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Ciclo Cinema, Corpo e Moda – Desejo e Perigo

Primeiro dia do evento promovido pela PUC- SP, com a exibição do filme Desejo e Perigo (2007), de Ang Lee.

 

 

Primeiramente: assista o filme! Vale muito, é sensacional e, por favor, tire as crianças da sala, porque as cenas de sexo são fortes. Acho que é mais legal falar com quem já assistiu ao filme e quem não quiser spoilers, por favor, pare aqui. 🙂

 

O tema a ser observado era o figurino na construção e ambiguidade da personagem. Bem, trata-se de uma história de espionagem, que a protagonista tem que se passar por uma mulher sofisticada e rica, sendo ela mesma uma pobre estudante. Para formar essa personagem, ela se veste com os símbolos de poder e status: o cabelo liso e escorrido passa a ser encarolado, a boca limpa exibe um chamativo batom vermelho (extravagância nos tempos de  guerra onde falta tudo) e os tecidos de algodão são substituídos pelo brilho da seda.

 

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As jóias são um capítulo à parte: são, para as mulheres, um símbolo do status do homem que está ao lado delas. Afinal, o espaço delas é o interno, é dentro de casa ou fazendo compras com o dinheiro deles, e as jóias brilham mais nas mãos limpas e de unhas brilhantes das senhoras que não fazem nada a não ser apostar nas mesas de majhong, como disse a palestrante convidada Dhora. São mulheres tão sem identidade que são conhecidas apenas pelos nomes de seus maridos. O ambiente é fotográfico, o cenário é construído detalhadamente, “parece uma fotografia antiga”, como disse a professora Ana. É tudo delicado e bem cuidado, constrastando com a violência das cenas de intimidade e da violência que podemos imaginar que faz parte do dia a dia do Sr. Yee, o amante seduzido por Wang e alvo do grupo de resistência.

 

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Outra coisa muita citada no debate foi que o figurino, além de ser formado pelas roupas, é também formado pela textura dos tecidos, pelo brilho das jóias, pelos fios de cabelo bem penteados. Fazem parte também os ângulos, os olhares, os gestos pequenos e calculados, o cigarro. Todos esses elementos visuais também contam uma narrativa de transformação. Os tecidos dos vestidos são geralmente rendados ou com uma leve transparência, o que sempre dá a impressão que a verdadeira intenção é revelar e não esconder o corpo.

 

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Embora o estilo do figurino seja realista, pois retrata com fidelidade uma época, também é bastante representativo: as cores mais usadas são o azul e os toques de vermelho (presentes na bandeira nacionalista, como observou a Jô), o verde e o marrom. O uso das cores neutras pela ‘Sra. Mak’, a personagem que a estudante Wang assume, também representa o passar despercebida, poder se infiltrar sem chamar muito a atenção. Usando a mesma cor de suas “companheiras” poderosas, ela incorpora-se ao ambiente.

 

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A bandeira nacionalista e as cores harmônicas e suaves (olhe as carteiras!!) das mulheres finas

 

Elementos da moda ocidental também estão presentes, inclusive de marcas reconhecidas como a mala Louis Vuitton e o anel Cartier, além dos casacos estilo New Look de Dior. O anel é carregado de simbolismo: ela ganha o anel do amante e, quando percebe que aquele anel significa que seu trabalho está completo e que ele será morto, arrepende-se do que fez e dá a ele a chance de escapar. O anel coroa a vitória do fingir sobre o ser e ela aparenta estar desiludida com aquele teatro tão triste e não quer contribuir para a execução violenta do ‘traidor’. Ela própria, então, assume a identidade dele e trai o seu grupo.

 

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E por falar em teatro, uma das cenas mais bonitas é a cena dentro da casa de chá japonesa. O encontro acontece numa sala vazia, apenas dois chineses entre os japoneses. Ele reclama que a música japonesa é triste como um choro e ela se propõe a cantar. Ela canta com muito sentimento uma música de amor tipicamente chinesa, acompanhada de todo o gestual tradicional. A música fala de um amor jovem, da natureza e resgata os sentimentos mais puros. Ele se emociona e, por um momento, são apenas um homem e uma mulher, apaixonados, isolados, vulneráveis.

 

 

A letra da música é essa:

Desde os confins da terra
Até o mar mais longínquo
Eu procuro e procuro por meu companheiro de coração
Uma jovem mulher canta
E é acompanhada por ele
Seu coração é o meu coração
Seu coração é o meu coração

Olhando para o norte do alto da montanha
Minhas lágrimas caem e molham minha roupa
Sinto a falta dele, não consigo dormir
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro

Quem nessa vida valoriza a primavera da juventude?
Uma jovem e seu companheiro são como linha e agulha
Oh, meu lindo companheiro
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar

 

 

A Jô observou que o desejo também veste os corpos nus tão frequentemente que a forma física pode até ser encarada como uma peça de figurino ou de cenário. Também o corpo tem uma forma adequada à roupa que o cobre. O Qi Pao, o vestido chinês com golinha alta e abotoamento lateral, aparece como uma reminiscência tradicionalista, não necessariamente positiva, mas necessária ao disfarce. Ele evidencia o corpo, que adquire sensualidade, mas também o aprisiona. No costureiro, quando Wang experimenta um novo vestido, diz que está tão apertado que mal consegue respirar. O que está apertado é o vestido ou a representação sufocante? O Sr. Yee, observando, pede que ela não o tire, mesmo sabendo de seu desconforto. Ele parece só se sentir atraído pela dor alheia.

 

Wang adora cinema e o diretor utiliza a metalinguagem na narrativa, conversando com outros filmes, ligados ao tema da espionagem, risco e suspense, ou simplesmente ao amor, e todos com Cary Grant (AMO!!). A fotografia noir dos filmes de Hitchcock aparece em dois momentos. Em Suspeita (1941), o jogo de luz e sombra reproduz visualmente a dúvida na mente da personagem de Joan Fontaine, que acredita estar sendo envenenada pelo marido, interpretado por Cary Grant. Isso pode ser percebido no jogo de cortinas e janelas do filme chinês e na sensação de “pisar em ovos” e calcular gestos.

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O cartaz do filme e Cary Grant com o copo de leite supostamente envenenado: qualquer semelhança não é mera coincidência

 

Outro Hitchcock que aparece é Interlúdio (1946), onde Ingrid Bergman faz o papel de uma espiã que aceita se casar com um homem investigado pelo governo. Cary Grant faz o papel do contato, o agente que a recruta e passa instruções. A personagem de Ingrid é apaixonada por Cary (o que no filme chinês também acontece, já que a estudante Wang é apaixonada pelo jovem ator que a recrutou) mas tem que ser a esposa daquele homem para cumprir os planos do governo. Ela é descoberta mas só fica sabendo que está em perigo quando está prestes a morrer envenenada. É um filme cheio de claro/escuro, dúvidas, meias palavras, enfim, Hitchcock.

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Ingrid e a xícara de café envenenado

 

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O terceiro filme é Penny Serenade (1941), um filme emocionante que nada tem a ver com espionagem. É a história de um jornalista, ingênuo e sonhador (Cary), que se casa e vai morar no Japão, investindo numa ideia que acaba dando errado. Pra ficar ainda pior, o casal passando por um terromoto e a esposa perde um bebê e fica impossibilitada de ter filhos. Voltando aos EUA, ele vai abrindo e fechando negócios, com a vitalidade e inexperiência de um menino, a maioria deles sem sua esposa saber. Sua esposa (Irene Dunne) não aguenta mais viver com alguém tão inconsequente. Eles se separam, conversam, choram. É uma vida simples, de amor e brigas, de paciência e convívio. Uma história de amor não tão certinha como se gostaria, mas, ainda sim, amor. Penny é a moeda de 1 centavo e representa a dificuldade financeira do casal. Serenade é serenata. Ou seja: dá pra fazer uma serenata com apenas 1 centavo e sobreviver, romanticamente, às dificuldades. Todos os momentos do casal tem uma música tema e eles tem uma música que representa o amor que sentem um pelo outro: “You were meant for me”, toca até hoje na voz de Bing Crosby. Lindo demais… Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Esse filme e essa música conversam muito com a canção da casa de chá.

 

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Repare no figurino dela e nos ternos dele. O figurino da Sra Mak e do Sr Yee também foram influenciados pelos astros e divas de Hollywood  desse período.

 

 

 

Mais algumas imagens externas: repare nos casacos, nas carteiras e nos chapéus. As imagens do filme foram retiradas do site oficial e do IMDB. Poderia falar páginas e mais páginas sobre este filme! Aspectos culturais, de língua, de história, de música, de fotografia… Pra ver e rever sempre. Assista. De novo, se for possível. E pra quem quer ler teoria, procure o Simulacros e Simulação (1981), texto de Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês. Baudrillard entende nossa condição como a de uma ordem social na qual os simulacros e os sinais estão, de forma crescente, constituindo o mundo contemporâneo, de tal forma que qualquer distinção entre “real” e “irreal” torna-se impossível. Apropriado, não? Mais sobre Baudrillard aqui e aqui.

 

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 Veja aqui o nome e o currículo de todos os participantes do debate.

 

UPDATE!!

Artigo da prof. Jô Souza

Fotos do evento

 

 

Semana quem vem, A Duquesa!

 

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o crédito da imagem está sobre a figura

 

Inspiração para Pensar em Política

 crédito da foto

“Quando a virtude mora em lugar humilde, vê-se que ela, frequentemente, deixa o lugar enobrecido. Mas onde falta, mesmo que existam títulos da mais alta nobreza, a honra é vazia. Somente o bem é em si de alta valia. O mal é mal. As coisas valem pelo que são, independentemente dos títulos que tenham”.

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William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo inglês, na peça Tudo Bem Quando Acaba Bem

Eu sei, mas não devia

 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna. O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Inspiração para voltar a sorrir

Para Ana

 

“Quero um sorriso

que dure uma quadra

e dobre a esquina

a iluminar-me”

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Nei Duclós, poeta brasileiro, no livro Outubro

 

Foto: Ntaimo’s niece (L) and friends having a good time, Kitwe,  Zambia: The kids are laughing at Ntaimo’s joke! – http://ie.tamu.edu/People/faculty/Ntaimo/personal_web/photos.htm

 

Dia Mundial do Meio Ambiente

Tá, colocaram no calendário que hoje é dia mundial do meio ambiente. A gente vê listas de muitas coisas em todos os lugares, listas de coisas que poderíamos fazer todos os dias, como economizar água, plantar uma árvore, reciclar o lixo.

Acho digno que haja uma data para nos lembrar, mas acho péssimo que muita gente precise dela. Acho ótimo que haja um dia de mobilização, de conscientização, mas acho horrível que o esquecimento aconteça.

Lembrar do planeta é lembrarmos de nós mesmos. Você algum dia já esqueceu de viver, de respirar, de comer? Às vezes, durante nosso dia a dia atarefado, a gente esquece de se cuidar, come bobagem, não toma água. Mas a gente se recrimina, se lembra que tem que se cuidar direito, não é? Com o planeta deveria ser assim: descuidar pode até ser uma bobeada, uma vacilada, mas não a regra.

Dia Mundial do Meio Ambiente = Dia Mundial da Humanidade, das Plantas, dos Animais e do Planeta. Dia da gente se lembrar de cuidar da nossa casa. Sugestão: plante uma árvore!