De arrepiar…
Alexander McQueen (1969-2010)
“E terão de forjar de suas espadas relhas de arado e, de suas lanças, podadeiras.
Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”
.
Todos os livros sagrados são lindos. A Bíblia (de onde foi tirada a citação acima), os livros sagrados do hinduísmo (Vedas), o Tao Te Ching (Taoísmo) e o Alcorão são pura poesia. Pra ler e reler, sempre.
A menina linda aí em cima é a Karla. Ela adora vintage, como se pode ver, e tem muito talento pra misturar peças novas e clássicas. Sempre visito o blog dela. O motivo dessa foto estar aí é, obviamente, o casaco de pele.
Embora seja vintage e tenha sido adquirido num brechó, usar um casaco de pele é afirmar que, novo ou velho, você acha que é bonito. Muita gente adora casaco de pele e justifica a beleza de uma peça vintage dizendo que vale satisfazer um gosto com uma peça antiga e que nenhum animal foi morto por aquilo recentemente. Eu também achava que devíamos honrar o boizinho que morreu pra virar aquela bolsa linda que tá lá no brechó e que eu me sentia justificada em comprar.
Tá, é verdade que a morte não aconteceu ontem. Mas usar um casaco de pele, independentemente de quando esse animal foi morto, é aceitar que animais podem morrer pelo seu “direito” à beleza. E se o casaco foi usado 10, 100 ou mil vezes, ou tem 20, 30 ou 50 anos, pergunto: isso faz alguma diferença em considerar a brutalidade da cena?
Então, se você acha chique usar um animal morto sobre o corpo, ótimo! Vá lá e compre seu casaco vintage. Mas se você odeia a ideia que um animal foi caçado ou criado para ser assassinado e ter sua pele removida, tanto faz se foi há 100 anos ou 1 mês, não use. Isso é declarar uma posição, é assumir o controle sobre suas decisões e saber usar a cabeça ao invés de simplesmente achar bonito e chique só porque tem um monte de editores de moda dizendo que é bonito e sempre será.
Karla, desculpe-me, mas não concordo com isso. Continuo achando que você é linda e se veste maravilhosamente bem e que podia ter ficado sem esse casaco. Exatamente o caso da foto abaixo, do Sartorialist. Dos quase 200 comentários, apenas alguns poucos se manifestaram contra a pele e foram tachados de exagerados, eco-chatos, eco-terroristas, imbecis ou simplesmente cafonas. Todo o resto elogiou dizendo como é lindo, como é chique, pode porque é vintage ou pode porque é bonito mesmo e dane-se!
Você está de que lado?
Ouvi uma história bem bonita sobre os porcos-espinho. Não sei se há verdade “biológica” mas é uma boa metáfora. No começo da Era Glacial, os animais começaram a dormir e andar em bandos para se aquecer. Os porcos-espinho também fizeram a mesma coisa mas enfrentaram um problema que os outros animais não tinham: ao se tocarem, também se feriam. Isso os afastou por um tempo. Logo, muitos deles começaram a morrer de frio. Os que sobreviveram tiveram a ideia de se juntarem novamente para se aquecer. Sim, eles continuavam se espetando mas aquilo era insignificante diante do bem-estar e do calor que vinham do fato de estarem juntos.
Pensando em nós, humanos, é mais ou menos a mesma coisa. Às vezes, estar junto pode machucar. Mas quem consegue viver sozinho? Solidão pode matar… E não estou falando apenas de laços afetivos amorosos, com quem a gente escolhe para compartilhar a vida. Mas de família, de amigos, de todo mundo que está perto e um dia pode ferir. Quando isso acontecer, lembre-se do calor, do aconchego, da vida. Não é que isso torna as coisas “fáceis de aguentar”. É muito melhor que isso: é assim que a gente aprende a viver.
Hoje é dia de trabalho, correria e cansaço. Mas também é dia de viver, de sorrir e de abraçar. Não se esqueça disso!
Eu já tinha feito um post sobre livros lindos, eternos e para todas as crianças, de coração ou idade. Mas não resisti e tive que fazer outro. Aqui estão mais livros imperdíveis, para crianças a partir de 5 anos. Tofos são da CosacNaify.
.
Arthur Nestrovski e Maria Eugênia propõem um novo exercício de imaginação. Dessa vez, abordam o fascínio que objetos do cotidiano exercem sobre o mundo infantil. Ao invés da crítica ao consumismo da vida moderna, os autores resgatam sua dimensão lúdica. Subvertendo a resposta à pergunta tradicional “o que você quer ser quando crescer?”, no lugar de médico ou advogado surgem depoimentos insólitos: um lápis, um celular, um guarda-chuva. Para leitores em fase de alfabetização e todos que um dia desejaram ser outra “coisa”.
.
Os poemas do francês Jacques Prévert (1900-1977) falam da liberdade dos passarinhos, do tempo estático dos caramujos e da malícia dos gatunos. São dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hofman, que também assina os delicados desenhos em nanquim. O livro é uma porta aberta para o sonho e a imaginação, enriquecida pelo olhar ao mesmo tempo cotidiano e trágico. Um dos mais importantes autores da língua francesa em tradução refinada do poeta Carlito Azevedo. Antologia bilíngue que encantará crianças e adultos.
.
Uma obra-prima da literatura infantil. O Livro Inclinado, de Peter Newell, publicado originalmente em 1910, vem juntar-se a títulos contemporâneos da editora para formar uma biblioteca fundamental dirigida às crianças século 21. A ousada edição de Peter Newell – que rompeu de modo genial com as formas tradicionais do livro – é a síntese harmoniosa através da qual inovação e criatividade diluem categorias como antigo e moderno para se transformar em verdadeiro clássico.
O Livro Inclinado é divertidíssimo. Nele, nada é gratuito. O autor soube criar um design adequado à história. Este conceito – estampado no título, em referência ao formato inusitado – valoriza e dialoga radicalmente com a narrativa: um carrinho de bebê segue desgovernado ladeira abaixo e causa grande desordem por onde passa, atropela a moça que carrega uma cesta de ovos, derruba o pintor do alto da escada, passa entre dois homens segurando uma vidraça… uma confusão que poderia ser angustiante revela-se, pelas rimas e traços do autor, graciosa e bem-humorada. O bebê é quem mais se diverte com os estragos deixados pelo caminho.
As elaboradas ilustrações de Newell lembram a Nova York do começo do século 20: o comércio (estrangeiros vendendo quinquilharias), as profissões (boiadeiro, vidraceiro, pescador, pintor), os costumes (comprar alimentos na fazenda, fazer piqueniques, vender jornais na rua) e até a moda (melindrosas com seus belos chapéus, homens trajando cartola e suspensório).
.
Após o sucesso de O Livro Inclinado, chega às livrarias, também em edição fac-similar, outra obra do precursor do livro-objeto, Peter Newell. Escrito em 1912, O Livro do Foguete é nova amostra da inventividade do autor, com recursos gráficos integrados à narrativa.
A história é bastante inusitada: no porão de um edifício, um garoto encontra um morteiro e não hesita em ascendê-lo. O foguete, como não poderia deixar de ser, dispara prédio acima, furando todos os apartamentos – e as páginas do livro – por vinte andares.
Na subida, perfura uma banheira, estoura uma jarra de suco, arranca a peruca do vovô, acende um cigarro… até chegar à cobertura onde, finalmente, se apaga num mergulho no pote de sorvete. A confusão mostra-se bastante divertida pelo texto rimado e cadenciado do autor, traduzido de forma primorosa pelo poeta ivo barroso.
As ilustrações – que revelam expressões assustadas ao ver os estragos causados pelo foguete – interagem com o furo nas páginas, essencial para a narrativa em versos. Trazem ainda referências das casas na nova york do começo do século 20: o mobiliário (poltronas, baús, retratos antigos na parede, banheiras, penteadeiras), as roupas (trajes sociais dentro de casa, com camisas, boinas, lenços e gravatas) e os brinquedos (cavalo de balanço, trenzinhos, bola e casinha).
Um livro que já marcou a infância de várias gerações, agora disponível às crianças do século 21. Para leitores arteiros que moram nas grandes cidades. Um trunfo para pais e professores.
.
Kachtanka é um emotivo conto de Tchekhov, essencial para a formação de uma biblioteca básica de textos universais. A cadelinha Kachtanka, cujo nome significa “ruivinha”, se perde de seu dono e é adotada por um palhaço de circo. Traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, a história confronta a saudade e a adaptação em um mundo completamente diferente. É sob a perspectiva da cachorra que acompanhamos o desenrolar desta narrativa. Com extrema sensibilidade, o também russo Guenádi Spirin transformou esta edição em uma obra clássica ao criar ilustrações que recuperam características tradicionais do renascimento italiano, pelo traço seguro e fidelidade ao real.