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Michael Jackson – 1958-2009

Normal nunca foi uma palavra adequada para Michael Jackson. Desde pequenino, assombrava a todos com sua voz suingada e sua alegria ao cantar. Maduro, desinibido, envolvente, contagiante. Alguns duvidavam que aquele menino fenomenal tinha apenas 10 anos: “só pode ser um anãozinho de 45 anos”, diziam.

Quando dançava, então, era sobrenatural. Um dos deuses da dança que andou entre nós. Tornava-se o baixo, forte e denso, o violino chorando, um sopro, a bateria batia no ritmo do seu coração. Inventou o break-dance, criou sequências coreográficas icônicas, nos deu o moonwalk, seus giros eram impossíveis. Até hoje não tem par. Nunca terá. A energia de seu corpo em movimento era capaz de arrepiar 200 mil pessoas de só uma vez.

Mudou pra sempre a história da música: seu som juntava o soul, o black, o dance, o pop e até o rock. O primeiro artista a derrubar barreiras raciais e de gênero. Mudou a história dos videoclipes (que ele chamava de “short films” porque “a palavra vídeo não faz sentido”) e transformou o show numa performance. Ele não seguia tendência e influenciava além da música: emprestou à moda suas ombreiras, brilhos e militarismo, definiu cultura pop, reinventou a fotografia e o cinema para sua expressão artística. Músico, coreógrafo, bailarino, compositor, cantor, diretor, fotógrafo, poeta… E ele só queria ser conhecido como “entertainer”. Autêntico, inconfundível.

 Michael foi uma criança adulta e um adulto que não queria crescer, um Peter Pan que construiu sua própria Neverland, que morria de vergonha de tudo e de todos quando não estava se apresentando e que falava baixinho e com tamanha delicadeza que nem parecia ser o dono da mesma voz vibrante que explodia nos maiores palcos do mundo.

O artista que, sozinho, mais contribuiu com causas humanitárias. Morreu sem ver realizado seu maior sonho, o “Michael Jackson Children’s Hospital”, que ia ter palhaços, cinema e salão de jogos, “porque criança feliz se recupera mais rápido”.

Generoso, abraçava com o corpo todo, olhava nos olhos, gesticulava com as mãos abertas enquanto falava. Dividiu com a gente o que tinha de melhor. Quando penso em Michael, penso naqueles gritinhos, naquela mão que deslizava pelo corpo e provocava, naquele quadril soltíssimo, naqueles pés mágicos, naquele que era um dos sorrisos mais lindos do mundo. E sempre respondia aos fãs que gritavam “I love you” sem parar a níveis ensurdecedores: “I love you more”.

Deixa pra lá esses problemas que eram só dele e que a gente nem tinha o direito de bisbilhotar. Nunca ninguém sofreu tanto nas mãos da mídia marrom e teve que aguentar tantas mentiras e falsas acusações de quem só queria dinheiro, sempre o maldito dinheiro. Teve que explicar o inexplicável. E ganhou todas: “sou resistente, tenho pele de rinoceronte”. Invincible, unbreakable. Até o dia que ele quis dormir. A despedida ensaiada, o grande show, o maior de todos, a última volta ao mundo, não aconteceu. Ele deixou o palco enquanto a luz ainda estava acesa à espera dele. E todo mundo viu que ninguém mais poderia ocupar aquele lugar.

Ainda bem que temos o que ele nos deixou. Porque esse mundo vai ficar mais triste. E mais silencioso. E aquele arrepio que dava quando ele punha o casaco de paetê, a luva prateada e o chapéu e ouvíamos as primeiras batidas de Billie Jean vai virar um nó na garganta. Pelo menos por enquanto. Até a saudade deixar de ser uma lágrima e virar um brilho no olhar.

Goodnight, sweet prince.  Você sempre será o Rei do Pop.

 Vídeos de Michael Jackson no canal exclusivo do You Tube: http://www.youtube.com/michaeljackson

Inspiração para voltar a sorrir

Para Ana

 

“Quero um sorriso

que dure uma quadra

e dobre a esquina

a iluminar-me”

.

Nei Duclós, poeta brasileiro, no livro Outubro

 

Foto: Ntaimo’s niece (L) and friends having a good time, Kitwe,  Zambia: The kids are laughing at Ntaimo’s joke! – http://ie.tamu.edu/People/faculty/Ntaimo/personal_web/photos.htm

 

Inspiração para os apaixonados…

 

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

.

Florbela Espanca (1894-1930), poetisa portuguesa

 

Dia Mundial do Meio Ambiente

Tá, colocaram no calendário que hoje é dia mundial do meio ambiente. A gente vê listas de muitas coisas em todos os lugares, listas de coisas que poderíamos fazer todos os dias, como economizar água, plantar uma árvore, reciclar o lixo.

Acho digno que haja uma data para nos lembrar, mas acho péssimo que muita gente precise dela. Acho ótimo que haja um dia de mobilização, de conscientização, mas acho horrível que o esquecimento aconteça.

Lembrar do planeta é lembrarmos de nós mesmos. Você algum dia já esqueceu de viver, de respirar, de comer? Às vezes, durante nosso dia a dia atarefado, a gente esquece de se cuidar, come bobagem, não toma água. Mas a gente se recrimina, se lembra que tem que se cuidar direito, não é? Com o planeta deveria ser assim: descuidar pode até ser uma bobeada, uma vacilada, mas não a regra.

Dia Mundial do Meio Ambiente = Dia Mundial da Humanidade, das Plantas, dos Animais e do Planeta. Dia da gente se lembrar de cuidar da nossa casa. Sugestão: plante uma árvore!

 

O Chique na Berlinda

Em entrevista à Folha de São Paulo, o filósofo australiano Peter Singer diz que o consumo de luxo aumenta a pobreza

SÉRGIO DÁVILA – DE WASHINGTON

Peter Singer acha que as pessoas que gastam [dinheiro] com vinhos caros e viagens luxuosas em vez de ajudar crianças pobres são, de certa maneira, responsáveis pela morte destas. É o que ele defende em seu livro mais recente, “The Life You Can Save” [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 47], um manifesto humanitário embasado nos preceitos da bioética. É a mais nova faceta do polêmico filósofo australiano de 62 anos, que ensina esse ramo da ética na Universidade Princeton, em Nova Jersey (EUA).

As outras são a do militante pelos direitos dos animais, posição defendida em outro livro, “Animal Liberation” [Libertação Animal, Random House, 1975], considerada a obra que iniciou a faceta radical desse movimento, e “Should the Baby Live? – The Problem of Handicapped Infants” (Deve o Bebê Viver? – O Problema das Crianças com Deficiências, Oxford Univesrity Press, 1985), em que defende a eutanásia.

Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA – Segundo a Unicef, 27 mil crianças morrerão hoje. O que devemos fazer a respeito e não fazemos?
PETER SINGER – Essas mortes são evitáveis. Elas são decorrência de situações que podem ser mudadas -ausência de água limpa, falta de postos médicos locais, ausência de redes contra a malária e assim por diante. Acima de tudo, acontecem por conta da extrema pobreza, e isso também pode ser mudado. Nós deveríamos usar uma parte de nossa riqueza para ajudar a tirar as pessoas da armadilha da extrema pobreza. É errado gastarmos tanto com coisas supérfluas, enquanto outros não têm o suficiente para comer ou não têm condições de mandar suas crianças para a escola.

FOLHA – Ao mesmo tempo, 20 mil americanos perderão seus empregos hoje. O quão difícil é ser coerente em uma época de derretimento econômico?
SINGER – O problema não é coerência, mas fazer com que as pessoas pensem outras enquanto estão preocupadas com os próprios interesses. Somos egoístas por natureza, e não espero que as pessoas se tornem altruístas se estão preocupadas em pagar o aluguel.

FOLHA – O sr. dá um terço de seus rendimentos à rede de assistência global Oxfam. É suficiente? Recomenda que outros façam o mesmo?
SINGER – Eu não diria que é o suficiente; se eu fosse uma pessoa melhor, daria mais. Ao mesmo tempo, porém, não seria preciso que ninguém desse tanto quanto eu dou se apenas as pessoas mais ricas doassem algo de suas rendas. Então, em meu livro, recomendo uma porcentagem muito menor, começando por 1% da renda das pessoas. É possível ver a tabela completa no livro ou no site www.thelifeyoucansave.com, onde você pode fazer sua doação também.

FOLHA – O sr. escreveu: “Quando nós gastamos nossa sobra de dinheiro em shows, sapatos da moda, jantares sofisticados, vinhos caros ou em viagens de férias para lugares distantes, estamos fazendo algo errado”. Mas pode-se argumentar que, ao fazer isso, ajudamos a criar ou manter empregos, algo que hoje em dia é mais do que necessário. Como equilibrar esforço humanitário e capitalismo?
SINGER – A maior parte do que gastamos no que você menciona vai para pessoas que já são ricas. Se o que você compra ajuda realmente os mais pobres -talvez por meio de um esquema de comércio justo-, tudo bem, não me oponho. Mas é importante ajudar os pobres diretamente também, pois de outra maneira eles não podem se integrar à economia global. Os países mais pobres não têm a infraestrutura necessária para essa integração.

FOLHA – O sr. acha que uma das consequências da atual crise pode ser que as pessoas passem a ter uma vida mais frugal?
SINGER – Seria bom em certo sentido, especialmente do ponto de vista do ambiente, do aquecimento global.
Mas duvido que aconteça. A crise vai passar, e em alguns anos voltaremos aos nossos hábitos antigos.

Vamos pensar?

 

Inspiração para os carentes

Até onde vai a carência das pessoas…

Numa sociedade como o a do Japão, onde as pessoas estudam e trabalham até cair (ou já mesmo caídas), muitos sentem falta do que deveriam buscar: carinho e troca afetiva. Infelizmente, mesmo sendo uma das nações mais ricas do mundo, o Japão muitas vezes passa a imagem de um país de solitários. Cheios da grana, sim, mas sozinhos. Quem já não ouviu falar dos hotéis casulos, das pessoas que moram em cyber cafés, dos executivos que só vivem para o trabalho? A riqueza financeira não consegue subornar a carência emocional.

Fiquei sabendo que há no Japão, hoje, os “Cat Cafés”, bares que “alugam” gatos para passar algumas horas com as pessoas. O negócio é um sucesso: por $10 dólares, pode-se passar uma hora com o bichano que você escolher, ou tirar fotos com seus felinos preferidos. Em um deles, o Ja La La Café, no agitado bairro de Akihabara, em Tóquio, cerca de 12 gatos fazem as honras da casa. Os japoneses amam gatos e cuidam muito bem deles.

O lugar é muito frequentado por homens e mulheres que moram sozinhos, são tímidos e introvertidos, que desejariam ter um gato mas que trabalham e/ou viajam muito a trabalho. Além disso, por causa do espaço reduzido, fica difícil ter um animal de estimação. Alguém consegue adivinhar porque o tamagochi fez tanto sucesso há uns 15 anos?

O legal de ter um animal é poder estabelecer uma rotina com ele, conhecer seus hábitos e manias, até sua comida favorita. Quem tem gatos sabe que eles adoram rotinas e ficam meio perdidos quando alguma coisa fica diferente. Também acostumam-se com seus donos, conhecem seus hábitos, cheiros e conseguem até detectar mudanças de humor. Os gatos têm personalidade forte, assumem papéis quando em contato ou convivência com outros gatos e “mandam” no dono, no bom sentido. É que gatos têm vida própria, embora entrem em acordo com os humanos que vivem com eles. Por isso gostam, como qualquer ‘pessoa’ gostaria, que as coisas sejam feitas à sua maneira.

Ver um gato de vez em quando é muito bom mas tê-lo ao seu lado todos os dias é bem melhor. Para o humano e para o gato. Quando as pessoas escolhem paliativos para suas carências acabam desconsiderando o que seria ideal para a outra parte, neste caso, o gato. Por mais que as pessoas digam que o gato é um animal independente (e é mesmo) ele adora ter um dono, um colo e alguém para amar. Nós, humanos, também somos independentes e gostamos disso, mas de vez em quando também queremos colo, segurança e amor. Com os gatos é a mesma coisa. E quando queremos ficar sozinhos, podemos gritar, brigar e até mesmo fazer coisas que depois nos arrependamos. Com um gato também é assim: se ele te arranhar depois de meia hora de alisamento de pêlo, ele quer dizer “agora chega que eu quero paz”. Temos que entender os gestos, já que não falamos o mesmo idioma. Considerar o gato traiçoeiro ou dizer que não se pode confiar é o mesmo que admitir que se é ignorante no assunto e não quer aprender. É a mesma coisa que falar que uma pessoa de cor ou religião diferente da sua é inferior ou menos capaz. Ou seja, é o fim do mundo.

Fora isso, admiro a ideia: já que não se pode ter ou cuidar de um animalzinho, que seja assim. É também uma atitude altruísta, pensando que é melhor que o gato fique num lugar onde ele é bem tratado do que trancado num cubículo, só pra você poder chamá-lo de seu. Se eu estivesse no Japão, visitaria um “bar de gatos”. São essas coisas que fazem do Japão um dos lugares mais interessantes do mundo.

Fiquem com as fotos dos “Cat Café” e depois podem ir abraçar o seu bichano ou seu cachorrinho. Se não tiver um bichinho, vai abraçar o pai, a mãe, ou o namorado/a. Carência se resolve com contato.

 

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 Todas as fotos são do UOL