi. Isso é viver sem contradição. Se você não come carne porque tem dó dos animais, não compre o sapato e a bolsa de couro tããããooo lindos que você viu. Isso é uma contradição. Se você acha que uma pessoa famosa se vestiu mal ou está usando uma maquiagem inapropriada, não precisa ir alardeando para os quatro ventos como ela é cafona, ou isso, ou aquilo. Faça seu comentário, dê sua opinião (sou a favor da opinião e não da fofoca) e ponto final. Pessoas interessantes falam de idéias, pessoas vazias falam de pessoas. Quando não der pra elogiar, tente simplesmente ignorar. E quando der pra elogiar, seja generoso.

Então, que tal dar a mão para aquela pessoa querida que você não quer perder? A vida, muitas vezes, carrega para longe pessoas muito próximas: irmãos, pais, tios, primos… Não podemos procurá-los só no final do ano, quando a maioria passa por aquela fase mais sentimentalista e materialista. Relacionamentos se constróem todos os dias e isso inclui interessar-se pela vida, pelos assuntos e pelos problemas de alguém que você considere que vale a pena amar. Na maioria das vezes, vale mesmo.

Já disse que adoro as coisas que não servem pra nada. Dar a mão, a não ser que você seja uma criança atravessando a rua, só serve pra você demonstrar que você está ali. É óbvio, é redundante, não serve pra nada… mas é tão bom!

Lançamento – Para Francisco

Não era só um lançamento de livro. Era um encontro. Pessoas foram até lá pra ver como é ser alguém que conseguiu superar a perda e a dor por meio da beleza. Porque o texto é lindo e a pessoa que o escreve também. O bate-papo começou descontraído, quase tímido. Poucas perguntas. O que perguntar pra alguém que já disse tudo? O que ainda pode se pedir para ver diante de alguém que nunca se esconde?

 

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Cristiana Guerra sorri pouco. Mas quando sorri, sorri com todos os dentes e toda a vontade. Sua economia de sorrisos não se reflete em suas palavras. Escreve muito, fala muito. O livro foi e é mesmo para Francisco, o filho que ela teve dois meses depois de virar viúva. “Ele vai gostar de ver o que escrevi quando crescer? Não sei”, diz ela, quando perguntada sobre sua exposição. Ela se expõe, ela se admite assim, aberta para a vida e para o mundo. Francisco não escolheu isso. Por isso, embora toda a razão de ser do livro e do blog seja ele, ela quer poupá-lo. Ele pode decidir o que quiser depois que aprender o que é estar nesse mundo.

Embora, como ela mesma diz, seja uma situação tão peculiar – uma mulher grávida que fica viúva – ela descobriu que muitas pessoas lêem o blog e se interessam pela sua trajetória porque, é claro, trata-se de uma história de amor. Um amor que nasce da superação da dor e da perda e da tentativa de lidar com um imprevisto cruel.

O mais incrível de toda essa história é que reuniu pessoas que nunca, provavelmente, se encontrariam. É isso, também, que tornou essa noite tão especial: as pessoas que estavam ali, emocionando-se com a história da Cris, também estavam encontrando novos amigos e começando uma nova história da afeto. Afeto e saber valorizar o que temos de mais importante: é assim que se aprende a viver.

Eu sempre penso nisso e, depois de ontem, vi que esse é um dos grandes segredos para se viver em paz, consigo mesmo e com os outros: saber ignorar o que parece ter importância, mas não tem, e valorizar o momento único e belo que jamais voltará. Lembro-me de uma frase do filme argentino O Filho da Noiva, que o personagem que perdeu a mulher e a filha pequena em um acidente diz para o amigo: “Quando você percebe que nunca irá te acontecer nada pior do que já te aconteceu, você adquire um certo poder”. Acho que a Cris tem esse poder.

Fiquei muito feliz de ter encontrado a Cris e, principalmente, de conhecer essas meninas lindas que começaram a fazer parte da minha vida nesta semana. Meninas de Sampa, vocês sabem onde eu estou. Ana, queria que o Rio fosse mais perto (uns 20 minutos, no máximo). Vamos ficar com as fotos, pra já ir matando as saudades.

 

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Cris Guerra e eu

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Dany, Lilian, Ana e eu com nossos livros autografados

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Ficamos até às 22h só pra bater essa foto

Encontro de Blogueiras

Hoje, aqui em São Paulo, vai ter o lançamento do livro Para Francisco, da Cris Guerra, que escreve o blog do mesmo nome. Aproveitamos para promover um encontro de meninas que só se conheciam pela blogsfera: LouLilian, Lily e a Ana do Hoje Vou Assim Off, que veio lá do Rio de Janeiro.

Sábado, a gente se encontrou, comeu pizza e deu muita risada.

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Na foto, eu, Lou, Ana, Lilian e Lily e os meninos acompanhantes.

 

Ontem, fui com a Ana passear pelas pontas de estoque da vida e para a 25 de março. Pegamos chuva, fomos abordadas por pessoas assustadoras e simpáticas e levamos bico de guarda-chuva na cabeça. O que seria dos passeios sem as surpresas? Pelo menos a gente riu muito!

No sábado, estávamos conversando na mesa sobre o que é escrever um blog e até que ponto podemos nos expor. Sim, concordo que o blog é uma exposição, que mostramos nossa cara, escrevemos nossas opiniões e ficamos à mercê do julgamento alheio. É um risco? Sim, claro, mas, no meu caso pelo menos, é um risco calculado. Sei quanto devo me expôr e até que ponto devo ir. Esta é minha casa on-line, mas só libero a sala de estar para as visitas. Falo e mostro o que quero.

Temos que tomar mesmo cuidado porque nunca se sabe o que se passa na cabeça das pessoas. Faço tudo na maior boa intenção e, como o encontro de sábado provou, ganhei amigas com isso. Um encontro que só foi possível graças à internet e aos blogs, à coragem de se expor (um pouco) e de querer compartilhar.

Para tudo na vida deve haver equilíbrio. Claro que o mundo virtual nunca substituirá o meu mundo real, onde as pessoas se encontram, se olham nos olhos e se abraçam. Mas o mundo virtual PODE proporcionar um encontro real, uma satisfação real, uma amizade real. Deve-se ter o bom senso de saber aproveitar o melhor dos dois mundos, sem que um substitua o outro. Blog e email, por enquanto, são suficientes para mim. Até tenho uma conta no Flickr mas ainda não usei. E tempo pra tudo isso, quem tem? Eu, ainda não. E nem sei se terei um dia. Se for pra passar 12 horas na frente do computador, é melhor pensar duas vezes. Quando vai dar tempo de sair, tomar um chá, bater um papo? Já escrevi sobre isso aqui e continuo tendo a mesma opinião.

Hoje, viva

 

“Tudo o que pertence ao passado é do âmbito da morte. Portanto, meu caro Lucílio, age como dizes na tua carta: sê o proprietário de todas as tuas horas. Serás menos escravo do amanhã se te tornares dono do presente. Enquanto a remetemos para mais tarde, a vida passa. Nada, Lucílio, nos pertence: só o tempo é nosso”.

Sêneca escrevendo a Lucílio. As cartas estão no livro As Relações Humanas, da Editora Landy.

Impressões sobre a 5ª Semana de Moda e Cultura

As palestras da 5ª Semana de Moda e Cultura realizadas na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na semana passada foram dirigidas principalmente para profissionais e estudantes de moda, além de áreas afins, como jornalismo, arte, fotografia.

Os palestrantes eram todos destaques do cenário da moda brasileira atual, entre eles Paulo Borges, idealizador e realizador da São Paulo Fashion Week.

Quero destacar a palestra de Fábia Bercsek, que falou de criatividade e customização. O que ficou foi: moda é cada vez mais identidade e é preciso descobrir-se antes de descobrir sua moda. Quem é você? Do que você gosta? Que imagem você quer passar? Sem isso, fica impossível ter estilo. Estilo é, antes de tudo, quem você é e de que forma você escolheu mostrar-se para o mundo. Para isso, é preciso conhecer-se.

Parece fácil? Não é, porque requer um exercício de olhar para dentro antes de olhar para fora. É preciso, às vezes, coragem, para assumir escolhas e definir sua visão de mundo. Mas vale a pena pois é um exercício além de moda, além de roupa. É um exercício de sabedoria. Isso me lembra a entrevista que eu vi com o cineasta David Lynch que disse que a meditação, prática que o acompanha há mais de 20 anos, abriu sua mente para dentro e para fora e que, depois disso, ficou muito mais fácil saber o que ele queria em todos os sentidos: profissionalmente, pessoalmente, emocionalmente… Quase ninguém nos diz isso mas a maioria das neuras que temos e dos problemas que enfrentamos não existiriam se soubéssemos fazer escolhas apropriadas e tomar os rumos certos para nós mesmos.

 

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 Fábia Bercsek

 

Depois da palestra, fomos para a customização de camisetas, e nem preciso dizer que foi uma delícia. A minha ficou assim, depois que eu voltei pra casa e acrescentei algumas coisinhas do meu repertório:

 

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Outro destaque foi a palestra/bate-papo com o estilista André Lima, a jornalista e editora da l’Officiel Brasil Silvana Holzmeister e o fotógrafo Bob Wolfenson sobre Moda, Jornalismo e Fotografia. Uma hora de uma conversa inteligente, multidisciplinar (falou-se até das eleições americanas e do estilo de Michelle Obama) e inspiradora, daquelas que a gente sai com milhares de idéias na cabeça. Não consigo e nem tenho a pretensão de resumir tudo aqui mas acho que consigo expressar a idéia principal em apenas uma frase: moda é referência e não cópia. Claro que existe o fast fashion, aquela idéia das Lojas Marisa ou C&A, mas o legal é usar essas informações para ser criativo, usar suas próprias referências para construir uma imagem (de novo, descobrir-se) e, principalmente, ser curioso. Assista filmes (mesmo os que você acha “esquisitos”), ouça músicas novas, vá ao teatro, ao balé, enfim, faça coisas diferentes do que costuma fazer. Esse quebra-cabeças de informações, sua visão de mundo e suas experiências vão ajudar na criação de um estilo próprio e de um olho treinado para o que é bom. Olhe tudo: desde o mendigo na rua até as nuvens no céu. Tudo é inspiração. Lembro que uma vez o Alexandre Herchcovitch disse que “adorava a combinações de estampas das velhinhas que ele via na rua”. Ele até fez um desfile com essa inspiração. Ou seja, ABRA OS OLHOS!

 

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 André Lima, Silvana Holzmeister e Bob Wolfenson

 

Posso dizer que valeu muito a pena e que saí das palestras com a cabeça a mil, cheia de idéias. Além disso, foi tudo de graça! Precisamos de mais eventos assim, que não selecionam a partir da conta bancária, mas do interesse genuíno em participar e querer adquirir conhecimento.

Os alunos de moda da FMU, do Senac e da Belas Artes tiveram seus trabalhos de conclusão de curso expostos na livraria também. Olha que bonito…

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PIB ou FIB: as Lições do Butão

 

Conheça o reino de Butão, onde a Felicidade Interna Bruta é o fator mais importante.

Visualize um reino de deslumbrantes cumes nevados, com leopardos e iaques vagando pelas montanhas. Com vastas florestas intocadas, onde o contentamento é mais valorizado que o comércio, e um sábio rei que declara que a felicidade de seus súditos é mais importante que a produção econômica.

Um conto de fadas? Um sonho da imaginação? Um reino virtual no Second Life? Nada disso. Estou falando de um lugar real, com pessoas verdadeiras – o reino do Butão, no Himalaia.

O Butão tem capturado a atenção mundial por sua inovadora mensuração da FIB (Felicidade Interna Bruta), em vez de PIB (Produto Interno Bruto). Por décadas, o PIB, índice de progresso que soma todas as transações econômicas de uma nação, tem sido criticado, mais recentemente numa conferência da Comissão Européia, em Bruxelas. O PIB não somente falha em contabilizar os custos ambientais, mas também inclui formas de crescimento econômico que são prejudiciais ao bem-estar da sociedade. Por exemplo, despesas com atendimento médico, crime, divórcio e até desastres como o Katrina são computadas como um aumento do PIB!

A FIB vai um passo além. Ela situa a felicidade como o pivô do desenvolvimento. Desde a época de Aristóteles, e indo até a Declaração da Independência dos Estados Unidos, muitas sociedades consideraram a busca da felicidade um direito fundamental de todos os cidadãos. E agora, em pleno século XXI, o rei do Butão, Jigme Singye Wangchuk – uma das cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a lista da revista Time –, disse que a FIB é o alicerce de todas as políticas de desenvolvimento do governo.

Fui convidada para participar da 3a Conferência Internacional sobre Felicidade Interna Bruta, na semana passada, em Bangcoc, Tailândia. Numerosos palestrantes enfatizaram que, enquanto o PIB se baseou na crença de que a acumulação da produção econômica leva a um maior bem-estar, as pesquisas mostram que, após certo nível de renda, o aumento da riqueza não conduz a um correspondente aumento da felicidade.

“O acelerado crescimento da Ásia nas últimas décadas alcançou o impressionante índice de 10% ao ano”, disse Surin Pitsuwan, ex-ministro do Exterior da Tailândia. “Mas será que estamos mais felizes que antes, com nossa renda aumentando cada vez mais rápido? Muitos dizem que não.” De fato, quando olhei a minha volta em Bangcoc, os graciosos pináculos dos templos tailandeses, com suas douradas telhas cintilando ao sol, foram obscurecidos pelos colossais shopping centers que parecem gigantescas espaçonaves. “Nós aqui do sudeste da Ásia”, afirmou Pitsuwan, “apesar dos nossos milhões de rúpias, de ringgits e de bahts, nos sentimos mais inseguros com relação a nossa vida, a nossa família, a nosso futuro do que jamais sentimos antes.”

O Butão proveu uma alternativa. Os delegados butaneses na conferência atraíram a atenção não apenas por suas distintas túnicas bordadas, mas também por sua aura de júbilo interno. As decisões políticas nesse país, de acordo com Dasho Karma Ura, diretor para o Centro de Estudos do Butão, são tomadas a partir dos indicadores da FIB, que são os seguintes: padrão de vida, saúde, educação, resiliência ecológica, bem-estar psicológico, diversidade cultural, uso equilibrado do tempo, boa governança e vitalidade comunitária. “A renda não é buscada pelo seu bem em si, mas para aumentar a qualidade de vida, para obter a felicidade”, diz ele. “Felicidade baseada na ética, em cultivar relacionamentos entre as pessoas e com a natureza. E também uma felicidade interior baseada na espiritualidade.”

Num mundo de aceleradas rupturas ecológicas, sociais e psicológicas, talvez os butaneses, com sua sabedoria dos Himalaias, tenham algo a nos ensinar. Que possamos alcançar a prosperidade em harmonia com o planeta sem perder a verdadeira fonte da felicidade: nossas conexões uns com os outros, com a Terra e com o espírito dentro de nós.

SUSAN ANDREWS

é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena a ecovila Parque Ecológico Visão Futuro e escreve quinzenalmente em ÉPOCA.

www.visaofuturo.org.br
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