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Entrevista para a Editora Salamandra no lançamento de “O maravilhoso mágico de Oz”

  1. Você tem mais de 30 títulos traduzidos, a maioria de literatura infantil e juvenil. Como nasceu seu interesse pela literatura e, em especial, pela tradução? Qual foi seu primeiro trabalho como tradutora?

Acho que literatura sempre foi minha paixão. Aprendi a amar os livros desde pequena, antes mesmo de começar a ler, pois cresci cercada por eles. Eu me lembro que meus pais liam histórias e poesias para mim e para minhas irmãs, e eu não via a hora de poder ler sozinha e descobrir tantas outras aventuras. A tradução entrou na minha vida por acaso, por meio da querida Lisbeth Bansi, que me chamou para traduzir a série Érica. Daquele trabalho em diante, nunca mais tive dúvidas de qual era a minha vocação. Não me imagino fazendo outra coisa a não ser traduzir e escrever literatura.

 

  1. Você já ganhou diversos prêmios da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), como pela tradução da série “Érica”, publicada pela Editora Moderna. Como é ter seu trabalho reconhecido?

 

Reconhecimento é muito importante. Os prêmios da FNLIJ são muito significativos. É só olhar quem está na lista ao seu lado! Eu me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de traduzir livros tão especiais, que ofereceram a possibilidade de trabalhar com tanto prazer. É trabalho mas é minha vida, então coloco tudo ali, no papel. E ver que seu esforço foi reconhecido é maravilhoso.

 

  1. Qual foi seu desafio em traduzir um clássico da literatura, como “O maravilhoso mágico de Oz”, relançado pela Salamandra? É possível trazer novas nuances num título que já foi exaustivamente trabalhado e conhecido?

 

Acho que o maior desafio é, sem dúvida, fazer justiça à fama do livro. Sei que há muitas adaptações, então, como se destacar? Acho que aí entra muito a questão pessoal, de você colocar ali, no texto, sua experiência de leitor, que é maior até que a experiência como tradutor. Os livros que você leu ficam dentro de você e ecoam nas suas frases, nas suas escolhas. É inevitável. A partir desse ponto de vista, um texto será sempre único, pois não há duas pessoas que tenham tido a mesma experiência como leitores. Mesmo que tenham lido os mesmos livros, não viveram a mesma vida e, por isso, não fazem a mesma leitura. A minha tradução, ou melhor, o meu texto, é completamente novo nesse sentido: reproduzo ali a história de Baum, escolhendo palavras que fazem parte da minha história e da minha língua. A emoção tem que ser a mesma em português e em inglês, mas quem escolheu o ritmo da frase ou aquele momento mágico que o leitor tira os olhos do papel para imaginar a cena, fui eu. Idioma é ritmo e todo texto literário tem que ter sua poesia. E quem recria esse ritmo e essa poesia é o tradutor. Então, é possível sim, trazer novidades ao texto a qualquer texto.

 

  1. “Quando o sol encontra a lua”, publicado pela Moderna, foi sua primeira investida como escritora. De onde veio a inspiração para a construção desse enredo? Como foi ver um livro seu publicado?

 

“Quando o Sol encontra a Lua” ficou anos na minha mente. Literalmente. Foi sendo construído aos poucos, sendo inspirado pelas coisas que eu via, ouvia ou assistia. Um dia, eu me sentei na frente do computador e comecei a escrever. Um mês depois, ele estava ali, prontinho. Mas não posso dizer que levou um mês, levou todo esse tempo em que o enredo morou na minha cabeça. Muita coisa na minha vida serviu para a construção dos personagens: Tai Yang (o protagonista) é chinês, então aproveitei a proximidade que eu tenho com a cultura chinesa (meu marido é filho de chineses e eu estudo o idioma) e coloquei um pouco da riqueza cultural chinesa ali. Para quem se interessa é legal, para quem não sabe, é uma oportunidade de conhecer um pouquinho. Vê-lo publicado é uma emoção muito grande! Nas prateleiras da Bienal do Livro, ali ao lado do Pedro Bandeira e da Tatiana Belinky, que são dois escritores que marcaram muito a minha adolescência, parecia um sonho. E o livro foi cuidado com tanto carinho pela Maristela, pela Carol e pela Camila, que encontrou aquela foto perfeita para a capa. Realmente, é muito especial.

 

  1. Quais seus próximos projetos?

 No momento, estou traduzindo mais livros de uma série que eu adoro, que é o Monster High. E o segundo livro já está assando!

 

  1. Qual é o diferencial da parceria com a Moderna e com a Salamandra?

 

Além de a Moderna ser parte de um dos maiores grupos editoriais do mundo, e muito representativa no mercado brasileiro, é também uma família. Todas as vezes que eu me encontro com o pessoal da Moderna eu me sinto em casa. Profissionalismo com simpatia, coisa raríssima de se encontrar hoje em dia. Prezo muito minha relação com a Moderna e com a Salamandra e espero contribuir para a construção de um belo catálogo todos os anos, por muitos anos!

 

  1. Quem é a Renata Tufano na intimidade? Queremos saber um pouco sobre você, sua família, gostos, dia a dia, jeito de ser, modo como trabalha, onde mora, como encara a vida. Enfim, como você se traduz?

 

Adorei a pergunta, “como você se traduz”! Muito apropriada pois é isso que acontece: o que está dentro da gente tem que ser traduzido pro mundo entender. Muita gente conhece meu sobrenome e pergunta, “você é parente do professor Douglas Tufano?”, e o espanto quando eu respondo (com muito orgulho, por sinal), “é o meu pai!”. Graças a ele, e à minha mãe, que também é uma pessoa cultíssima e professora de francês, é que eu tive a oportunidade de conhecer e amar os livros, a literatura e as artes. Minha família é meu porto seguro, é tudo para mim. Meu marido, como eu citei, é filho de chineses e isso faz com que cada dia seja uma descoberta ao lado dele, tanto pelos curiosos aspectos culturais, quanto pelo fato de que qualquer casamento é mesmo uma descoberta, ou mais, por dia! Posso dizer que não vivo sem meu computador, pois passo praticamente o dia inteiro na frente dele, digitando, digitando, digitando! Trabalho em casa, um privilégio nesta cidade tão maluca quanto São Paulo, onde o trânsito é um caos. Faço tudo a pé na Vila Madalena, onde eu moro. Minha paixão, além da dança, são filmes antigos. Há tempos eu coleciono filmes raros, fotos e objetos relacionados ao tema. Uma das coisas que mais me acontece é falar numa conversa com amigos que assisti a um filme com fulano e perguntarem, “quem?”. Minhas obsessões do momento se chamam Robert Donat e Anton Walbrook. Aí você me pergunta, “Quem?” Aí eu respondo, “Que bom que existe Google, não é?” Minha sorte é ter amigos espalhados pelo mundo, que me enviam filmes, fotos e informações que eu nunca conseguiria por aqui.

Aliás, o que seria da vida sem amigos? Meus amigos são muito importantes para mim. Eles também são fonte de inspiração. E gatos, meus amigos peludinhos, são fonte de beleza, assim como observar o pôr do sol, ouvir uma música linda ou ler um poema. O mundo está cheio de beleza e inspiração. Tudo isso constrói sua identidade, sua vida e, no caso de tradutores e escritores, seu texto. É por isso que mais do que apenas saber um idioma, é preciso saber colocar todas aquelas emoções no papel. Isso parece clichê, mas não é. Sentir é fundamental. Porque tenha a certeza de que quando o leitor rir ou chorar naquele trecho é porque o escritor / tradutor também riu e chorou.

O Presente de Anna

Minha tradução mais recente já está disponível nas livrarias!

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Anna é uma menina de nove anos que vive com a família na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Embora não sejam judeus, o pai percebe que a situação pode ficar complicada para qualquer pessoa que estiver no país, e uma oportunidade aparece: um tio morre no Canadá, deixando uma herança e uma casa para a família, que se muda para lá. Anna nunca foi perfeita como seus irmãos: ela é considerada esquisita e desajeitada. Ninguém perde a oportunidade de zombar dela, nem em casa nem na escola. Diante da mudança, Anna se vê desesperada: como ela vai aprender a viver num novo lar e falar uma nova língua, num país com hábitos desconhecidos, quando nem mesmo conseguiu ser aceita no país em que nasceu? Anna ainda não sabe, mas um médico, uma professora e um grupo de alunos especiais vão mudar não apenas sua vida, mas a de toda a sua família.

Publicação da Editora Melhoramentos.

Disponível para pronta-entrega pela Saraiva.

Para Crianças de Todas as Idades – II

Eu já tinha feito um post sobre livros lindos, eternos e para todas as crianças, de coração ou idade. Mas não resisti e tive que fazer outro. Aqui estão mais livros imperdíveis, para crianças a partir de 5 anos. Tofos são da CosacNaify.

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Arthur Nestrovski e Maria Eugênia propõem um novo exercício de imaginação. Dessa vez, abordam o fascínio que objetos do cotidiano exercem sobre o mundo infantil. Ao invés da crítica ao consumismo da vida moderna, os autores resgatam sua dimensão lúdica. Subvertendo a resposta à pergunta tradicional “o que você quer ser quando crescer?”, no lugar de médico ou advogado surgem depoimentos insólitos: um lápis, um celular, um guarda-chuva. Para leitores em fase de alfabetização e todos que um dia desejaram ser outra “coisa”.

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Os poemas do francês Jacques Prévert (1900-1977) falam da liberdade dos passarinhos, do tempo estático dos caramujos e da malícia dos gatunos. São dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hofman, que também assina os delicados desenhos em nanquim. O livro é uma porta aberta para o sonho e a imaginação, enriquecida pelo olhar ao mesmo tempo cotidiano e trágico. Um dos mais importantes autores da língua francesa em tradução refinada do poeta Carlito Azevedo. Antologia bilíngue que encantará crianças e adultos.

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Uma obra-prima da literatura infantil. O Livro Inclinado, de Peter Newell, publicado originalmente em 1910, vem juntar-se a títulos contemporâneos da editora para formar uma biblioteca fundamental dirigida às crianças século 21. A ousada edição de Peter Newell – que rompeu de modo genial com as formas tradicionais do livro – é a síntese harmoniosa através da qual inovação e criatividade diluem categorias como antigo e moderno para se transformar em verdadeiro clássico.

O Livro Inclinado é divertidíssimo. Nele, nada é gratuito. O autor soube criar um design adequado à história. Este conceito – estampado no título, em referência ao formato inusitado – valoriza e dialoga radicalmente com a narrativa: um carrinho de bebê segue desgovernado ladeira abaixo e causa grande desordem por onde passa, atropela a moça que carrega uma cesta de ovos, derruba o pintor do alto da escada, passa entre dois homens segurando uma vidraça… uma confusão que poderia ser angustiante revela-se, pelas rimas e traços do autor, graciosa e bem-humorada. O bebê é quem mais se diverte com os estragos deixados pelo caminho.

As elaboradas ilustrações de Newell lembram a Nova York do começo do século 20: o comércio (estrangeiros vendendo quinquilharias), as profissões (boiadeiro, vidraceiro, pescador, pintor), os costumes (comprar alimentos na fazenda, fazer piqueniques, vender jornais na rua) e até a moda (melindrosas com seus belos chapéus, homens trajando cartola e suspensório).

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Após o sucesso de O Livro Inclinado, chega às livrarias, também em edição fac-similar, outra obra do precursor do livro-objeto, Peter Newell. Escrito em 1912, O Livro do Foguete é nova amostra da inventividade do autor, com recursos gráficos integrados à narrativa.

A história é bastante inusitada: no porão de um edifício, um garoto encontra um morteiro e não hesita em ascendê-lo. O foguete, como não poderia deixar de ser, dispara prédio acima, furando todos os apartamentos – e as páginas do livro – por vinte andares.

Na subida, perfura uma banheira, estoura uma jarra de suco, arranca a peruca do vovô, acende um cigarro… até chegar à cobertura onde, finalmente, se apaga num mergulho no pote de sorvete. A confusão mostra-se bastante divertida pelo texto rimado e cadenciado do autor, traduzido de forma primorosa pelo poeta ivo barroso.

As ilustrações – que revelam expressões assustadas ao ver os estragos causados pelo foguete – interagem com o furo nas páginas, essencial para a narrativa em versos. Trazem ainda referências das casas na nova york do começo do século 20: o mobiliário (poltronas, baús, retratos antigos na parede, banheiras, penteadeiras), as roupas (trajes sociais dentro de casa, com camisas, boinas, lenços e gravatas) e os brinquedos (cavalo de balanço, trenzinhos, bola e casinha).

Um livro que já marcou a infância de várias gerações, agora disponível às crianças do século 21. Para leitores arteiros que moram nas grandes cidades. Um trunfo para pais e professores.

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Kachtanka é um emotivo conto de Tchekhov, essencial para a formação de uma biblioteca básica de textos universais. A cadelinha Kachtanka, cujo nome significa “ruivinha”, se perde de seu dono e é adotada por um palhaço de circo. Traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, a história confronta a saudade e a adaptação em um mundo completamente diferente. É sob a perspectiva da cachorra que acompanhamos o desenrolar desta narrativa. Com extrema sensibilidade, o também russo Guenádi Spirin transformou esta edição em uma obra clássica ao criar ilustrações que recuperam características tradicionais do renascimento italiano, pelo traço seguro e fidelidade ao real.

 

Para Crianças de Todas as Idades

Um livro é um presente para sempre. Desde criança, meu presente preferido foram os livros. E agora, que trabalho com livros, continuo tendo mais livros do que tempo para lê-los. Enfim, entrar cedo no mundo dos livros é uma delícia e um privilégio: abre portas de universos maiores que a vida, nos apresenta coisas, pessoas, bichos que nunca conheceríamos e desperta o gosto e a aceitação pelo novo. Aqui estão sugestões de livros lindos pra todas as crianças, não importa a idade que tenham, todos da CosacNaify. A faixa etária recomendada é de 3 a 9 anos.

Vencedor dos principais prêmios internacionais de literatura infantil e de ilustração, Estava escuro e estranhamente calmo rendeu ao estreante Einar Turkowski um lugar de destaque entre os grandes autores contemporâneos. Disponível em alemão, francês e espanhol, a Cosac Naify traz agora aos leitores brasileiros esta intrigante obra.

Um homem misterioso desembarca em uma ilha e muda a pacata rotina dos que ali vivem. Habita uma casa abandonada onde, suspeitosamente, todas as manhãs surgem peixes pendurados de cabeça para baixo, peixes que os vizinhos também gostariam de ter. Desconfiados, e com uma pontinha de inveja, logo se ocupam em desvendar o segredo por trás daquela figura fascinante.

Fascinante também são as ilustrações de Turkowski. O traço fino dá conta de todos os detalhes do universo surrealista da história. Como nos bons contos de ficção científica, tudo é recriado: o binóculo se transforma em uma potente máquina para enxergar à distância, o sistema de roldanas é altamente complexo, os personagens usam um óculos estranho… O leitor pode passar horas apenas contemplando os detalhes do minucioso e preciso traço de turkowski, que não polpa na capacidade de ser inventivo.

As ilustrações convidam o leitor a juntar-se ao artista em seu mundo original, poético e mágico. seus hábeis desenhos em preto-e-branco irradiam humor, emoção, inteligência e… cor.

O texto não deixa por menos: a envolvente trama, carregada de suspense, transita entre a ciência imaginária e o nonsense, e ainda abre espaço para discutir um assunto bem real: o impacto de uma grande descoberta entre os habitantes de uma vila tranqüila. Mais do que isso, o livro trata da essência das relações humanas e da predisposição em julgar o incomum.

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É difícil imaginar o guarda-roupa de uma mulher sem um pretinho básico, um cardigã (famoso casaco aberto na frente) e outras peças práticas e usuais. Mas nem sempre foi assim. Na época de Coco Chanel, primeira metade do século XX, para uma mulher estar na moda precisava de luxo, pompa e espartilhos. Sorte nossa que chanel resolveu ser diferente.

Diferente como Chanel conta a história de uma mulher a frente de seu tempo. Escrito pela norte-americana Elizabeth Matthews, foi enriquecido pela tradução de Clô Orozco. Chega às livrarias no momento em que a estilista ganha as telas do cinema europeu, com o filme Coco avant Chanel (Coco antes de Chanel), dirigido pela francesa Anne Fontaine e com a atriz Audrey Tatou no papel principal.

Nesta biografia ilustrada, acompanhamos a trajetória de uma das maiores figuras do século XX, da infância pobre no orfanato – quando fazia roupinhas para bonecas com retalhos – ao emprego em uma alfaiataria e a abertura de sua primeira loja, financiada por um jovem aristocrata apaixonado. Perspicaz, aproveitou o momento da primeira guerra, quando, na ausência dos maridos, muitas mulheres tiveram que trabalhar, para disseminar peças modernas e confortáveis e, se o colapso da indústria têxtil foi responsável pelo fechamento de diversas lojas em paris, para Chanel representou a oportunidade de adquirir grandes quantidades de tecido a baixo custo. Reconhecida mundialmente, ganhou até um perfume em sua homenagem, o Chanel no 5, na época o frasco mais caro que se podia comprar.

Transgressora, Chanel causou polêmica, foi criticada e contestada por Paul Poiret, o grande nome da moda francesa na Belle Époque, mas elogiada e aclamada por Pablo Picasso, artista ousado como ela. No auge do sucesso, vestiu grandes estrelas, como Katharine Hepburn, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e Gloria Swanson.

Para criar as graciosas ilustrações, Matthews utilizou caneta e aquarelas. O resultado foi uma personagem quase caricatural, de silhueta esbelta e o inseparável colar de pérolas com a tesoura pendurada no pescoço, “sempre pronta para cortar qualquer detalhe fora de lugar”.

Ao final, o leitor encontra uma cronologia com os principais episódios da vida de Chanel, uma bibliografia básica, inclusive com livros traduzidos para o português, foto da estilista e desenhos do poeta Jean Cocteau e do caricaturista Sem.

Um livro cheio de estilo, para não sair de moda, como Chanel.

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Balanço é um poema na mais delicada linguagem oriental. No parque de uma grande cidade, brincando em um balanço, um garoto observa o anoitecer, e declama uma poesia urbana sobre a noite que se debruça sobre os prédios. “Como um pêndulo azul azul”, acompanhamos o assobio da brisa, o mergulho nas nuvens, a proximidade da escuridão, o perfume do vento, as pegadas deixadas no céu. De leitura vertical, o recurso gráfico foi cuidadosamente pensado para que o movimento das páginas pudesse se confundir ao do balanço, provocando no leitor a sensação de mover-se junto com o garoto no tempo e no espaço. Balanço proporciona uma experiência sensorial da passagem do tempo, do fim da tarde ao início da noite, quando as primeiras luzes da rua se acendem e surgem algumas estrelas solitárias. Guiados por esta gradação, os tons de azul se acentuam em direção ao anoitecer. As ilustrações – de perspectiva aérea e traços leves – se alternam em diferentes ângulos, ganhando ritmo. Um poema lírico vestido com a mais fina estampa.

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Para dançar balé não basta saber os movimentos de cor e salteado. É preciso se apaixonar pela história, e vivê-la na ponta dos pés. A crítica e bailarina Inês Bogéa reconta cinco das principais coreografias do repertório de todas as companhias de dança clássica: A Menina Mal Olhada, Giselle, Coppélia, O Lago dos Cisnes e Petrouchka. O livro traz um palco de palavras, em cativantes narrativas. Notas laterais recuperam a origem dessas histórias – curiosidades sobre as primeiras apresentações nas cortes, os músicos que se debruçaram para criar as melodias e artistas que revolucionaram a dança, no Brasil e no exterior. As mais de setenta imagens de grandes montagens também narram, de forma visual, a trajetória desta arte. No apêndice, informações precisas sobre a evolução da dança e de elementos como o tutu e a sapatilha, além de mini-biografias de dançarinos importantes. Para ficar na ponta da língua de todos aqueles que apreciam um bom espetáculo.

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A história de um nariz com problemas só poderia ser contada de uma maneira: “entupido”. Esta é a grande sacada de Olivier Douzou em O Dariz. Quando se está entupido, não há outra coisa a fazer a não ser assoar. Assim começa a jornada do nariz protagonista à procura do grande lenço branco.

Inspirado no famoso conto homônimo do escritor russo Nikolai Gógol, também publicado pela CosacNaify – no qual o nariz de um assessor colegiado abandona seu posto e sai pela cidade de São Petersburgo passando-se por um conselheiro de estado – , o nariz de Douzou vive os momentos que antecedem esta clássica narrativa.

Como se a situação já não fosse suficientemente absurda, juntam-se ao nariz de homem um botão (que pensa ser nariz), uma tromba de elefante que bebeu muita água, um nariz de palhaço que não consegue mais contar piadas, um nariz de porco entupido de lama, um bico de pato e um focinho de cachorro, que desconhecia a causa do entupimento.

O humor, sempre presente nos textos inteligentes de Douzou, é o ponto alto deste O Dariz: um dos grandes méritos do livro está na utilização de desvios de grafia para simular a pronúncia típica de alguém resfriado. As ilustrações, marcadas pela simplicidade dos traços, são engraçadas como o texto: o nariz de homem é retratado com um chapeuzinho na cabeça enquanto o binóguio carrega um suporte de marionete.

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a menina encontra o mar,

e com ele se espanta.

põe-se a gritar com as ondas,

o mar furioso se levanta.

entre andorinhas e água salgada

ela ensaia a sua dança.

o mar, com sua vida de mar,

vai e vem e não se cansa.

a onda chicoteia no ar,

deixa estrelas de lembrança.

nasce uma grande amizade

entre a onda e a criança.

Sem palavras. Assim é contada a história em onda, livro-imagem da jovem coreana Suzy Lee. Premiadíssimo, campeão de vendas e traduzido para diversos idiomas, universal como o mar, as imagens relatam o primeiro encontro da menina com o oceano. Ela corre para a beirada da praia. logo, algumas gaivotas se aproximam e a observam, como fiéis escudeiras. No início, ele chega de mansinho. Temendo o desconhecido, a menina recua. Depois, põe-se a provocá-lo. E então, a menina e a onda dividem os sustos e a admiração deste encontro. Dividem, também, o livro horizontal. Até que em um momento, essa fronteira se dilui… e o mar deixa um lindo presente para ela.

Com poucos traços a carvão, Lee ilustrou em azul, preto e branco o ruído das águas, o bater de asas das gaivotas, o vento que balança o vestido da criança e a conversa silenciosa que se estabelece ao longo da narrativa.

Leituras e Projetos pro Feriado

Dicas de leitura pro feriado prolongado que se aproxima:

estilo

A revista Estilo de outubro é pra guardar e consultar sempre. Além de uma super guia de coordenação de cores e estampas da estação, traz um passo a passo da maquiagem iluminada do verão. Lindo, lindo o guia da festa fashion, com receitas de cupcakes inspirados por estilistas brasileiros, como Glória Coelho e André Lima.

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Dois livrinhos pra quem quer começar a fazer arte em casa. O das camisetas é bem básico, tem modelos muito fáceis e bem bonitinhos. Dá até pra transformar uma camiseta em bermuda saruel! Tudo de bom. O de jeans é um pouco mais complicadinho e requer conhecimentos de costura. Mesmo assim, dá pra se inspirar e se divertir bastante com ideias fáceis como transformar uma calça numa bolsa, num travesseiro ou num bolerinho bem charmoso. Inspiração para criar a 100ª ideia, que é a sua, claro! Na Fnac tem os dois mais baratos.

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Se você ainda não comprou a edição de luxo da Mon Tricot, compre! Tem receitas ma-ra-vi-lho-sas e a maioria delas muito fácil. E o que é melhor, pra todo mundo: homens, mulheres, crianças e bebês. Custa R$9,90 e na Aslan tem. Ah, aproveite que você está indo pro site da Aslan e confira a ponta de estoque de lãs. Uma mais linda (e mais barata!!) que a outra.

E como eu sou louca por livros, esses eu ainda não tenho, mas fazem parte da minha lista de desejos!!

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 A capa é a “cara” com que o livro se apresenta ao mundo. Quantas vezes não abrimos um livro justamente porque aquela face nos seduz e convida para algo mais? Era uma vez uma capa nos permite fazer uma visita aos “rostos” mais bonitos, curiosos e importantes da literatura infantil. Com um panorama das diferentes épocas e gêneros, a edição, um marco na historiografia da literatura infantil, percorre desde os gift-books do início do século XX, passando por ícones como Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, Pinocchio, de Collodi, O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry, até experimentos mais recentes, que mudaram o status do livro para crianças. O volume revela também os fatores que influenciaram as mudanças ao longo do tempo e relata pequenas histórias sobre os designers e editores. O leitor descobre, assim, uma arte com enorme riqueza de figuras e cores, letras e efeitos, tamanhos e papéis: um resultado coletivo onde se somam os talentos de ilustradores, autores e editores. Obra indispensável para pedagogos, professores, escritores e editores interessados pela literatura infantil. OU seja, eu!! Preciso… (Na Fnac, R$49,68)

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O Livro da Gráfica é uma introdução aos temas centrais da gráfica, como as cores, a tipografia, as imagens e suas técnicas de reprodução. Contém um pouco de história, informação, curiosidades. Tem opiniões que apontam as perspectivas para a atividade gráfica e do design. Fala e olha para a frente sem esquecer que o futuro é, e sempre será, moldado pelas experiências do passado. O trabalho introduz o leitor ao universo do livro – falando de suas origens, de autores e personagens, de romance e de poesia, de palavras adultas e infantis – ajudando-o a compreender o mundo maravilhoso da imprensa e da leitura. (Na Fnac, R$45,09)

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 A Luluzinha é a coisa mais fofa do mundo! Sou loucamente apaixonada! A Editora Devir lançou uma coletânea (por enquanto com 6 volumes) com histórias de rolar de rir. Eu ainda guardo os velhos gibis com o maior carinho! As edições estão lindas e a seleção hilária! Pra colecionar! (Na Fnac, cada volume custa em média R$17)

Inspiração para parar e ler

 

“Os homens de hoje são forçados a pensar e a executar em um minuto o que seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro e de rufos* de febre no sangue. O livro está morrendo porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de 100 páginas sobre o mesmo assunto”.

 

Olavo Bilac, em 1904

 *rufus = ondas, no sentido metafórico.

 

Arte: John Frederick Peto (1854-1907), Take Your Choice, 1885, oil on canvas, John Wilmerding Collection