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Pelo mundo e pela moda – 01

 

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Londres, 1996.

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Esse blazer de lã azul foi meu fiel companheiro em muitas viagens. Modelagem eterna, cor linda. Ficou pequeno e foi dar uma volta por aí, contar mais aventuras com outras pessoas.

 

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Look escocês, Edimburgo, Escócia, 1996.

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Olha o Castelo de Edimburgo ao fundo. O mesmo blazer da foto acima. Eram 10 da noite e estava bem frio.

 

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Qualquer semelhança não é mera coincidência… Olha um blazer quase irmão, desfilado na semana de moda de Paris 2010, que aconteceu na semana passada. Desfile do Rochas.

 

Moda… tudo volta…

 

Ciclo Cinema, Corpo e Moda – Desejo e Perigo

Primeiro dia do evento promovido pela PUC- SP, com a exibição do filme Desejo e Perigo (2007), de Ang Lee.

 

 

Primeiramente: assista o filme! Vale muito, é sensacional e, por favor, tire as crianças da sala, porque as cenas de sexo são fortes. Acho que é mais legal falar com quem já assistiu ao filme e quem não quiser spoilers, por favor, pare aqui. 🙂

 

O tema a ser observado era o figurino na construção e ambiguidade da personagem. Bem, trata-se de uma história de espionagem, que a protagonista tem que se passar por uma mulher sofisticada e rica, sendo ela mesma uma pobre estudante. Para formar essa personagem, ela se veste com os símbolos de poder e status: o cabelo liso e escorrido passa a ser encarolado, a boca limpa exibe um chamativo batom vermelho (extravagância nos tempos de  guerra onde falta tudo) e os tecidos de algodão são substituídos pelo brilho da seda.

 

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As jóias são um capítulo à parte: são, para as mulheres, um símbolo do status do homem que está ao lado delas. Afinal, o espaço delas é o interno, é dentro de casa ou fazendo compras com o dinheiro deles, e as jóias brilham mais nas mãos limpas e de unhas brilhantes das senhoras que não fazem nada a não ser apostar nas mesas de majhong, como disse a palestrante convidada Dhora. São mulheres tão sem identidade que são conhecidas apenas pelos nomes de seus maridos. O ambiente é fotográfico, o cenário é construído detalhadamente, “parece uma fotografia antiga”, como disse a professora Ana. É tudo delicado e bem cuidado, constrastando com a violência das cenas de intimidade e da violência que podemos imaginar que faz parte do dia a dia do Sr. Yee, o amante seduzido por Wang e alvo do grupo de resistência.

 

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Outra coisa muita citada no debate foi que o figurino, além de ser formado pelas roupas, é também formado pela textura dos tecidos, pelo brilho das jóias, pelos fios de cabelo bem penteados. Fazem parte também os ângulos, os olhares, os gestos pequenos e calculados, o cigarro. Todos esses elementos visuais também contam uma narrativa de transformação. Os tecidos dos vestidos são geralmente rendados ou com uma leve transparência, o que sempre dá a impressão que a verdadeira intenção é revelar e não esconder o corpo.

 

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Embora o estilo do figurino seja realista, pois retrata com fidelidade uma época, também é bastante representativo: as cores mais usadas são o azul e os toques de vermelho (presentes na bandeira nacionalista, como observou a Jô), o verde e o marrom. O uso das cores neutras pela ‘Sra. Mak’, a personagem que a estudante Wang assume, também representa o passar despercebida, poder se infiltrar sem chamar muito a atenção. Usando a mesma cor de suas “companheiras” poderosas, ela incorpora-se ao ambiente.

 

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A bandeira nacionalista e as cores harmônicas e suaves (olhe as carteiras!!) das mulheres finas

 

Elementos da moda ocidental também estão presentes, inclusive de marcas reconhecidas como a mala Louis Vuitton e o anel Cartier, além dos casacos estilo New Look de Dior. O anel é carregado de simbolismo: ela ganha o anel do amante e, quando percebe que aquele anel significa que seu trabalho está completo e que ele será morto, arrepende-se do que fez e dá a ele a chance de escapar. O anel coroa a vitória do fingir sobre o ser e ela aparenta estar desiludida com aquele teatro tão triste e não quer contribuir para a execução violenta do ‘traidor’. Ela própria, então, assume a identidade dele e trai o seu grupo.

 

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E por falar em teatro, uma das cenas mais bonitas é a cena dentro da casa de chá japonesa. O encontro acontece numa sala vazia, apenas dois chineses entre os japoneses. Ele reclama que a música japonesa é triste como um choro e ela se propõe a cantar. Ela canta com muito sentimento uma música de amor tipicamente chinesa, acompanhada de todo o gestual tradicional. A música fala de um amor jovem, da natureza e resgata os sentimentos mais puros. Ele se emociona e, por um momento, são apenas um homem e uma mulher, apaixonados, isolados, vulneráveis.

 

 

A letra da música é essa:

Desde os confins da terra
Até o mar mais longínquo
Eu procuro e procuro por meu companheiro de coração
Uma jovem mulher canta
E é acompanhada por ele
Seu coração é o meu coração
Seu coração é o meu coração

Olhando para o norte do alto da montanha
Minhas lágrimas caem e molham minha roupa
Sinto a falta dele, não consigo dormir
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro
Apenas o amor que sobrevive aos tempos difíceis é verdadeiro

Quem nessa vida valoriza a primavera da juventude?
Uma jovem e seu companheiro são como linha e agulha
Oh, meu lindo companheiro
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar
Somos como linha e agulha, nunca podemos nos separar

 

 

A Jô observou que o desejo também veste os corpos nus tão frequentemente que a forma física pode até ser encarada como uma peça de figurino ou de cenário. Também o corpo tem uma forma adequada à roupa que o cobre. O Qi Pao, o vestido chinês com golinha alta e abotoamento lateral, aparece como uma reminiscência tradicionalista, não necessariamente positiva, mas necessária ao disfarce. Ele evidencia o corpo, que adquire sensualidade, mas também o aprisiona. No costureiro, quando Wang experimenta um novo vestido, diz que está tão apertado que mal consegue respirar. O que está apertado é o vestido ou a representação sufocante? O Sr. Yee, observando, pede que ela não o tire, mesmo sabendo de seu desconforto. Ele parece só se sentir atraído pela dor alheia.

 

Wang adora cinema e o diretor utiliza a metalinguagem na narrativa, conversando com outros filmes, ligados ao tema da espionagem, risco e suspense, ou simplesmente ao amor, e todos com Cary Grant (AMO!!). A fotografia noir dos filmes de Hitchcock aparece em dois momentos. Em Suspeita (1941), o jogo de luz e sombra reproduz visualmente a dúvida na mente da personagem de Joan Fontaine, que acredita estar sendo envenenada pelo marido, interpretado por Cary Grant. Isso pode ser percebido no jogo de cortinas e janelas do filme chinês e na sensação de “pisar em ovos” e calcular gestos.

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O cartaz do filme e Cary Grant com o copo de leite supostamente envenenado: qualquer semelhança não é mera coincidência

 

Outro Hitchcock que aparece é Interlúdio (1946), onde Ingrid Bergman faz o papel de uma espiã que aceita se casar com um homem investigado pelo governo. Cary Grant faz o papel do contato, o agente que a recruta e passa instruções. A personagem de Ingrid é apaixonada por Cary (o que no filme chinês também acontece, já que a estudante Wang é apaixonada pelo jovem ator que a recrutou) mas tem que ser a esposa daquele homem para cumprir os planos do governo. Ela é descoberta mas só fica sabendo que está em perigo quando está prestes a morrer envenenada. É um filme cheio de claro/escuro, dúvidas, meias palavras, enfim, Hitchcock.

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Ingrid e a xícara de café envenenado

 

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O terceiro filme é Penny Serenade (1941), um filme emocionante que nada tem a ver com espionagem. É a história de um jornalista, ingênuo e sonhador (Cary), que se casa e vai morar no Japão, investindo numa ideia que acaba dando errado. Pra ficar ainda pior, o casal passando por um terromoto e a esposa perde um bebê e fica impossibilitada de ter filhos. Voltando aos EUA, ele vai abrindo e fechando negócios, com a vitalidade e inexperiência de um menino, a maioria deles sem sua esposa saber. Sua esposa (Irene Dunne) não aguenta mais viver com alguém tão inconsequente. Eles se separam, conversam, choram. É uma vida simples, de amor e brigas, de paciência e convívio. Uma história de amor não tão certinha como se gostaria, mas, ainda sim, amor. Penny é a moeda de 1 centavo e representa a dificuldade financeira do casal. Serenade é serenata. Ou seja: dá pra fazer uma serenata com apenas 1 centavo e sobreviver, romanticamente, às dificuldades. Todos os momentos do casal tem uma música tema e eles tem uma música que representa o amor que sentem um pelo outro: “You were meant for me”, toca até hoje na voz de Bing Crosby. Lindo demais… Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Esse filme e essa música conversam muito com a canção da casa de chá.

 

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Repare no figurino dela e nos ternos dele. O figurino da Sra Mak e do Sr Yee também foram influenciados pelos astros e divas de Hollywood  desse período.

 

 

 

Mais algumas imagens externas: repare nos casacos, nas carteiras e nos chapéus. As imagens do filme foram retiradas do site oficial e do IMDB. Poderia falar páginas e mais páginas sobre este filme! Aspectos culturais, de língua, de história, de música, de fotografia… Pra ver e rever sempre. Assista. De novo, se for possível. E pra quem quer ler teoria, procure o Simulacros e Simulação (1981), texto de Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês. Baudrillard entende nossa condição como a de uma ordem social na qual os simulacros e os sinais estão, de forma crescente, constituindo o mundo contemporâneo, de tal forma que qualquer distinção entre “real” e “irreal” torna-se impossível. Apropriado, não? Mais sobre Baudrillard aqui e aqui.

 

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 Veja aqui o nome e o currículo de todos os participantes do debate.

 

UPDATE!!

Artigo da prof. Jô Souza

Fotos do evento

 

 

Semana quem vem, A Duquesa!

 

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o crédito da imagem está sobre a figura

 

Camadas

O outono é tempo de camadas. Explico: no começo do dia está friozinho, no meio esquenta muito e parece verão, à tardezinha bate um ventinho de novo… Pra não ficarmos com o “look cebola”, montei um passo a passo de sobreposições, o famoso layering, pra inspirar os dias de outono.

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Primeira sobreposição simples: duas regatas, a de baixo de malha preta, mais justinha, a de cima mais solta. Legging é bom no frio ou no calor e sandálias meio fechadas meio abertas, pra encarar as duas temperaturas.

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Segunda sobreposição: uma peça pequena de tricô, que cubra os ombros mas não exagere. Um bolerinho ou mini-poncho é perfeito. Também serve pra acrescentar um toque de cor.

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Agora esfriou de vez: casaco pra fechar por cima. O bolerinho de tricô vira cachecolzão. Escolha um blazer com modelagem anos 80, ombros mais largos e corte mais masculino. Se quiser um visual menos “agressivo”, coloque um cardigan compridinho. Mas nesse caso, a sandália e o legging pedem um pouco mais de atitude, daí o blazer.

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Se quiser aproveitar a onda étnica, use um xale ou pashimina com motivos de arabescos ou indianos. É feminino e diferente.

 

Ah, outro dado importante: eu não estou usando acessórios, mas em cada caso é legal pensar num acessório marcante: só com a primeira sobreposição, usaria um colarzão. Com o bolerinho de tricô e com o blazer, um anel enorme numa das mãos. Com a pashimina, usaria um brinco e/ou o anel. Experimente em frente ao espelho… 😉

 

 

Chica Chica Bum Chic!

Carmen Miranda faria 100 anos esta semana, precisamente no dia 9 de fevereiro.

 

 

Não vou ficar falando da história dela e de como ela foi importante para passar um pouco da cultura brasileira para o mundo. Isso qualquer um acha no Google. Vou falar de como eu gosto de Carmen Miranda.

 

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Primeiro, acho que ela tem um carisma enorme, um sorriso maravilhoso e um olhar vivo e brilhante, que nem uma película de filme em preto e branco conseguiram esconder. Imagine na década de 40, uma mulher sai do Brasil para prosseguir a vida como artista nos Estados Unidos, pois já era uma intérprete de sucesso por aqui. Seu grande hit veio na década de 30, cantando “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi. Se é complicado agora, imagine só naquela época! Mas ela foi. E tornou-se a artista estrangeira mais bem paga do cinema.

Além disso, acho o máximo o que ela fez com o figurino. Ela sabia que o personagem não está completo sem o figurino adequado. Por isso, desenhava e costurava as próprias roupas, os adereços de cabelo e o monte de balangandãs (é assim que se escreve?). E para compensar a baixa altura, 1,53m, inventou as plataformas gigantescas. Figurinos riquíssimos, cheios de bordados e caprichos, que ela guardava com carinho e que hoje moram no Museu Carmen Miranda, no Rio de Janeiro.

 

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Sua irmã, Aurora, dizia que, se não tivesse sido cantora e artista, teria sido estilista. Ela adorava pesquisar tecidos, inventar modelagens, experimentar.  Parecia ligada no 220V, gesticulava muito e falava alto. Seus olhos verdes pareciam duas esmeraldas e irridiavam um brilho difícil de imaginar apagado.

Mesmo assim, apagou-se. Cedo demais. No documentário produzido pela irmã, “Banana is my business”, podemos ver um pouco da tristeza dessa portuguesinha brasileira que ria tanto. Na biografia de Ruy Castro, “Carmen”, também.

Desde pequena, ouvia as músicas de Carmen Miranda, especialmente “Taí” e “Alô, Alô”, que sei de cor. Aquela vozinha aguda e simpática nunca mais me deixou. E acho que ela também não deixa mais o imaginário cultural brasileiro.

Ainda bem.

 

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 Clique para ouvir Taí e Adeus Batucada