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Burda Moden, Primavera/Verão, Outono/Inverno, 1956

A revista alemã Burda é famosa no mundo inteiro por ensinar gerações e gerações a costurar. Uma das primeiras revistas do mundo a encartar moldes prontos em tamanho natural, também era responsável por ‘popularizar’ técnicas de costura, moldes de grandes costureiros europeus e dar dicas para montar looks completos, incluindo o chapéu e as luvas. Eu sou fã desde criança e aprendi muito com suas páginas, mesmo estando em alemão, francês ou espanhol, como é mais fácil de encontrar (a revista em português de Portugal é raríssima). Aqui ficam algumas imagens dos croquis e algumas fotos da coleção de 1956, com toda a elegância e estilo Burda. Inspire-se!

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E olha o que também estava acontecendo em 1956: Hitchcock filmava a segunda versão de O Homem que Sabia Demais, e Doris Day dava até palhinha na voz e no piano ao lado de Jimmy Stewart, cantando em português!

 

 

 

Sobre a Alemanha Nazista e seus arredores

Recentemente, assisti 3 filmes que abordavam, direta ou indiretamente, o nazismo.

 

 

Não se deixe enganar pelo elenco estrelar de Operação Valkiria. O filme é fantástico. Trata da última das 13 tentativas feitas por alemães de assassinar Hitler. No papel principal, Tom Cruise está ótimo. Repare nas caracterizações perfeitas, tanto de figurino, quanto de cenário e locação, as mesmas da história real. O figurino, em particular, foi feito com tanto capricho nos detalhes (a lã usada nos uniformes veio da mesma fábrica da época de Hitler) que quando Tom Cruise se viu caracterizado pela primeira vez no espelho ele passou mal a ponto de vomitar. Não perca.

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A Espiã não é um filme alemão, mas holandês. É interessante porque quase não se ouve falar da Holanda nesse período. A maioria das narrativas envolvendo nazismo e 2ª Guerra se passa na Alemanha, Polônia, Áustria… Enfim, a história é bem verossímil e as interpretações vicerais (Sebastian Koch, do ótimo A Vida dos Outros, faz parte do elenco). Bom pra conhecer um pouco mais a história do ponto de vista dos holandeses e ouvir um pouco essa língua diferente de quase tudo que você já ouviu. E preste atenção ao figurino… Lindoooo!!!

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Baseado no best seller homônimo, O Garoto de Pijama Listrado é um dramalhão. Releve algumas interpretações forçadas, umas escorregadas na verossimilhança e concentre-se na fábula de amizade e tolerância, que tem como protagonistas dois meninos de 8 anos: um alemãozinho, filho de um comandante, e um judeu, filho de um relojoeiro. Segure-se e vá até o final. Ah, prepare os lenços. Mesmo…

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Tá, esse já tem um tempinho, mas se você ainda não assistiu, assista já! Kate Winslet arrebatou o Oscar de Melhor Atriz por O Leitor, esse filme que ela leva nas costas brilhantemente. Também baseado em romance homônimo. Lindo, lindo, lindo… Não tem muito mais o que falar.

 

Bom “cinema”!

 

 

 

Inspiração para amar quietinho

 

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

 

– ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

 

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Ciclo Cinema Corpo e Moda – Identidade de Nós Mesmos

Último filme do ciclo foi o documentário Identidade de Nós Mesmos ou Anotações para Roupas e Cidades, de Wim Wenders.

 

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Wim Wenders acompanha Yohji Yamamoto em seu atelier, durante as provas para a coleção que será apresentada em Paris. Seu processo criativo é exposto de maneira delicada, silenciosa. Nós e o documentarista somos quase testemunhas de um momento especial, que Yamomato nos deixa assistir.

Além, é claro, do grande assunto do filme — o processo criativo de Yamamoto — há muitas argumentações paralelas: as cidades e como elas influenciam o processo, a roupa e a imaginação; o olhar do documentarista e sua avaliação da imagem que produz; a roupa e a mulher que a veste.

Trata-se de um documentário, não de uma história com começo, meio e fim. Há argumentações, não narrativas. A única coisa que tem começo, meio e fim é a produção e o desfile do estilista em Paris. Perguntar-se sobre as semelhanças e diferenças entre Paris e Tóquio, o ato de documentar, a forma como se fotografa e filma, tudo é questionado pelo diretor/narrador.

Mas vamos falar de Yamamoto… Um artista, mesmo. Um universo inteiro. Ao começar a criar para a mulher européia, ele comenta sobre as diferenças de proporção em relação ao corpo da japonesa. Além da diferença física, outros aspectos relevantes para a criação são percebidos: as emoções, a geografia, os pensamentos, o modo de vida daquela outra mulher. É outro mundo.

O processo de criação começa com a escolha do material ou com a escolha da forma. Certas formas pedem certos materiais e certos materiais pedem uma determinada forma. Cores são texturas e emoções. Por isso ele só cria em cima do preto, que para ele traz emoções mais condensadas, como a junção de todas as cores. Depois ele escolhe a matiz que será feita a peça. Mas sua paleta possui poucas cores, geralmente muito preto, algum branco e toques de vermelho.

 

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Certas formas pedem certos materiais e certos materiais pedem uma determinada forma. Cores são texturas e emoções.

Repare no tecido estruturado do blazer e das formas drapeadas do vestido/casaco. À cada um, seu material.

 

Yohji gosta de ressaltar que é japonês mas não é apenas japonês. Suas roupas não tem nacionalidade. Seu estilo é a expressão de um sentimento. Por isso, é impossível copiá-lo. Sua linguagem é única e reconhecível. Ao criar uma roupa, ele busca descobrir a “essência” dela no processo de fabricação. Gosta de ser chamado de costureiro, gosta de se debruçar sobre os moldes, presta atenção nas costuras. Adora explorar as assimetrias: lembra que quando algo é simétrico, incomoda. O ser humano não é simétrico em suas emoções, em seus pensamentos e até mesmo em seu corpo. Suas peças de roupa são tão convidativas que ele gostaria que as pessoas “morassem” nelas e se identificassem a tal ponto que, se alguém visse o casaco de alguém jogado no chão, não diria “é o casaco do fulano” mas sim “é o fulano”.

 

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Os pespontos, o preto e o branco e as assimetrias: marcas de Yamamoto.

 

Sobre estilo, ele deu uma aula: estilo pode ser uma prisão de repetições. Mas aceitar seu estilo te dá a chave para abrir essa prisão e tornar-se o guardião dela, deixando entrar somente o que você quer. Nesse aspecto, temos que pensar também no que passa e no que fica, o efêmero e o permanente. Vítimas do consumismo geralmente só enchem os armários de efemeridades, coisas que passarão, roupas que em nada se parecem com quem as comprou. O permanente é não apenas o clássico, mas algo prático, que dá a liberdade para quem o veste ser e exercer as funções que se propõe. Pessoas não deveriam consumir roupas, deveriam ser aquelas roupas. Claro que a moda movimenta o mundo. E moda não é apenas roupa: podem ser pessoas, filmes, livros, músicas e até mesmo prédios. E muitas vezes, moda também acomoda a necessidade: se você está morrendo de frio vai precisar de um casaco. Ele pode ser até assim ou assado, mas em primeiro lugar vem sua necessidade de não morrer de frio. Assim que as pessoas deveriam consumir. Consumindo tudo o que podem, acabam consumindo a vida e tudo que podem comprar como objetos, sem ter nem ao mesmo consciência desses objetos. No minuto em que estão na mão, já se tornam obsoletos. O consumista só quer o que ainda não tem, mesmo que já tenha muito. “Felicidade seria obrigar as pessoas a viverem de forma simples e sem comprar”, frase de Yamamoto que me soou como marketing, porque se todos obedecessem ele iria à falência. Mas concordo com a primeira parte: viver de forma simples também significa comprar menos e com mais consciência das suas necessidades.

 

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Reparem que em suas criações a mulher aparece sempre muito verticalizada, altiva, oferecendo um destaque para o colo e o rosto. Yamamoto significa “ao pé da montanha”. Talvez seja assim que Yohji se coloque: aos pés dessa mulher ativa, trabalhadora, executiva, guerreira. Mulheres como sua mãe, que o criou sozinha depois que seu pai morreu na guerra. Aliás, a guerra incomoda Yohji. “A guerra ainda não acabou dentro de mim”, diz ele. O sentimento de luto e de falta de futuro parece assombrá-lo e revoltá-lo. Mas ele sublima a guerra dessa forma: vivendo o presente, “desenhando o tempo”, vivendo na moda de forma atemporal e anti-glamurosa. “A simetria perfeita é feia. Precisamos quebrar, destruir um pouco”. Desconstruindo linhas, construindo sonhos. Assim segue Yamamoto.

 

Pra conhecer mais sobre o estilista, visite o site oficial. As fotos foram tiradas daqui, daqui, daqui e daqui. Essa menina é fã dos japoneses e escreve coisas lindas. Pra pensar muito.

 

Nota Importante: Esse artigo foi escrito baseado nas minhas anotações do encontro. São ideias coletadas por mim mas partilhadas por todos os que estiveram presentes. Para ver os palestrantes e seus currículos, clique aqui.

 

Obrigada ao pessoal da PUC-SP, por promover com tanto comprometimento e profissionalismo um evento com tanta qualidade. E também por me convidar! Até o próximo!

 

Inspiração para parar e ler

 

“Os homens de hoje são forçados a pensar e a executar em um minuto o que seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro e de rufos* de febre no sangue. O livro está morrendo porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de 100 páginas sobre o mesmo assunto”.

 

Olavo Bilac, em 1904

 *rufus = ondas, no sentido metafórico.

 

Arte: John Frederick Peto (1854-1907), Take Your Choice, 1885, oil on canvas, John Wilmerding Collection